quarta-feira, 21 de outubro de 2015

a actualidade do dia-a-dia, numa visão pessoal do jornalista...!

Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
 
21 de Outubro de 2015
 
10 dias que vão abalar o nosso mundo
 




Então é assim: para começar é melhor não levar muito a sério, ou pelo menos de forma definitiva, aquilo que políticos, comentadores e afins lhe dizem nestes dias, sobretudo quando falam de forma muito segura. Em bom rigor estão todos a apalpar terreno e a perceber o que se passou, o que se passa e o que se vai passar. E é muito natural que estejam a fazer figas quando falam consigo.

Eu, por exemplo, só não estou a fazer figas enquanto escrevo este Expresso Curto, porque tenho dificuldade em teclar só com uma mão. Não é sinal de incompetência ou de súbita fraqueza de espírito, espero. É mesmo assim, as coisas estão de pernas para o ar e quem disser que percebe rigorosamente tudo o que se está a passar ou sabe com exatidão o que aí vem, está a brincar ou a armar-se em Nostradamus ou Marcelo.

Nestes dias que já correram desde umas eleições que pareciam relativamente claras às 20 h de dia 4 de outubro e que começaram a ficar turvas com a chegada da madrugada, já fomos percebendo um pouco mais do nosso sistema político e alguma da histeria inicial (de parte a parte) está felizmente a desaparecer, o que facilita a conversa.

Vamos então ao ponto da situação ou, como dizem nas tardes desportivas na Antena 1, ao “tempo e resultado”:
Passos Coelho vai ser indigitado por Cavaco Silva, o que é absolutamente normal porque venceu as eleições. Vai formar governo nestes dias, convidar ministros e secretários de Estado e manter mais ou menos inalterada a orgânica do governo para não atrasar o Orçamento do Estado, conforme conta a Ângela Silva no Expresso Online.
Esse novo governo pretende tomar posse até domingo. Mas vão tomar posse sem saber o que lhes acontece a seguir? Isso mesmo. Não é nada que o Palácio da Ajuda não tenha já visto (Nobre da Costa é o exemplo mais óbvio), mas nós é que não estávamos a contar com isso e os ministros muito menos. A sua missão patriótica pode acabar em menos de um fósforo, o que não é especialmente agradável.
E depois das assinaturas e dos cumprimentos o que acontece? O novo governo começa a trabalhar na segunda-feira e tem até dez dias para ir ao Parlamento discutir o seu programa. São estes dez dias que vão abalar o nosso mundo porque é aí que tudo se perceberá de forma definitiva (embora o uso desta palavra seja pouco aconselhado).
No meio disto tudo só falta mesmo perceber uma coisa, ou melhor, duas: há, de facto, um acordo para Bloco e PCP viabilizarem de forma clara um governo minoritário do PS? E esse acordo abrange que horizonte temporal e que tipo de votações fundamentais?
A resposta para os nossos próximos dias está aí. Porque o que o PS está a fazer, apesar de incrivelmente arriscado e surpreendente, é pressionar Bloco e PCP a assinarem um documento claro de espetro suficientemente largo. Que é como quem diz: se assinam isso nós vamos para o governo, se não assinam deixamos passar o governo PSD-CDS que vai toma posse este domingo.
No fundo é mais ou menos isto que se está a passar. Há um governo que se prepara para tomar posse mas o tempo de vida desse governo depende em absoluto da existência ou não de um acordo para uma maioria alternativa gerada no Parlamento. São coisas que se aprendem nos livros mas que nunca tínhamos visto à nossa frente, mas que estão aí ao virar da esquina.
Ah e o PR?, perguntam alguns leitores. Isso só mesmo Cavaco Silva é que sabe, mas é duvidoso que um institucionalista, ainda por cima num momento em que o Parlamento não pode ser dissolvido (até abril), não siga as regras do jogo constitucional. E tal como indigita agora Passos pode mesmo ter que dar posse a um governo minoritário do PS que tenha apoio parlamentar. Nos tais dez dias saberemos isso tudo. 
 




OUTRAS NOTÍCIAS
Antes de qualquer outra coisa, convém não esquecer que hoje é 21 de outubro de 2015. E então? Então, é o dia em que se passa o célebre filme Regresso ao Futuro, que muitos vimos em 1989 com Michael J. Fox a viajar no tempo. Pois é, esse futuro é hoje e vale a pena ver aqui o que o filme previa ou não. Felizmente não se puseram a tentar acertar que governo teríamos em Portugal nesta altura.

Mais fácil de adivinhar era a ascensão da China è primeira linha mundial. Um dos grandes acontecimentos internacionais de hoje é a visita de Xi Jinping, presidente chinês ao Reino Unido. Entre protestos e provas de força, a visita está a provocar grande polémica nos meios políticos, com alguns embaraços no Parlamento britânico e Pequim a montar uma manifestação pró-Xi para abafar os defensores dos direitos humanos que se manifestavam em menor número.

Se alguém tiver dúvidas sobre as vantagens da liberdade, atente a este pormenor: a mesma Londres que recebe Xi Jinping para tratar de diplomacia e negócios, alberga na Royal Academy of Arts a grande exposição de Ai Weiwei, o famoso artista chinês perseguido pelo regime, que tem atraído multidões pela qualidade das obras e pela força política da exposição.

