quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

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Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Ricardo Marques
Por Ricardo Marques
Jornalista
 
17 de Dezembro de 2015
 
A guerra e as estrelas
 

Eles chegam hoje.

Vêm de uma galáxia distante, de uma terra que nos é estranha, tão estranha como eles parecem ser. Falam línguas que não percebemos, usam roupas que jamais vestiríamos e acreditam em coisas que não compreendemos lá muito bem. É difícil acreditar nas histórias que contam. Há quem não lhes ligue nenhuma e quem lhes dedique a vida inteira. Há também os que têm medo deles. Alguns já os viram, a maioria vai ter esperar mais algumas horas. Sim, eles aterram hoje. Uns e outros.

Os primeiros são estrelas. Os outros apenas fogem da guerra.

Há semanas que só se fala deles e desse filme revelador do futuro. "Star Wars: O despertar da força", o capítulo mais recente de uma história de milhões de euros,, estreia hoje em mais de 150 salas portuguesas e há 40 mil pessoas com bilhete comprado à espera da hora certa. A crítica internacional parece rendida ao trabalho do realizador J.J. Abrams, o que não significa que o sétimo episódio da saga seja uma enorme nave espacial imperial capaz de resistir a qualquer raio laser ou crítica.

Há semanas que se deixou de falar neles e as imagens do verão passado são hoje um filme antigo. Vinte e quatro refugiados vindos da Eritreia, do Sudão, do Iraque, da Síria e da Tunísia chegam hoje a Portugal. Fogem de conflitos que, nos últimos anos, mataram milhões de pessoas. São seis famílias que aterram em Lisboa com pouco a que chamar seu e, por certo, não haverá muita gente à sua espera - como se viu na Marinha Grande. Em Portugal, os recém-chegados vão ser acolhidos ainda em Lisboa, Cacém, Torres Vedras, Penafiel e Vinhais. Chegam 24 dos 4500 que deverão chegar. Um ínfima parte desse universo de pessoas que perderam tudo exceto a vontade de continuar vivas.

Ficam dois números:
Este sai da Visão: 20 mil milhões de euros foi o que rendeu o merchandising da Guerra das Estrelas desde o primeiro filme, em 1977.

Este chega da GQ: este ano, mais de um milhão de pessoas chegaram à Europa vindas de várias zonas do mundo atingidas pela guerra, naquela que é a maior e mais dramática movimentação de seres humanos desde a Segunda Guerra Mundial - e um negócio milionário para as redes de tráfico.

Milhões no céu, milhões na terra. Tão diferentes e tão iguais.


OUTRAS NOTÍCIAS
Não há volta a dar, o momento é mesmo de guerra e de estrelas.

Rui Fonte foi a estrela de Braga frente ao Sporting, naquele que já é considerado o melhor jogo da época e que opôs os dois finalistas da Taça de Portugal no ano passado. Houve prolongamento, golos, sete ao todo, cambalhotas e mortais no marcador, e os casos do costume também - que certamente vão dar muito que falar durante todo o dia. O Sporting de Braga segue para os quartos de final da prova, tal como o Porto (que derrotou o Feirense por 1-0). Boavista e Académica defrontam-se às seis e meia da tarde - é o jogo que falta para estar completo este quadro de resultados.

Em Espanha, em plena contagem decrescente para as eleições de domingo, Mariano Rajoy foi a infeliz estrela do dia ao ser vítima de um "ato de guerra" durante uma ação de campanha em Pontevedra, na Galiza. Um rapaz de 17 anos deu um soco no primeiro-ministro espanhol e partiu-lhe os óculos. Foi detido logo a seguir. Um momento que vai marcar a reta final da campanha. Pode ler a história e ver o vídeo no jornal mais próximo do acontecimento, o Diário de Pontevedra, também nos nacionais El Mundo e El País, ou no digital El Confidencial. E pode ainda recordar o que Henrique Monteiro escreveu no Expresso há uns meses sobre a versão original e falada em português.

O primeiro debate quinzenal na Assembleia da República com António Costa no Governo e Pedro Passos Coelho e Paulo Portas na oposição terminou com votos de boas festas e sem vítimas. Ou quase. Passos Coelho surpreendeu ao fazer uma intervenção à tarde, e guardou para o lanche de Natal do grupo parlamentar a versão mais recente de um provérbio antigo: amigos, amigos, oposição à parte. Some-se o aviso de Rui Rio e vai ficando mais claro que algo está mesmo a acontecer à Direita do país político.

É um António Costa tranquilo e com a força do seu lado que estará hoje e amanhã em Bruxelas. O primeiro-ministro português e os restantes líderes da União encontram-se para um Conselho Europeu, o último do ano, que deverá ficar marcado pela discussão sobre o Brexit. A campanha para o referendo que decidirá a permanência do Reino Unido na UE está em curso e todos os dias há alguém a fazer contas ao sim e ao não.

