quarta-feira, 23 de setembro de 2015

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Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Nicolau Santos
Por Nicolau Santos
Diretor-Adjunto
 
23 de Setembro de 2015
 
Confiança é a palavra-chave. Você confia?
 



Não, não foi num país do sul da Europa que aconteceu. Não foi na Grécia, nem em Portugal, nem em Espanha, nem em Itália, cujos povos são sempre olhados com desconfiança pelo norte da Europa. Aconteceu mesmo no coração da Europa, na locomotiva das economias do Velho Continente, naquele Estado que insiste em dar lições de comportamento aos países periféricos da zona euro. Afinal, na respeitável Alemanha, há quem faça jogo muito sujo.

Até dia 21 de setembro de 2015, a Volkswagen era uma das mais respeitadas marcas automóveis mundiais e uma imagem da fiabilidade e credibilidade germânicas. Mas há dois dias tudo mudou. Para ganhar quota de mercado nos Estados Unidos, a multinacional alemã pensou que podia enganar as entidades reguladoras norte-americanas, mas, muito mais importante, não se importou, para tentar atingir os seus objetivos, de enganar milhões de consumidores que acreditavam na marca e compraram os seus veículos.

O orgulho alemão foi atropelado pela Volkswagen. O escândalo já alastrou. Reguladores europeus e na Ásia vão investigar o fabricante alemão e outros podem estar na mira. A queda em Bolsa já vai em 35% e em 24,5 mil milhões de euros. E arrasta os concorrentes e fornecedores.

Onze milhões de carros da Volkswagen foram falseados nas emissões de gases. É muita falsificação. O caso foi detetado nos EUA e a empresa arrisca uma multa de 18 mil milhões de dólares. O líder da VW, Martin Winterkorn, promete “uma investigação transparente e rápida” ao caso. Mas o mais certo é já não ser ele a divulgar os resultados. Com um contrato a terminar no final de 2016 - recentemente prolongado até dezembro de 2018 - o atual presidente da Volkswagem enfrenta uma pressão crescente para que renuncie, mas ele ainda acredita que pode remediar o que aconteceu. “Milhões de pessoas pelo mundo confiam nas nossas marcas, nos nossos carros e na nossa tecnologia. Lamento infinitamente ter desapontado essa confiança”. E concluiu: “Vamos limpar isto”.

Qualquer que seja o impacto deste abalo no construtor alemão, a VW corre um risco muito maior. É que o Exterminador Implacável está «furioso» com a marca alemã. Expliquemo-nos. Arnold Schwarzenegger, que foi governador da Califórnia no período em que não fez filmes, utilizou o Facebook para lembrar o dia em que o fabricante alemão o processou e como não acreditou quando lhe disseram que os seus motores diesel eram "limpos".

Onde a confiança não reina de todo é entre os Estados-membros da União Europeia, que aprovaram um plano de distribuição de 120 mil refugiados mas com os votos contra da Hungria, República Checa, Roménia e Eslováquia. Finlândia e a Polónia abstiveram-se. Portugal vai receber até 4500 refugiados.

Por cá, na cacafonia inevitável da campanha eleitoral, confiança é também o que procuram os partidos. A coligação Portugal à Frente tem desenvolvido uma estratégia extraordinária. Os seus dois líderes estão a conseguir que não se analise detalhadamente o que se passou nos últimos quatro anos mas sim que a discussão esteja a ser concentrada em torno do programa do PS. É verdadeiramente surpreendente que tal esteja a acontecer. Mas não só está a acontecer como está a dar dividendos, segundo as sondagens, que mostram de forma cada vez mais consistente que a coligação lidera as intenções de voto, com 3,2 pontos à frente do PS. Trata-se da bússola eleitoral que o Público divulga todos os dias e que, sublinha, não é uma sondagem, já que os participantes não constituem uma amostra do universo dos eleitores. Mas a sondagem diária do Correio da Manhã confirma a tendência: 35,9% para a coligação, 34,7% para o PS.

