quinta-feira, 9 de julho de 2015

coisas da educação... lições de vida, as 'elites e as camisetas'...!



"Talvez custe compreender aos leitores com menos de 40 anos porque (como tudo) esta marca “democratizou-se” e, verdadeiras ou compradas na feira, estão ao alcance de quase toda a gente. E nada me move contra a marca, que fique claro! Mas façam um exercício de imaginação e tentem situar-se nos anos 60 do século passado.

Foi uma experiência pessoal quando andava no Liceu Pedro Nunes (teria cerca de 11 ou 12 anos). Um grupo de alunos do liceu – se algum deles ainda se lembrar do facto espero que se ria, porque será um bom sinal – resolveu formar um clube que se chamava Clube dos Meninos Que Usam Camisa Lacoste (só o nome e a menção a “meninos” já é ridícula).
Esclareça-se que estas camisas eram das primeiras “de marca” e o seu preço proibitivo. Daí a escolha deste ícone para critério de selecção para entrada no “clube” desses pequenos pseudo machos alfa.

À noite fui ter com o meu pai e pedi--lhe que me comprasse uma camisa Lacoste, mas obviamente nunca mencionei os verdadeiros motivos. O meu pai, que tinha um grande sentido ético e o culto do rigor e da justiça, tentou averiguar do meu interesse súbito por tal peça de vestuário. Esforcei--me quanto pude: “são óptimas”, “são giras”, “toda a gente tem”.

Não foram razões suficientemente boas. Parco de argumentos, descaí-me e contei a verdade. O clube! A resposta dele foi taxativa: “Posso-lhe comprar a camisa, mas nunca por causa de um clube assim. Dê-me uma razão lógica e penso no assunto. Se não, pode esquecer a camisa. E quanto ao clube, sugiro que forme, já amanhã, o Clube dos Meninos Cujos Pais não Vão Comprar Uma Camisa Lacoste.” 

Engoli e no dia seguinte, para meu vexame, passei a pertencer a uma minoria social. Mas vi, com o breve passar do tempo, que as razões frívolas e elitistas da criação deste clube eram tão ridículas como patetas, tão absurdas como a sua duração efémera: o clube extinguiu-se passada uma semana.

Agradeço profundamente ao meu pai não me ter comprado a camisa. O que me ensinou foi a convicção com que defendeu as suas ideias e valores, não os hipotecando (e ensinando-me a não capitular) perante modas, ditames pessoais ou lógicas acéfalas de grupo.

Hoje podemos aplicar este episódio a todo o tipo de coisas: consolas, tablets, iPhones, iPads e “Ai-de-nós”. A exigência da moda não se faz apenas na estética – o que já é, do meu ponto de vista, um pouco esdrúxulo porque aplicado a um aspecto da vida que é totalmente subjectivo –, mas também a bens, ídolos, costumes, hábitos e pensamentos. A irracionalidade da carneirada substitui em muitos casos o livre pensamento, uma ideia que terá começado em Thomas More e Voltaire e defende o primado da ciência, da lógica e da razão sobre a tradição, a autoridade arbitrária e não eleita e o dogma.

Basta ver alguns programas da televisão generalista ou comprar algumas revistas e jornais para se poder ver, ouvir e ler o que é a crítica e o desprezo relativamente aos que não seguem um qualquer Diktat, definido sem regras e sem causas, por alguém que “é conhecido porque aparece e aparece porque é conhecido”.

Sempre existiu frivolidade nas sociedades e a superficialidade pode até ser uma parcela de uma vivência feliz e saudável, como tubo de escape para o stresse e a realidade das coisas importantes. Todavia, quando para lá da cortina de fumo nada mais há, quando a crosta não encerra nenhum miolo, quando a mera cópia do que “todos dizem” ou “toda a gente faz” é razão suficiente para moldar os nossos comportamentos, muito mal estaremos enquanto cidadãos livres, capazes, interrogativos, reflexivos e pessoas únicas, irrepetíveis e insubstituíveis.

O meu pai não me comprou a camisa Lacoste. Podia tê-lo feito e simultaneamente calar e comprar um filho que não queria fazer de fraco… Deu -me, em troca, uma lição de vida e de coerência e mostrou que fraqueza era ter aderido por demissão a uma ideia estúpida.

Obrigado, pai!"

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