Por cá, também não falta quem anda de calculadora na mão. O Banif, já se percebeu, é um problema, embora ainda não se saiba bem que tipo de problema é. Na terça-feira de manhã, quando vinha para o jornal, ouvi no rádio o presidente do banco falar de "tranquilidade" e garantir que "os depositantes e os contribuintes podem estar descansados". À noite, quando voltei a casa, ouvi no mesmo rádio que António Costa estava reunido com partidos políticos, o ministro das Finanças e governador do Banco de Portugal para discutir a situação do Banif. É um problema, mas também uma guerra que está em curso.

Dos Estados Unidos da América, conta o The New York Times, chegam boas notícias: o FED resolveu aumentar a taxa diretora de juros pela primeira vez nos últimos sete anos, um sinal de confiança na recuperação, lenta,da economia norte-americana. No Expresso tem uma análise detalhada.

Ainda nos EUA, houve novo debate para as presidenciais. Desta vez, a batalha foi no campo republicano e a discussão andou à volta de política externa e de terrorismo. E sim, Donald Trump foi mais uma vez a estrela.

Na Ucrânia falou-se de corrupção e a discussão acabou com um copo meio cheio de água a cair na cabeça de um político. Mais um momento animado num parlamento com história: houve algo parecido há uns dias e no passado também (basta procurar aqui).

Prepare-se para o que os jornais vão escrever sobre as estrelas de Star Wars hoje e amanhã.

E isto é o que os 24 refugiados que fogem da guerra vão ficar a saber de Portugal pelos jornais de hoje:
O Público garante que o aumento máximo das pensões em 2016 será de 2,5 euros e anuncia uma guerra entre PS e comunistas e bloquistas por causa dos exames do 6.º e 9.º anos.

Os ecos da entrevista de José Sócrates na TVI estão no DN, com a resposta do PSD: um voto de confiança na PGR, Joana Marques Vidal.

O i anuncia o regresso da Troika a Portugal depois das presidencias, o JN revela que os doentes em lista de espera vão poder escolher hospital para as consultas de especialidade e, ainda no rescaldo da entrevista ao antigo-primeiro ministro, o Correio da Manhã contrataca a toda a largura da primeira página: "As cinco mentiras de Sócrates".

 
 FRASES
"Que sirva para alguma coisa a geringonça. Não pode pedir aos camaradas da intersindical que acabem com o sindicalismo agressivo", Paulo Portas para António Costa

"O professor Adriano Moreira é um dos mais persistentes e profundos defensores do humanismo cristão em Portugal. A nossa corrente doutrinária não podia ficar melhor representada no Conselho de Estado”, nota do CDS, que indicou Adriano Moreira para o Conselho de Estado

"Que o CDS me procure é natural", Adriano Moreira

“Basta falar com as pessoas em Israel. Os muros funcionam", Donald Trump sobre a construção de um muro para impedir a entrada de imigrantes ilegais nos EUA

"A atual paralisação está a implicar gravíssimos prejuízos para o porto de Lisboa, temos vários cancelamentos de escala por atraso [existem atrasos de três e quatro dias] e é uma perturbação não só para o porto, mas para toda a economia de Lisboa e inclusive para as ilhas da Madeira e dos Açores", Marina Ferreira, presidente do conselho de administração do Porto de Lisboa, sobre os pré-avisos de greve dos estivadores

 
O QUE ANDO A LER
... e a ver e a experimentar...

Conhece aquela sensação estranha que temos quando acabamos de pesquisar algo no Google, uma peça de roupa ou um livro, e no instante seguinte aquela peça de roupa e o tal livro aparecem à venda num post no feed de notícias do Facebook? Esta semana aconteceu-me algo parecido. Avisaram-se na terça-feira que seria minha a honra de servir o Expresso Curto de hoje. Na véspera, ao almoço, tinha discutido com dois amigos parte de um artigo que estava a ler. Uma daquelas conversas que não levam a lado nenhum, mas que valem pela viagem. O assunto: o sentido da vida. O que é que andamos cá a fazer?

Nessa mesma tarde, descobri um "brinquedo" que a BBC colocou online há pouco tempo. Chama-se Your Story e ainda está em fase de testes (eles próprios avisam que de vez em quando pode falhar). A ideia é genial: basta introduzir a data de nascimento (ou entrar através do Facebook e permitir que o software desenvolvido pela BBC aceda à sua informação pessoal) e em segundos tem no ecrã a história da sua vida contada através dos acontecimentos mais importantes e das notícias sobre eles disponíveis no arquivo da BBC. Um resumo do que já foi feito desde que cá chegámos.

A minha história começa antes de o presidente norte-americano Richard Nixon se demitir, na sequência do escândalo Watergate, passa pelo primeiro voo do Concorde (ainda era bebé), pela morte de John Lennon, a busca pelo monstro de Lock Ness, etc. Uma das datas sugeridas é 11 de maio de 1997 (pouco antes de eu fazer 23 anos, diz-me a BBC). Nesse dia, o supercomputador Deep Blue derrotou o mestre xadrezista e campeão do mundo Gary Kasparov.

