segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

a actualidade do dia-a-dia, numa visão pessoal do jornalista...!

Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
 
21 de Dezembro de 2015
 
Onde é que eu já vi isto? Um vencedor que não governa e um banco que nos sai muito caro
 
Por onde começar o Expresso Curto? Por umas eleições espanholas que acabaram com o bipartidarismo e deixaram o vencedor sem aparentes condições para governar? Ou por um Banco de que o Estado português tem 60% do capital desde 2013 e que foi sendo empurrado com a barriga até ser vendido à pressa com uma perda imediata para os contribuintes de €700 milhões e mais €1,7 mil milhões potenciais a caminho?

O primeiro assunto é fundamental porque nos é próximo, porque lança incerteza sobre uma das maiores economias da União Europeia e porque pode abrir caminho, pela primeira vez em 40 anos de democracia, a um governo que não é liderado por quem ganhou as eleições, mas por uma coligação alternativa ou por um acordo parlamentar liderado pelo segundo partido mais votado (PSOE), que, por acaso, até teve o seu pior resultado de sempre.

Depois da Dinamarca e de Portugal, seria o terceiro governo europeu nascido em 2015 que não incluía o partido mais votado. E convém não esquecer que já é assim no Luxemburgo, na Bélgica e na Letónia. A vitória do PP é inequívoca, com 123 deputados, mas a queda brutal (vinha de 186 lugares) e a enorme subida da esquerda (PSOE+Podemos) tornam a investidura de Mariano Rajoy quase impossível, num pesadelo para o centro-direita muito parecido com o que se abateu sobre PSD e CDS em outubro.

A política de alianças alternativas ao vencedor é muito habitual em Espanha em governos autonómicos. Mas essa prática nunca foi usada a nível nacional. Com o novo parlamento, isso parece inevitável, embora seja preciso recorrer aos partidos mais pequenos.

Só um número, para percebermos como esta eleição é histórica: dois partidos que não existiam há 4 anos conseguiram 109 deputados! O Podemos – equivalente ao Bloco de Esquerda - alcançou uns fabulosos 69 lugares e o Ciudadanos, de centro-direita anti-PP, conseguiu 40 assentos. O resultado do Ciudadanos ficou muito aquém do projetado em sondagens, mas foi suficiente para baralhar tudo.

O El País tem ótimos gráficos aqui que mostram bem a dimensão da mudança, o El Mundo faz uma ótima simulação de todas as coligações e acordos possíveis num parlamento muito fragmentado e El Español tem um excelente artigo sobre os caminhos que o Rei pode seguir para que se consiga formar governo. Não sei se o Rei Filipe estava preparado para este cenário, mas vai ter um dos maiores testes da democracia espanhola em muitas décadas.

Enquanto os espanhóis fazem contas aos deputados, nós fazemos contas a mais um banco que nos ia sair barato e que, afinal, fica por uma fortuna. Para os mais distraídos, convém lembrar que o Banif era tecnicamente do Estado desde 2013, quando o Tesouro teve que acudir ao banco com cerca de €700 milhões e ficou com 60% do capital. Além disso ainda emprestou cerca de €125 milhões convertíveis em capital, que nunca foram devolvidos.

O problema foi sendo inexplicavelmente adiado até que nos aproximamos do dia 1 de janeiro de 2016, em que Bruxelas passa a ter novas regras para a resolução bancária, nomeadamente com perdas diretas para os depositantes. E então era assim: ou Portugal e o Banif eram cobaias num resgate estilo Chipre ou vendiam a coisa depressa e à melhor oferta. E é assim que, hoje, todos os clientes do Banif acordaram como clientes do Santander, que comprou a parte boa do banco por €150 milhões, num negócio fechado em contrarrelógio no fim de semana.

E é tudo? Não, porque nestas coisas há sempre mais qualquer coisa. Nesta parte é melhor estar sentado: é que o Estado tem que disponibilizar €1,7 mil milhões para salvar a atividade do banco e o Fundo de Resolução (ou seja, o sistema bancário) cerca de €500 milhões. São €2,2 mil milhões para um banco que já estava na esfera do Estado desde 2013…

O primeiro-ministro fez uma declaração ao país perto da meia-noite, sobre esta “solução dolorosa e catastrófica”, que pode custar aos contribuintes €2,4 mil milhões: 700 agora e 1,7 mil potenciais.

Perante uma conta calada destas, a política acelerou. PS, PCP e Bloco vão avançar com uma comissão parlamentar de inquérito em que os bombos da festa vão ser Pedro Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Carlos Costa. Há, obviamente, muitos argumentos para se defenderem estão preparados para isso. Mas a gestão do dossiê do Banif, tal como o do Novo Banco, em função do calendário eleitoral é relativamente difícil de disfarçar.

Cada um que decida pela sua cabeça, mas a coisa será mais ou menos assim: vai ser uma tourada parlamentar, o duelo Mariana Mortágua vs. Maria Luís Albuquerque vai ser um dos melhores momentos televisivos de 2016, o CDS vai demarcar-se do PSD e atacar Carlos Costa, PCP e Bloco vão surfar a onda anti-bancos e o PS vai desmontar a teoria da saída limpa, defendendo que o Banif e o Novo Banco foram atirados para debaixo do tapete quando a troika tinha disponíveis para banca portuguesa €12 mil milhões e o anterior governo só usou metade.