Não há pobreza, não há desigualdades sociais, não há cortes nos salários e pensões, não há promessas que tenham ficado sucessivamente por cumprir, não há 485 mil portugueses que tenham sido obrigados a emigrar entre 2011 e 2014, segundo dados ontem divulgados pelo INE, não há problemas no Serviço Nacional de Saúde, nem na Justiça, nem na Educação. Nada. O grande problema do país é o programa do PS. A confiança é tanta pelo PàF que Passos Coelho já se permite dizer que tem «o nome do futuro ministro das Finanças na cabeça». Embora, claro, primeiro seja preciso ganhar as eleições, porque «não se esfola um coelho antes de o caçar». Ah, Passos fez a afirmação, tendo ao seu lado a atual ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. Mais. Paulo Portas subiu ao palco para perguntar em quem os presentes no comício confiavam mais: em Maria Luís Albuquerque ou em Teixeira dos Santos ou Mário Centeno? Boa pergunta. Mas alguém podia ter perguntado a Portas porque se demitiu de forma «irrevogável» no verão de 2012 quando Vítor Gaspar deixou o Governo e Passos Coelho optou por substituí-lo por Maria Luís.

E por falar em ministro das Finanças, quem não prescinde do seu é Alexis Tsipras. O primeiro-ministro grego, que já formou governo, mantém Euclides Tsakalotos à frente das Finanças gregas, embora este esteja descontente com a viragem do Syriza ao centro.

Quem certamente é credor de muita confiança é o Papa Francisco, que chegou ontem à base aérea de Andrews, em Washington para uma visita histórica aos EUA, que inclui deslocações a Filadélfia e Nova Iorque. Foi recebido pelo Presidente Barack Obama na pista e depois seguiu para a capital americana, a bordo de um Fiat 500 L, naqSócratesuilo que foi interpretado como um sinal de humildade por muitos observadores.

Homem de confiança para o seu treinador é seguramente um polaco que saiu do banco ao intervalo, deu nove toques na bola e marcou cinco golos em oito minutos e 59 segundos. O Bayern de Munique perdia em casa com o Wolfsburgo (0-1). Acabou por golear 5-1. E foi assim a incrível noite de Robert Lewandowski.

Quem não esquece a confiança em Cristiano Ronaldo é o mítico treinador do Manchester United, Alex Fergunson, que escreve no seu mais recente livro: "Não pretendo diminuir ou criticar nenhum dos grandes ou muito bons futebolistas com quem trabalhei ao longo da minha carreira de 27 anos, mas só quatro é que eram de classe mundial: [Eric] Cantona, [Ryan] Giggs, Ronaldo e [Paul] Scholes. E, dos quatro, Ronaldo era como um ornamento no cimo de uma árvore de Natal".

E quem não tem nenhum confiança recíproca é o juiz Carlos Alexandre e José Sócrates. Agora, o ex-primeiro-ministro, que se encontra em prisão domiciliária, diz que apenas irá informar o juiz Carlos Alexandre da intenção de votar mas assume não querer que a polícia o acompanhe. E João Araújo, o advogado de Sócrates, sustenta que a lei não obriga a que os arguidos peçam autorização. Veremos quem ganha o novo braço-de-ferro.
OUTRAS NOTÍCIAS
«Não existe nenhum país do mundo que tenha uma esperança média de vida tão elevada e, ao mesmo tempo, um rendimento tão baixo», afirma o médico sueco Hans Rosling, fundador da Gapminder, que veio a Lisboa para o quinto aniversário da base de dados Pordata. E disse mesmo, segundo o jornal i, que «Portugal é a Hong-Kong da Europa» e «está usar ao máximo os seus recursos para garabtir boa saúde» aos cidadãos.

Em tempos difíceis, gastar bem (e menos) é essencial. Um estudo da Deco ajuda os consumidores a optar. A cadeia Jumbo ganha a todos os níveis na comparação de preços nos hipermercados: marcas de fabricante, no cabaz com os valores mínimos independente da marca, na mercearia e drogaria, nos frescos e nas vendas online. E as poupanças podem chegar até aos 350 euros.

