segunda-feira, 21 de setembro de 2015

a actualidade do dia-a-dia, numa visão pessoal do jornalista...!


Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Valdemar Cruz
Por Valdemar Cruz
Jornalista
 
21 de Setembro de 2015
 
O mundo é uma fábrica de cenários
 
Hoje a minha madrugada foi interrompida por um despertar carregado de dúvidas e afogado em cenários. Qual foi o facto, político ou outro, mais importante do fim de semana? A manchete do Expresso a garantir que Cavaco dará posse a quem tiver mais mandatos? A vitória do Syriza numas eleições gregas disputadas sem grande paixão e com elevada dose de abstenção? O início oficial de uma campanha eleitoral que anda a arrastar-se pelas televisões e jornais há longos meses? A persistente incapacidade da Europa para encontrar uma solução para o problema dos refugiados, com os EUA a disponibilizarem-se para receber 185 mil até 2017? Ou, ai, ai André André, lá tinha de vir o futebol, aquele golo fatal marcado aos 86 minutos de jogo e a ditar a derrota do Benfica frente ao FC Porto?

A escolha é difícil. Qualquer daqueles episódios pode gerar múltiplos cenários e diversificadas leituras, tal como as sondagens divulgadas dia a dia em diferentes órgãos de comunicação social. Há uns anos, o Museu Britânico dedicou uma grande exposição a Shakespeare e escolheu para título do catálogo uma ideia de encenação do mundo ("Staging de World"). Na contracapa deixava duas interrogações: "O que é um admirável mundo novo?" e "O mundo foi sempre um palco?".

O admirável mundo novo é este vivido a cada ciclo de quatro anos. Já dizia o apóstolo João, a abrir o seu Evangelho, que no princípio era o verbo. Aprisionado, castrado, diminuído, de vez em quando liberta-se. Como se prevê aconteça neste tempo de descobertas iniciado ontem e com prolongamento até 2 de outubro. As televisões, os jornais, os rádios mergulham numa espécie de deslumbramento. Afinal o mundo político português não é raquítico. Há múltiplas visões da política. Há múltiplas propostas de construção da sociedade. Há propostas de alternância, como há propostas alternativas.

Isso reconduz-nos às dúvidas e à exploração de cenários. O caminho para a vitória nas próximas eleições passa pela sedução do voto feminino, como explica o DN com uma foto de Paulo Portas? Mas não foi o mesmo Portas a deixar as mulheres, muitas mulheres, fora de si com o papel que lhes quis devolver como fadas do lar? O PR vai mesmo dar posse ao partido com mais mandatos, como assegura Marcelo Rebelo de Sousa na TVI? Esse partido, a fazer fé nas sondagens, é o PS, ou a coligação governamental? E a coligação governamental existe enquanto grupo parlamentar? Ou tudo isto, como acentuam Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, é apenas um modo de forçar uma maioria absoluta pelo P.R. e radicada numa inc´gnita construída à volta de "opções falsamente opostas"? E como compreender um Passos Coelho cuja linha central do discurso tem sido defender-se com o passado que diz ter sido deixado pelo PS para, avança o Negócios, mudar de estratégia e admitir ser necessário passar a falar do futuro? E António Costa? Consegue criar pontes à esquerda ao assumir uma frontal oposição ao modelo de ensino e segurança social proposto pela direita assente numa putativa liberdade de escolha?

E a vitória do Syriza? Deixa tudo na mesma, como assegura o jornal I, ou nada pode ficar na mesma quando passaram as eleições, mas não passou a crise? Não é verdade que Bruxelas está já a pressionar medidas urgentes para poderem ser libertados 3 000 milhões de euros em novembro? Com os gregos fartos de austeridade e com a obrigatoriedade aceite por Tsipras de avançar no imediato com mais cortes nas pensões e importantes ajustes no sistema financeiro, não é uma probabilidade forte que o terceiro resgate descarrile completamente e volte a estar em cima da mesa a saída da Grécia do euro?

E os refugiados? Como se esperava, começou a fase descendente da sua presença mediática. O problema não acabou, mas os jornais começam a cansar-se e aueles homens, mulheres e crianças vão passar a ter uma decrescente presença nas primeiras páginas. Nada se resolveu e no jornal suíço Le Temps, Michel Porret, professor de História Moderna na Universidade de Genebra, escreve uma crónica intitulada "Os arames farpados da vergonha". Aí fala do vexante regresso do arame farpado á Europa e estabelece um paralelo entre este tipo de barreiras colocadas pelo governo húngaro e o mesmo arame farpado utilizado na I Guerra Mundial ou pelos nazis. É urgente uma resposta. É urgente uma solução. O problema resolve-se do lado de cá, com a aviltante imposição de quotas, ou passa por uma intervenção do lado de lá, criando condições de desenvolvimento e, sobretudo, não fomentando os ódios e as guerras locais? Este mapa, organizado por uma estrutura das Nações Unidas, mostra-nos de onde quase dois milhões de sírios se viram forçados a fugir só este ano.

