segunda-feira, 5 de outubro de 2015

a actualidade do dia-a-dia, numa visão pessoal do jornalista...!

Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto
Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
 
5 de Outubro de 2015
 

Deitou-se confuso? Acordou confuso? Calma, o país inteiro está assim 


Foi daqueles que começou a noite de ontem a achar que era tudo relativamente simples? Que a coligação podia chegar à maioria, que o PS estava em destroços e ia perder o líder, que o PCP ainda podia ficar à frente do Bloco, que o Bloco tinha uma boa votação e que o Livre, o PDR e o JPP podiam eleger e que, já agora, a abstenção podia ter diminuído?

Pois, seja bem-vindo ao mundo real. É que, de todas as ideias feitas das 8 da noite, só uma é que ainda estava de pé ao início da madrugada: o extraordinário resultado do Bloco, que ultrapassou o PCP e duplicou o número de deputados. O resto foi reduzido a pó, ou pelo menos, deixou o estado sólido e evaporou-se com o passar das horas.

Veja o que aconteceu às outras ideias que animaram a noite durante algumas horas: a) a coligação venceu com seis pontos de vantagem, mas ficou a léguas da maioria absoluta; b) o PS ficou muito longe da vitória, mas ninguém consegue fazer nada no Parlamento sem os seus votos e o líder está a tentar fazer dessa fraqueza uma força; c) o PCP até ganhou um deputado, mas foi esmagado pelo Bloco; d) o PAN foi o único pequeno partido que elegeu um deputado; e) a abstenção voltou a aumentar. Ah, e as sondagens, que tanta gente queria crucificar na campanha, estavam na rota certa.

E agora? Pois, isso queria eu saber. Agora, sejam bem-vindos a um regime que tanto é parlamentar como semi-presidencialista. Coisa que já todos sabíamos, mas de que estávamos um pouco esquecidos.

Só mais uma lembrança. Quem acertou em cheio neste cenário foi o Presidente da República, que, há muitos meses anda a dizer que os partidos teriam que mostrar muita maturidade e capacidade de negociação no pós-eleições. Eu sei que a popularidade de Cavaco Silva anda por baixo e que o mandato está a acabar, mas este é exatamente o tipo de cenário que ele antecipou há meses e que repetiu ao limite.

E agora? Pois, acho que já fiz esta pergunta dois parágrafos acima, mas é natural que todos a façamos várias vezes. Agora, a coisa é tão simples quanto complicada. Simples, porque a negociação e o compromisso são a coisa mais normal de uma democracia parlamentar. Complicada, porque os meses que anteciparam estas eleições e, sobretudo, o período de campanha só cavaram o fosso entre os candidatos.

Vamos, então, a algumas pistas, que tanto podem estar válidas por umas horas como por uns dias:

a) Todos os partidos estão neste momento a adivinhar uma legislatura que terá, no máximo, dois anos. Este é o principal facto da noite. Dos vencedores aos vencidos, todos assimilaram que o ciclo que se abriu ontem não deve aguentar quatro anos.

b) A coligação PSD-CDS quer continuar a governar, agora em minoria, e está disposta a negociar com o PS. Mas isso obriga a uma mudança total de estilo – em quatro anos, Passos não negociou quase nada – e a uma permanente capacidade de gerar compromissos no Parlamento.

c) Um palpite sobre este ponto: só um governo com uma enorme remodelação e um fortíssimo núcleo político é que aguenta um embate destes. Lembram-se do Cavaco de 1985 ou do Guterres de 1995? O problema é que tanto Cavaco como Guterres vinham em rota ascendente e Passos e Portas recuaram 12% nas intenções de voto, o que lhes retira margem política.