Lisboa devia aprender com Londres a jogar nas duas faces da diplomacia para perceber como se atrasou de forma grave na defesa de Luaty Beirão, um artista angolano que está em greve de fome em Angola e que tem passaporte português. Os dias passam e as notícias pioram, numa grave situação humanitária e diplomática.

A crise dos refugiados continua, agora com dois epicentros: a Eslovénia anunciou que vai mobilizar o exército para enfrentar uma vaga com que não consegue lidar e a Alemanha onde a contestação à política de braços abertos de Angela Merkel cresce.

Ontem foi dia de Champions e o F.C. Porto recebeu o Macabi de Tel Alviv no Dragão num jogo que acabou 2- 0. Para os fanáticos das estatísticas, fica a nota: Ruben Neves foi o mais jovem capitão de uma equipa na Champions, com apenas 18 anos sete meses e sete dias. Leia este texto do Pedro Candeias, O admirável homem das Neves e confira.

De resto, as coisas continuam a correr mal a José Mourinho, que não conseguiu mais que um empate em Kiev. O Bayern também tropeçou no estádio do Arsenal, com um monumental frango de Manuel Neuer. Para quem gosta de resumos de bola, espreitem o Leverkusen-Roma que acabou 4-4.

Hoje à noite joga o Benfica em mais uma noite de Champions, já em contagem decrescente para o embate com o Sporting ne Domingo, num clima bizarro entre as duas equipas, entre processos judiciais, acusações de prendas aos árbitros, aparições diárias de Pedro Guerra e outras coisas tão ruidosas quanto improdutivas. Adiante.

Hoje é o primeiro dia de Netfilx em Portugal. O sistema que revolucionou a forma de se ver séries e filmes em muitos países quer fazer o mesmo por cá.

Já está a contar os dias para a estreia do novo episódio da Guerra das Estrelas? Já comprou bilhetes para um filme que só estreia daqui a dois meses? Viu o trailer, partilhou-o e dissecou-o com amigos? Então este artigo do Guardian (Star Wars: The Force Awakens – six things we learned from the new trailer) é para si.

Voltando às coisas terrestres, mas ainda assim futuristas, fique a saber que o big boss da Apple deu claramente a entender que a sua empresa vai mesmo entrar no negócio dos automóveis. Numa entrevista ao Wall Sreet Journal, Tim Cook disse que a indústria automóvel está à beira de uma profunda alteração tecnológica. Sem nunca explicar se Apple vai fabricar carros, reafirmou a importância da tecnologia na alteração estrutural que o setor enfrenta.

Vamos às frases de gente que nos é mais próxima.

FRASES
"Se o próximo Governo não tiver estabilidade, haverá um adiamento do investimento e da nossa capacidade de crescer e de criar emprego". Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, à saída de Belém

“Consideramos que indigitar Pedro Passos Coelho será uma perda de tempo”. Catarina Martins, líder do Bloco, no mesmo local

“O senhor Presidente fará como entender. Do nosso ponto de vista há uma solução alternativa e o país não ganha nada em prolongar uma situação de incerteza". António Costa, líder socialista, no mesmíssimo local


O QUE EU ANDO A LER
Peguei ontem à noite de novo em “As Primeiras Coisas”, de Bruno Vieira do Amaral. O primeiro romance do jovem escritor foi editado em 2013 pela Quetzal. Li-o em 2014 depois de ver várias críticas favoráveis a algumas indicações de amigos. Ontem recebeu o Prémio José Saramago, o que provavelmente dará atenção renovada a um livro que bem a merece.

“As Primeiras Coisas” são, para citar o meu colega José Mário Silva (artigo completo aqui), uma “enciclopédia da vida suburbana”, mais precisamente da margem Sul do Tejo, num imaginário Bairro Amélia, que remete para o Bairro do Fundo de Fomento, no Vale da Amoreira, Moita, onde o escritor cresceu.

Não é propriamente o lugar mais bonito do mundo, nem um sítio onde se respire sucesso, mas é o palco de uma realidade pouco retratada na nossa literatura e o viveiro de um belíssimo rosário de personagens, quase todos vencidos da vida com histórias dignas de contar.

Bruno Vieira do Amaral surpreende pela escrita e pela naturalidade com que a história segue, numa estrutura rígida, por ordem alfabética, do Adalberto ao Zeca, desfiando personagens e situações de A a Z e construindo um belíssimo livro.

Uma curta citação para terminar, tirada da letra M, de Machado, na pág. 92, entre Luzinira, a rapariga gaga, e Madalena, a modista:

“À casa da família Machado chegava tudo tarde: o telefone, a televisão a cores, as transmissões e o canal 2 da RTP, que só dava chuva, as encomendas de França – perdidas no posto dos Correios da Baixa da Banheira – e o almoço do menino, a comer a fruta a caminho da escola, a achegar atrasado, a pedir desculpa à professora (…)”.

Já sabe que no Expresso Online não nos atrasamos como os Machado e estamos sempre atentos, não vá aparecer um governo num instante e desaparecer no outro. Para olhar além da espuma dos dias, às 18h assentamos notícias, ideias e opiniões exclusivas no Expresso Diário. Amanhã de manhã, o Miguel Cadete assina o Expresso Curto, a não ser que o aliciem para um governo do rock n’roll. Nos dias que correm, nunca se sabe.