Foi o primeiro triunfo da criatura sobre o condutor e foi também o meu momento estranho. O artigo discutido ao almoço, entre pizas e comida do Médio Oriente, chama-se "The Doomsday Invention", está na edição de 23 de novembro da "The New Yorker" (e pode ser lido aqui). Não vale a pena adiantar muito, só porque vale mesmo a pena ler. Fica um aperitivo: Nick Bostrom, filósofo sueco que dirige uma coisa chamada Instituto para o Futuro da Humanidade, em Oxford, escreveu um livro que saltou para a lista dos best-sellers do Times do não passado: "Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies".

O argumento principal do livro é que a verdadeira inteligência artificial, se se concretizar, poderá tornar-se mais perigosa do que todas as anteriores ameaças tecnológicas - armas nucleares incluídas. No limite, defende Bostrom, se a humanidade não gerir com todo o cuidado o desenvolvimento da inteligência artificial arrisca-se a criar e a assistir à sua própria extinção. "Não temos ideia de quando a detonação vai ocorrer, mas se encostarmos o aparelho ao ouvido já conseguimos ouvir um fraco tique-taque", argumenta. Ou seja, e de volta ao almoço, como se já não bastasse a guerra, o aquecimento global, os asteroides errantes, civilizações extraterrestres e a própria extinção do sol (tudo matéria discutida no artigo), agora vamos passar a ter medo do telemóvel, do tablet e do computador? O que é que andamos cá a fazer?

E, já agora, mais uma pergunta metafísica. "Onde diabo está Deus?" - livrinho pequeno, mas com um grande título. Richard Leonard, o autor, é um jesuíta australiano com um doutoramento em Estudos Cinematográficos. Ele próprio admite não querer perder tempo com planos abertos de natureza filosófica ou teológica e vai diretamente para o grande plano, o das pequenas coisas do dia-a-dia. No caso dele, a pequena coisa foi o grande acidente da irmã, Tracey, uma enfermeira com menos de 30 anos que, depois de trabalhar numa missão religiosa na Índia, regressara a Austrália para trabalhar com religiosas junto da comunidade aborígene, na zona de Perth.

Na véspera do aniversário de Richard, a sua irmã tinha ido substituir uma colega e sofreu um acidente de carro que a deixou quadriplégica. A família viu-se numa crise de fé. Como é que algo assim sucedeu a uma pessoa como ela? "Eu não preciso de pensar que Deus tem de ser a causa direta de tudo na minha vida para acreditar forte e vivamente num Deus pessoal", escreve Richard (edições Paulinas). Há mais 108 páginas de experiência na primeira pessoa, mas também de reflexão sobre o modo como as pessoas se relacionam com Deus no mundo moderno - o mundo dos filmes e dos refugiados.

Há trinta anos, quando o tudo parecia mais simples e o mais parecido que havia com a Internet era um vídeo e uma televisão a cores, os filmes de surf eram uma coisa estranha - barulhentos e com uma única preocupação: mostrar muitas ondas e raparigas com pouca roupa. Quem fazia surf ficava ali, agarrado, até a fita da cassete estar gasta. Quem não fazia - pais, tias, avós e namoradas incluídos - limitava-se a abanar a cabeça e a sair da sala. Na altura o surf também era uma coisa estranha, marginal, muito diferente do negócio à escala planetária em que se transformou.

O melhor exemplo da mudança chegou à sala lá de casa no sábado, via iTunes. Chama-se "View from a blue moon". Passou há dias no ecrã gigante do S. Jorge, em Lisboa, numa sessão única e absolutamente esgotada, e há quem diga que é o melhor filme de surf de sempre. Pode discutir-se se é, mas é indiscutível que se trata de uma obra de arte, capaz de agradar ao mais dedicado dos surfistas (ou não mostrasse um pouco da vida, e do surf, de John John Florence, provavelmente um dos melhores do mundo) e também a quem só vê o mar uma vez por ano (as imagens aéreas e a forma como são filmadas as paisagens é mágica. O melhor é mesmo o Brasil). Pode ver o trailer e tudo sobre o filme aqui.

Sem perder a onda, fique a saber que a última etapa do mundial de surf está em curso em Pipeline, no Havai, e é transmitida em direto na página da World Surf League. Na última noite houve um pouco de tudo: ondas grandes, um ferido e nenhuma decisão sobre o título mundial. Havia cinco candidatos e três continuam na corrida. Mick Fanning é um deles e ontem, minutos antes de entrar na água, soube que o irmão tinha sido encontrado morto, na Austrália. É provável que a prova acabe hoje. Começa pelas sete da tarde (em Lisboa, menos 10 horas em Oahu) e, por isso, será outro surfista, o Martim Silva, a dar-lhe todas as novidades. Do mar, do país e do mundo.