Embora tenha acordado espantado, adormeci bem, admito-o. Vi o FC Porto-Benfica no Aduela, um bar frente ao Teatro Carlos Alberto, no Porto. Foi um massacre, não pelo jogo jogado por qualquer das equipas, mas por um portista assanhado, também simpatizante do Spoting, segundo declarou, sentado atrás de mim, mais nervoso que um rebanho esquizofrénico e completamente zangado com o mundo, com o país, com a cidade, com o FC Porto, com os jogadores e, prevejo, com todos nós. Só se calou aos 86 minutos. Isto é, gritou e calou-se. Não sei se foi pelo fantástico golo que levou o jornal O Jogo a titular "Puro Sangue" com uma foto de André André, filho do inesquecível André, um médio que sempre foi um esteio do FC Porto. O jornal A Bola invoca na primeira página a "Classe Lusitana" e destaca as palavras de Lopetegui, para quem André "está a criar a sua própria história". O Record é mais telegráfico. "Decisivo", limita-se a constatar. É mais forte do que eu. Não resisto e de novo me assaltam as dúvidas. Uma vitória sobre um rival direto à quinta jornada, com tanto campeonato por disputar pode assumir um papel decisivo par as contas finais?

Como se vê, o mundo é um palco carregado de incógnitas. Talvez daí a necessidade de criar cenários para os muitos palcos da vida.

OUTRAS NOTÍCIAS
Os patrões e a UGT defendem um acordo pós-eleitoral entre PS e a coligação. Este é o título principal do I na sua edição de hoje, construído a partir de uma declaração de um dirigente da UGT.

Portugal vai pagar mais de 10 mil milhões ao FMI até dezembro, anuncia o DN. O matutino específica que o pagamento é 20 vezes superior aos 500 milhões previstos neste ano e para o fazer o governo contraiu mais dívida. O objetivo é poupar 730 milhões de euros em juros nos próximos quatro anos.

Nos transportes públicos há cada vez mais quem tente viajar sem pagar. Os vigilantes atuam e passam multas, quando podem e quando aparecem. Só nos primeiros seis meses deste ano, as coimas por cobrar na CP, Metro de Lisboa, Carris, Metro do Porto e STCP atingem os 9,5 milhões de euros, assegura o Público.

O ano escolar já terá começado, mesmo se ainda ninguém notou. A maior parte das escolas só abre portas hoje para receber os alunos e só dentro de dias, diz o Público a partir de um alerta dos diretores escolares, se saberá se as aulas começaram sem problemas,

Nos próximos dias os olhares vão começar a virar-se com mais intensidade para a Catalunha. A 27 deste mês realizam-se eleições e uma sondagem divulgada pelo El País revela que os independentistas conseguirão a maioria de deputados e estão já próximos dos 50% de votos. Vai ser uma dor de cabeça para a União Europeia, para Espanha, e até para a Liga Espanhola. Estranho? Pois é. Acontece que, caso a Catalunha se declare independente (assunto para muita discussão, pois a Constituição Espanhola não prevê a declaração unilateral), o Barcelona deixará de jogar na I Liga. É conhecido o forte pendor independentista de significativas franjas de apoiantes do Barça, mas pode nem ser essa a questão. O problema é levantado pelo Conselho Superior de Desportos espanhol, segundo o qual uma equipa estrangeira não pode filiar-se na federação espanhola. Mais um debate apaixonante a aproximar-se.

O Papa Francisco visitou Havana. Trocou livros com Fidel Castro. Nada como uma espreitadela ao Granma, órgão oficial do Comité Central do Partido Comunista de Cuba para ver e perceber como se vivem por ali tempos de mudança, aqui regado com um faustoso manancial de fotos e vídeos sobre a visita. Curiosa a foto de Raul Castro a assistir à missa na companhia de Cristina de Fernández de Kirchner, presidente da Argentina. Faltará perceber o sentido, a direção, os caminhos a percorrer. Mas os sinais estão lá.