d) António Costa surpreendeu tudo e todos ao fazer uma jogada típica do judo. Usou o peso do adversário para tentar virar o jogo. Só o pode fazer porque não há um candidato óbvio à sucessão e porque o PS fica numa posição charneira, podendo ajudar uma maioria à direita ou criando condições para uma maioria à esquerda. Assim, transformou temporariamente uma derrota estrondosa numa vitória posicional. Aguenta nessa posição? Depende de como a citação evoluir, mas o jogo que ontem devia ter acabado seguiu direto para prolongamento com as substituições esgotadas.

e) A ideia de uma maioria de esquerda parece mais numérica que real. O PS já avisou que não participa em maiorias negativas, ou seja, não deita um governo PSD-CDS abaixo sem que haja uma solução alternativa. E isso obriga o Bloco e o PCP a irem a um jogo negocial a que não estão habituados e onde podem perder identidade.

Resumindo, o cenário mais provável é um governo PSD-CDS obrigado a negociar fortemente com o PS. Se isso falhar, fica aberto o caminho a um governo minoritário socialista com apoios (ou abstenções, que chegam e sobram) à esquerda ou à direita. Muito menos provável – porque os programas são demasiado distantes – seria um governo PS-Bloco ou outra variante qualquer à esquerda. Vamos ver oq eu nos dizem os próximos dias.

Para terminar, as eleições presidenciais ganharam algum peso porque o próximo PR vai herdar uma situação política frágil e vai ter que gerir este ciclo político, que é aparentemente mais curto.


OUTRAS NOTÍCIAS
Sim, eu sei, que as nossas eleições são a coisa mais importante do mundo, e que nem dá para falar do Gaitán no café e que fica mal discutir futebol num dia destes, mas guarde dois minutos para saber algumas coisas que se passam mundo fora (e na bola, claro) e que convém estar a par.

Primeiro a Síria, país de onde sai uma enorme parte dos refugiados que chega à Europa e onde Putin fez uma entrada de leão sem pedir licença nem bater à porta. E o que é que isso interessa, pergunta o leitor? Muito.

Para começar, é a primeira intervenção russa numa guerra fora do seu território natural (a Ucrânia ou a Georgia cabem na “grande Rússia”) desde o velho Afeganistão. Depois, Putin defende que Assad não deve cair. Terceiro, os aviões russos – Moscovo tem uma importante base militar na costa síria – resolveram bombardear rebeldes sunitas que estavam a ser financiados pelos EUA. Quarto, Washington, Londres e Paris estão em fúria com Putin, porque, ao atacar outros rebeldes moderados, reforça o poder do Estado Islâmico (Daesh).

Conclusão, Putin está a dizer à coligação internacional que Bashar Al-Assad tem que fazer parte de qualquer solução para o conflito e que sem Moscovo e Teerão – Assad, é alauíta, uma seita xiita, e domina uma país maioritariamente sunita – ninguém resolve nada. Um problema dramático que agora sobe de tom.

Segundo lugar para o Afeganistão, onde as ondas de choque de um ataque americano a um hospital em Kunduz, onde morreram 22 pessoas, não param. O ataque era, em teoria, contra guerrilheiros taliban, mas acertou em cheio numa operação dos Médicos sem Fronteiras. Washington vai investigar o que aconteceu, mas o embaraço é enorme.

Em Israel, a tensão disparou depois de vários incidentes que provocaram a morte de quatro judeus. Num gesto sem precedentes, o governo encerrou a cidade velha de Jerusalém a todos os palestinianos não-residentes

Na Riviera francesa as cheias deixaram um enorme rasto de destruição e teme-se que haja pelo menos 19 mortos em Cannes, Nice ou Antibes.

Na Guatemala, três dia depois de um gigantesco deslizamento de terras na aldeia de El Cambray, foram recuperados 96 cadáveres, mas ainda há 300 desaparecidos.

Tem contas a ajustar com as agências de rating? Então esteja atento a um julgamento que vai começar na cidade de Triani e que senta no banco dos réus cinco funcionários da Standard & Poor’s e da Fitch. Os funcionários e as agências são acusados de terem provocado prejuízos desnecessários e injustificados a Itália em 2011 and 2012.