Numa conferência promovida pela ANACOM, os presidentes de quatro operadores de telecomunicações (PT, NOS, Vodafone e Microsoft) dizem que quem vai suportar os custos do fim do roaming, previsto para 2017, são os clientes portugueses. E quem vai ganhar são os turistas do norte da Europa, sempre que vierem desfrutar do nosso ameno clima. Outro facto verdadeiramente extraordinário.

Do continente negro vem uma boa notícia. Portugal ultrapassa China e recupera liderança nas exportações para Angola. Ou melhor, a quebra das nossas exportações para Angola foi inferior à quebra das exportações chinesas. Não é grande consolo, mas é o que há.

O que está a correr bem é o tráfego no aeroporto de Lisboa, que recebe actualmente entre 17 a 18 milhões de passageiros por ano, um valor que coloca em cima da mesa a questão de um novo aeroporto. Segundo o presidente e CEO da Vinci, isso poderá acontecer antes do previsto e obrigará a rever os termos do contrato de concessão da ANA. Por outras palavras, a Vinci quer autorização para aumentar mais rapidamente as taxas portuárias ou obter outro tipo de contrapartidas por parte do Estado para construir um novo aeroporto.

O que certamente é fundamental é ir ao Centro Cultural de Belém ver a exposição do arquiteto Carrilho da Graça ontem inaugurada que demonstra o ponto de vista de um dos maiores arquitetos nacionais sobre a capital do país.

FRASES
"Portugal não está vencido e tem futuro". Padre Lino Maia, Diário Económico

"Os direitos fundamentais não se asseguram por subscrições públicas". António Costa criticando a proposta de Passos Coelho de fazer uma subscrição pública para ajudar os lesados do BES a colocarem o caso nos tribunais

"O senhor é muito jeitoso. É uma grande brasa". Idosa para Passos Coelho ontem no Montijo, jornal i

"Ah, até fico corado". Passos Coelho em resposta à idosa

"Assusta tanta preparação e tanta incompetência". Paulo Portas sobre António Costa, jornal i

"O facto de ser uma vedeta mediática e irrequieta não lhe retira credibilidade para exercer a difícil função de Presidente". Eduardo Oliveira e Silva sobre Marcelo Rebelo de Sousa, jornal i

"As coisas mais importantes da vida não servem para nada". António Fonseca, ator, que está em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas com «O Contrabaixo», de Patrick Suskind

O QUE ANDO A LER E A OUVIR
«Usar e jogar fora, era esse o sistema dele. Só que comigo não. O Máiquel, eu devia ter dito antes de apertar o gatilho e matar aquele traidor, o Máiquel não se joga fora. O Máiquel esta aqui. E vai continuar vivo. Porque o Máiquel aguenta o tranco. O Máiquel é forte. Uma pena a gente não poder matar a mesma pessoa duas vezes».

É assim quer escreve a brasileira Patrícia Melo, que tem vindo a ganhar sucessivos prémios nacionais e internacionais. «Mundo Perdido» é um romance que nos prende da primeira à última linha e conta a história de um marginal, cuja mulher foge com a filha e casa com um pastor evangélico, daqueles que abundam pelo Brasil e que vivem muito bem à custa do dízimo dos crentes. Máiquel vai percorrer o Brasil de lés-a-lés em busca de vingança. Pelo meio cruza-se com traficantes de droga, polícias corruptos, jovens e mulheres à deriva na vida e adota um cão tinhoso e coxo, a que dá o nome de Tigre.

Para ouvir nada melhor do que ir a correr a uma discoteca ver se já está disponível o último CD de Adriana Calcanhoto (sim, eu sei que já não se usa este método, mas eu ainda o utilizo). Tive a sorte de uma amiga me ter dado o CD, ainda por cima com uma dedicatória da Adriana, que ontem estava por Lisboa a promover precisamente o dito cujo. «Loucura» é um disco belíssimo, em que Calcanhoto volta ao registo intimista que a celebrizou, cantando do princípio ao fim Lupiscínio Rodrigues, um dos maiores compositores brasileiros. «Homenagem», «Ela disse-me assim», «Loucura», «Volta», «Felicidade» e «Se acaso você chegasse» são temas para ouvir muitas vezes, com um prazer sempre renovado. É o regresso de Calcanhoto no seu melhor.