Em Inglaterra, o combate ao terrorismo está a entrar por caminhos inesperados. O MI5, relata o Guardian, tem vindo a pagar a muçulmanos para efetuarem ações esporádicas de espionagem junto das suas comunidades, de modo a prevenirem ataques terrortistas. Em conreto, o jornal dá conta de um pagamento de 2 000 libras pelos serviços secretos ingleses para uma ação de espionagem numa mesquita durante seis semanas.

No Burkina Faso ocorreu há dias mais um golpe de estado. A união Africana decidiu suspender relações com o país e impor sanções, enquanto a cadeia de televisão Al Jazeera publica um muito curioso trabalho feito a partir de uma interrogação: porque é os golpes de estado são tão frequentes em África? Lá está. Mais uma incógnita. Desde 1960 já ocorreram, pelo menos, 200 golpes de estado no continente africano. Quantos mortos? Quantas vidas destroçadas? Que sociedades resultaram dos golpes?

A cidade de Palmira ocupou os noticiários devido à destruição pelo chamado Estado Islâmico de alguns dos seus templos. Reconheça-se que, não fora esta sanha destruidora, poucos seriam os conhecedores da riqueza patrimonial ali escondida. O resultado, sublinha a revista de arte Appolo, é que hoje estamos provavelmente mais familiarizados com as imagens da destruição da arte de Palmira, do que com a arte em si mesma. Para colmatar a falha, a revista propõe uma viagem durante a qual é possível ver tesouros artísticos de Palmira preservados em vários museus do mundo, como o Louvre, o Britânico, ou o Metropolitan de Nova Iorque.

Tinha 77 anos e morreu. Chamavam-lhe a raínha da literatura cor de rosa. Jackie Collins, que dizia nunca ter sentido vergonha por escrever sobre sexo (e porque havia de sentir?), estava traduzida em mais de 40 países, não resistiu a um cancro da mama. Os seus livros eram, por regra, colocados entre os mais vendidos das listas do New York Times. Estreou-se na escrita em, 1968 com o romance "O Mundo está cheio de homens casados". O Guardian aproveitou para publicar a última entrevista dada por Collins em Inglaterra. Aconteceu apenas há duas semanas. O título: "Continuo por cá, Gosto do que faço".

Vai um grande alvoroço em Inglaterra com a transmissão de novos episódios de Downtown Abbey. Os jornais publicam destaques com notícias, resumos, e atéavisos para quem não tenha visto o primeiro episódio da nova temporada.

FRASES
"Os socialistas foram tomados de assalto por um grupo ultraliberal". Paulo Portas em Mafra

"É um escândalo que o ministério transfira para o ensino privado 160 milhões de euros sem auditoria". Mário Pereira, ex-diretor-geral da Administração Escolar em entrevista ao Diário Económico

"Sinto os meus atos justificados". Alexis Tsipras após a vitória nas eleições gregas

"Eu não gosto de pagar salários. Pago o mínimo que puder". Patrick Drahi, fundador da Altice, nova dona da PT

"Estas eleições são a legalização da capitulação da Grécia". Yannis Varoufakis, ex-ministro das Finanças eleito pelo Syriza

"O estado de sítio de Pinochet respeitava mais os direitos humanos que Maduro". Filipe González, ex-primeiro ministro espanhol em Madrid numa sessão de apoio ao opositor venezuelano Leopoldo López

"Acreditamos mais e fomos claramente superiores". Julen Lopetegui, treinador do FC Porto

"Não ganhamos, mas ainda falta muito campeonato". Rui Vitória, treinador do Benfica

O QUE ANDO A LER
Nos anos de 1990 a edição de domingo do jornal inglês "The Independent", cuja leitura tinha na altura como obrigatória, incluía uma coluna semanal de grande sucesso, assinada por Christian Wolmar, sobre o caos e os absurdos provocados pela privatização dos caminhos de ferro britânicos. Intitulava-se "The Great Railway Disaster" e deu mais tarde origem a um livro com o mesmo nome. Ocorreram-me aqueles textos enquanto caminhava para o final da leitura de "Privataria", o livro assinado por Mariana Mortágua e Jorge Costa, editado pela "Bertrand". Pedro Santos Guerreiro apresentou o livro no Expresso Diário de 1 de julho passado.

