sexta-feira, 27 de novembro de 2015

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Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
27 de Novembro de 2015
XX Governo, "O breve"; XXI governo, "O quê?"
Antes de tudo, convém sublinhar que o cognome “O Breve” pode ser enganador e sinal de maior longevidade ou marca histórica. Por exemplo, o célebre Pepino, O Breve reinou 15 anos e, mais importante, deixou ao mundo o seu filho Carlos Magno.

Também outro Rei, mais próximo no tempo e na geografia, Juan Carlos I de Espanha, começou por ser apelidado de “O Breve” para, afinal, reinar umas décadas valentes em democracia quando ninguém lhe vaticinava grande futuro. Nem a ele nem à monarquia.

Tudo isto para dizer que a situação política está mais estável, mas sem ninguém poder ainda garantir ou arriscar o que temos exatamente pela frente, muito menos de quanto tempo estamos a falar. O XX governo deixou ontem formalmente de existir e foi, de facto, o mais breve da história. Mas os partidos que o suportam estão a contar com um ciclo político muito curto, que acabe em eleições antecipadas dentro de poucos meses, que pensam poder ganhar com facilidade.

Assim, o XX Governo, O Breve, voltaria com outro número mas igual vontade dentro de pouco tempo. O problema é que as coisas não são assim tão simples, como todos vimos nas últimas semanas, e o tal ciclo político depende de imensos fatores. Se fosse por vontade do atual Presidente da República, está visto que seria depressa. Cavaco Silva fez um curto e duro discurso na posse do XXI Governo, que se pode resumir em três pontos:

a) o atual executivo nasceu de uma crise política, só existe porque agora não pode haver eleições e assenta em acordos frágeis;
b) Os objetivos estratégicos do país permanecem intactos;
c) O Presidente não abdica de nenhum dos seus poderes, seja o de veto, o de fiscalização preventiva ou mesmo o de demissão do governo.

Cavaco Silva bem lembrou isso, mas António Costa respondeu mais ou menos na mesma moeda e sublinhou que responde perante o Parlamento: “O governo provém da Assembleia da República – e é perante a Assembleia que responde politicamente”.

Em rigor, os dois estão a falar verdade e é neste equilíbrio de poderes que tudo se vai jogar. Mas tal como a indigitação do PS era mais ou menos inevitável, também uma demissão do XXI governo é uma impossibilidade prática. Para quem gosta de mergulhar em cenários e discutir o improvável, coisa que entreteve meio país nas últimas semanas, tem aqui nova oportunidade.

Mas, antes de entrarem em órbita, aconselho as palavras do Rei dos cenários, agora candidato destacado na corrida presidencial, Marcelo Rebelo de Sousa, que liquidou num minuto o discurso de Cavaco e que disse que a crise política acabou e que agora o governo tem que governar. Novos episódios sérios, só com novo PR – e já com todos os poderes. Até lá, é melhor esperar.

Neste caso perfilo totalmente a opinião de Marcelo. Não faço ideia de como ficará conhecido o XXI Governo, mas não me parece que seja breve. Pode ser mau, sofrível ou bom, mas não deve ser muito curto. Daqui por uns meses já vemos quem tem razão.



OUTRAS NOTÍCIAS
Hoje já é um dia normal em Bruxelas, com tudo a funcionar numa capital que esteve paralisada demasiados dias, mas o rasto do terrorismo continua a marcar toda a Europa.

Paris presta hoje homenagem às vítimas dos atentados e toda França está envolta na bandeira tricolor e numa natural onda de patriotismo. As cerimónias oficiais decorrem esta manhã num momento de enorme unidade nacional.

Nas redes sociais as hashtags #jesuisfieredetrefrancais ou #jesuisfieredemonpays fazem furor. Tenho orgulho em ser francês e Tenho orgulho do meu país são as palavras de ordem do momento.

Ontem Hollande encontrou-se com Putin e conseguiu que Moscovo, finalmente, aceitasse coordenar esforços militares na Síria com Paris. Até agora, as forças russas atuavam autonomamente e sem qualquer esforço de coordenação militar com outras potências que combatem o Daesh.

Também a Alemanha decidiu enviar tropas para o Mali, onde a França está literalmente sozinha, e aviões de reconhecimento para a Síria. Mais importante ainda, David Cameron está finalmente em condições de conseguir aprovar no Parlamento a autorização para poder bombardear o Daesh em território sírio.

No Brasil, o escândalo Lava-Jato continua a fazer estragos e presos em série. O banqueiro André Esteves, que já foi o 13º mais rico do Brasil, está preso, tal como o senador Delcídio Amaral (PT-MS), por terem sido apanhados numa conversa em que tentavam evitar a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró e ajudar à sua fuga do país.