Ah, e enquanto votámos e contámos votos, ontem foi dia de futebol. O União da Madeira-Benfica foi interrompido e adiado devido ao nevoeiro. O Porto ganhou ao Belenenses por 4-0 e o Sporting esmagou o Guimarães por 5-1.

Para lá do Canal da Mancha, o Mundial de râguebi prossegiu a grande ritmo, com sucessivas lições de bem jogar e fair-play. A anfitriã Inglaterra ainda está em estado de choque, depois de ter sido eliminada na fase de grupos depois ao perder com a Austrália. Ontem, Argentina e Irlanda venceram com folga e seguiram para os quartos-de-final da terceira prova desportiva mais vista em todo o mundo.

Para quem gosta de séries televisivas ou quer esquecer a política nacional, tem uma bela solução à sua frente. É que a semana é pródiga em estreias de séries televisivas. Leia este artigo da última Revista do Expresso – “séries até à eternidade” -, compre pipocas e afunde-se no sofá. Quando acordar talvez já haja governo…


FRASES
“Manifestamente não me demito”. António Costa, líder do PS, com a frase que acabou por condicionar toda a noite eleitoral

“Portugueses não perdoariam que a sua vontade fosse desrespeitada”. Paulo Portas, líder do CDS, depois do discurso do líder socialista

“Catarina Martins, que é a heroína da campanha”. Francisco Louçã, ex-porta-voz do Bloco de Esquerda a chegar à sede do partido


O QUE EU ANDO A LER
Com a campanha acabada, peguei de novo num livro que vale a pena recordar em momentos quentes da nossa política. Alpha Dogs, de James Harding, é considerado por muitos como o melhor livro sobre campanhas políticas. Foi-me oferecido há uns anos pelo Luís Paixão Martins e conta como uma pequena empresa de comunicação americana – a Sawyer Miller –se transformou num sucesso global nas campanhas políticas. Quem viu algum episódio de Mad Man, pode olhar para este Alpha Dogs como o guião base para uma belíssima série sobre os bastidores da comunicação política, embora com menos álcool, sexo e luxúria.

O livro devia ser lido por todos os que participam em campanhas e também pelos candidatos. Tem muita política americana, mas também a fabulosa campanha de Cory Aquino nas Filipinas ou o desastre de Mario Vargas Llosa no Peru, a luta pela democracia na Coreia do Sul ou o inesquecível referendo que tirou do poder Pinochet, enquanto a Sawyer Miller se transformava numa grande empresa.

Quase no fim do livro, há um episódio extraordinário que mostra bem o valor das sondagens e estudos no mundo em que vivemos. Em 2006, a Sawyer Miller estava a fazer trabalho de campo no Nepal, quando um dos entrevistadores foi raptado pela guerrilha maoista. O entrevistador foi dado como morto até ao momento em que os maoistas fizeram um inusitado pedido de resgate: libertavam o funcionário em troca do estudo de opinião!

A guerrilha viu naquele rapto uma oportunidade única de conhecer a opinião da população nepalesa sobre a delicada situação política, particularmente confusa depois de um incrível regicídio. Curiosamente, os maoistas nepaleses chegaram ao governo pouco tempo depois, embora por pouco tempo…

Hoje não garantimos notícias sobre sondagens ou maoistas (a coisa, ontem, correu mal ao MRPP…) no Expresso Online, mas, de resto, vai haver de tudo e em quantidade: notícias, análises, reviravoltas, é só escolher.

O dia promete e o melhor é estar atento. Ao fim da tarde o Expresso Diário assenta toda a poeira e traz notícias frescas, análises cuidadas e muita opinião em primeira mão. Amanhã bem cedo o João Vieira Pereira assina o Expresso Curto depois de um dia que promete ser muito animado. Bom dia.