O título resulta de um neologismo criado pelo jornalista brasileiro Elio Gaspari a pretexto de uma investigação sobre as privatizações concretizadas no Brasil durante o consulado de Fernando Henrique Cardoso e é em si mesmo uma tomada de posição, não necessariamente ideológica, sobre o modo como têm decorrido as privatizações. Como os autores são ambos militantes do Bloco de Esquerda haverá a tentação de desvalorizar o levantamento feito a partir de um preconceito ideológico. Porém, quando julgávamos já saber tudo, e lemos sobre os favores, os preços de saldo, as subavaliações, as influências de escritórios de advogados, a participação de ministros que já não são ministros, mas administram as empresas que tutelavam, os injustificados perdões fiscais, as propositadas más gestões de empresas públicas, as participações cruzadas de múltiplos interesses, a delapidação do património, tudo documentado, tudo com nomes, tudo com datas e valores, é difícil não sentir um arrepio no estomago. E não consta que os arrepios, ou até mesmo os do estomago, tenham preferências ideológicas.

Portugal está praticamente privatizado. Ao nível da estrutura empresarial, já quase nada resta. Desde o início do resgate financeiro, o Estado arrecadou 9,3 mil milhões de euros (pouco mais de um ano de juros da dívida pública) com a venda de empresas como a EDP, CTT, Galp, TAP, ANA, REN, PT, Cimpor, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (mas que história tão exemplar) e outras. Mantém para já a CGD, ainda não conseguiu desfazer-se da RTP da Emef ou da CP carga, mas lá iremos. Nem a vontade esmoreceu, nem isto é o fim desta história. A mira encontra sempre muitos alvos. A saúde, a segurança social, a educação são muito apetecíveis.

Não por acaso, "Privataria" recusa apresentar-se como um livro sobre a crise. Desde logo por, escrevem os autores, a vaga privatizadora "ser muito anterior, não responde à crise nem aprendeu com ela". Vem de Cavaco Primeiro-Ministro, prosseguiu com Guterres, acentuou-se com Sócrates, atingiu o Zénite com a dupla Passos/Portas. Os sucessivos governos do PSD/CDS/PS optaram, nos últimos quarenta anos, por diferentes ciclos e níveis de privatização, sempre com dois argumentos centrais: privatiza-se porque a gestão pública é por definição ineficaz e porque se conseguirá, assim, um país melhor. Em 1999, o ex-ministro de Sócrates, Teixeira dos Santos, então Secretário de Estado do Tesouro teorizou sobre o assunto para dizer que os programas de privatizações fixaram os seguintes objetivos: "(i)promover o reforço da competitividade da economia portuguesa, (ii) dinamizar o mercado de capitais, (iii) reestruturar e reforçar os setores produtivos da economia nacional, (…), (v) contribuir para a redução do stock acumulado de dívida pública (…), (vii) defender os interesses patrimoniais do Estado". Passado todo este tempo e todas estas privatizações, este foi o estado a que chegamos. A dívida pública é estratosférica, e ninguém sabe como ou quando será paga.

Já agora, na Grã Bretanha, a única solução para evitar o desastre total foi, em 2002, fazer a rede ferroviária regressar ao controlo público.

Mudemos de agulha. Teresa Veiga. DIz-lhe alguma coisa? Se não diz, vá depressa a uma qualquer livraria procurar o último livro de uma das mais voluntariamente desconhecidas escritoras portuguesas e, ao mesmo tempo, (arrisco dizê-lo), a mais extraordinária contista portuguesa contemporânea, já várias vezes premiada. Publicou na Tinta da China "Gente Melancolicamente Louca", um conjunto de onze contos marcados por incomum sentido de humor, uma enorme disponibilidade para a ironia, uma tremenda capacidade de trabalhar com um singular rigor uma escrita, muito limpa, muito enxuta.

A fechar, uma leitura destinada a ginasticar o cérebro com o seu quê de especulativo. A luz, dizem-nos, viaja à velocidade de 300 mil km por segundo. Mas porquê exatamente a essa velocidade? Não poderia ser mais rápida? Porque não mais lenta? As aproximações a uma resposta podem ser lidas aqui, numa nova teoria agora divulgada.

E por hoje chega. Aí fica um generoso cimablino tirado no Porto com gosto. Ao longo do dia mantenha-se atento ao site do Expresso, ao seu Snapchat (snap-expresso) ou ao WhatsApp (basta adicionar o número 963 291 397 aos contactos do seu telemóvel e, depois, enviar uma mensagem Whatsapp a dizer 'Subscrever'). A partir das 18 horas teremos o Expresso Diário e, nesta encenação contínua do mundo em que vivemos, nada para, nada se perde e tudo se noticia. É o que fará amanhã logo pela fresca o Martim Silva com o seu Expresso Curto.Tenha um muito bom dia e dê-nos notícias.