A delação premiada é uma figura jurídica que não existe em Portugal, mas que tem sido fundamental a este caso de corrupção brasileiro, porque garante penas negociadas a quem ajuda a investigação.

Ontem foi dia de Liga Europa e de boas notícias. Hoje, as capas dos desportivos são um mar de felicidade. O Sporting leva os títulos mais épicos (“Nunca Visto”, no Record e “Classe Europeia”, em A Bola). Há 29 anos que o sporting não fazia três golos fora em 45 minutos e agora até pode passar à fase seguinte.

O Braga também ganhou e ainda disputa o primeiro lugar do seu grupo, enquanto o Belenenses, que desperdiçou um penalti em casa, precisa de ir vencer a Florença, o que é difícil mas permite sonhar.

Pode-se gostar ou não da música, mas Adele está a ter o seu momentum, arrasando todas as vendas e sem precisar de serviços de streaming para nada. E a cantora já anunciou dois concertos para Portugal, onde estará pela primeira vez. É a 21 e 22 de Maio na Meo Arena, em Lisboa.

Por cá, hoje começa o Festival Vodafone Mexfest, que toma conta de boa parte da Avenida da Liberdade. São muitos artistas em inúmeras salas. Eu conto sair do Expresso da Meia Noite a correr e ainda ir ouvir Benjamin Clementine no Coliseu.

Hoje é a chamada Black Friday e aquela mania dos super-saldos já se vê em muitas lojas por cá. Se tiver tempo, paciência para filas e compradores profissionais, hoje é dia de pechinchas. Também há online, claro. É aproveitar que só dura um dia.

Apesar de todas as modas, a tradição americana do thanksgiving ainda não chegou cá. Mas para quem gosta de comer o peru já em novembro, aqui tem o magnífico sketch do genial Jimmy Fallon com Rashida Jones com as canções do ano já em tipo natalício (o chamado epic thanksgiving holiday medley). O vídeo é mesmo muito bom e puxa à dança, coisa que as frases seguintes não conseguem de todo…

FRASES
"Os portugueses estão fartos do clima de crise". Marcelo Rebelo de Sousa, candidato presidencial, em reação ao discurso de Cavaco Silva

“Aparentemente o PR deu posse a contragosto”. Manuela Ferreira Leite, no seu habitual comentário televisivo

“Esta vitória trouxe-nos um problema”. Jorge Jesus, depois do Sporting ter vencido em Moscovo

O QUE EU ANDO A LER
Peguei neste livro do ano passado por causa de tudo o que se (re)começou a dizer a discutir sobre mercados, bolsas, credores & etc. “Nós, os mercados”, de Daniel Lacalle (editado na Marcador, 2014) é um dos muitos livros escritos nos últimos anos sobre os mercados financeiros.

Essa lista de títulos pós-crise 2008 é imensa e para todos os gostos. E se há muitos bons livros sobre as distorções que os mercados provocam, sobre a forma como atuam em matilha, a visão demasiado americana do mundo ou o condicionamento de democracias, este livro do espanhol Daniel Lacalle é o melhor que conheço no sentido contrário.

Este gestor de fundos de investimento e de hedge funds, que trabalhou entre Espanha, os EUA e Londres, desmistifica e explica muito bem o funcionamento dos mercados. Racionaliza e simplifica os seus processos de forma clara, didática e até desarmante. Não é muito simpático para quem deve a mais, nem para a lentidão de respostas da zona Euro, mas é sólido e inteligente.

Lacalle ficou muito popular em Espanha pelas suas colunas no site El Confidencial, onde escreveu com grande antecedência sobre a louca bolha imobiliária espanhola, o desvario das cajas regionais e o endividamento galopante do Estado. E avisou para a extrema racionalidade dos mercados.

É um livro calmo e ponderado, naturalmente muito pró-mercados financeiros, que se lê muito bem e não nos assegura um futuro fácil. Nós próximos tempos convém tê-lo por perto porque vamos voltar a ouvir falar mais um pouco – espero que com mais calma – de mercados, juros, ratings, CDS’s e afins.

Sempre à mão, convém ter o Expresso Online, porque as coisas acontecem depressa e nós tentamos estar sempre atentos. Mais o fim do dia, pelas 18h, arrumamos tudo, trazemos notícias frescas e opinião exclusiva no Expresso Diário. E amanhã, claro, o Expresso chega às bancas com mais uma edição cheia de coisas para ler. Bom dia e bom fim de semana.