Enquanto tudo isto acontece, nós pagamos a conta e ficamos sentados à espera da fatura do Novo Banco. Talvez em 2017 eu consiga escrever um Expresso Curto sem notícias destas…


OUTRAS NOTÍCIAS

Como a primeira parte foi excecionalmente longa, hoje esta secção é bem mais enxuta.

Começo por uma notícia de última hora: a FIFA acaba de anunciar que Joseph Blatter e Michel Platini são banidos oito anos de qualquer atividade ligada ao futebol. Mão pesada para os dois homens mais importantes da modalidade nos últimos anos.

A Índia está em convulsão por causa da libertação dos mais jovem dos violadores que participou num brutal crime que provocou a morte de uma jovem num autocarro em Nova Dehli. O país tem uma legislação muito ligeira para crimes sexuais.

Na China ainda há 91 desaparecidos, depois de um aluimento de terras e lixo ter provocado a destruição de 33 edifícios em Shenzhen

Na Eslovénia, os eleitores rejeitaram em referendo o casamento homossexual. O parlamento tinha aprovado uma lei a permitir o casamento e a adoção por casais do mesmo sexo, mas ontem 63,3% dos eleitores que participaram no referendo disseram não.

Na curiosa democracia venezuelana, os funcionários da fábrica local da Pepsi foram finalmente libertados, depois de terem sido detidos na sexta-feira por, segundo o governo, terem parado de produzir Pepsi Cola para prejudicar a economia local. A empresa desmente as acusações e garante que fábrica deixou de operar por falta de matérias-primas.

No futebol nacional, a jornada de ontem mexeu com a classificação. O Sporting teve a primeira derrota da época na visita ao União da Madeira e entregou o primeiro lugar ao Porto, que já não passava a noite de ano novo no primeiro lugar desde 2011.

Sporting e Porto defrontam-se na próxima jornada dia 2 de janeiro, num jogo que permite aos jornais desportivos usarem com propriedade um adjetivo que tanto acarinham e que ganha outra força em pleno inverno: escaldante.

Os jogadores do Benfica tiveram que ouvir assobios enquanto tentavam ultrapassar o Rio Ave, mas ganharam com folga (3-1). Segundo os desportivos houve três penáltis por assinalar, o que dará para encher uns vinte programas de análise desportiva. Afinal, o que é o Banif ao pé de três grandes penalidades por assinalar na Luz?

No futebol internacional, o Bayern de Munique anunciou que o treinador Guardiola deixa o clube no final do ano. São más notícias para alguns treinadores que andam em apuros e que, de repente, veem Mourinho e Guardiola no mercado e prontos a ser contratados.

A conta de Instagram de Isabel dos Santos (Isabel_santos_angola) deu ontem muito que falar, com uma foto da empresária ao lado de Nicki Minaj ontem em Luanda. A cantora tinha sido muito pressionada a cancelar o concerto por causa do julgamento de Luaty Beirão e de outros ativistas, mas fez uma grande atuação no Estádio dos Coqueiros, para gáudio do público e da organização da Unitel (telecom controlada por Isabel dos Santos). A Blitz conta tudo aqui.


FRASES
“A venda do Banif ao Santander tem um custo muito elevado para os contribuintes”. António Costa, primeiro-ministro, na comunicação ao país feita ontem à noite

“Quem ganha eleições deve formar governo e eu vou tentar formar governo porque Espanha necessita de um governo estável”. Mariano Rajoy, primeiro-ministro de Espanha e líder do Partido Popular

“Não estávamos à espera disto. Empatar já não era bom, perder foi pior”. Jorge Jesus, treinador do Sporting, ao ver escapar-lhe o primeiro lugar


O QUE EU ANDO A LER
O final do ano é tempo de balanços. Nos últimos dias vários jornais e revistas têm dado espaço às suas escolhas. Pode ler aqui as dos críticos do Expresso (artigo disponível neste link) ou o Top 10 do suplemento cultural dos nossos colegas do caderno ípsilon, do Público.

No Público o pódio é ocupado por Assim Começa o Mal, de Javier Marías, História do Novo Nome, de Elena Ferrante, e A Senda Estreita para o Norte Profundo, de Richard Flanagan. Metade do top é ocupado por portugueses: Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Teresa Veiga e Alexandre Andrade.

No Expresso não optámos por um top único, mas por listas dos vários críticos. Muitos dos livros e autores acima citados reaparecem nas nossas escolhas, bem como a nota de 2015 ter sido o ano em assistimos à perda de um dos nossos maiores poetas do séc. XX, Herberto Helder, e de um dos mais originais e coerentes editores nacionais, Vítor Silva Tavares, da & etc.

Uma nota destacada nas escolhas foi a importância das reedições. Alguns dos grandes acontecimentos editoriais estiveram mesmo nesse campo. Relevo dois autores de que gosto muito: primeiro, José Cardoso Pires, que viu finalmente a sua obra ser reeditada na Relógio D’Água. Cardoso Pires é um escritor notável, com uma mão cheia de grandes livros e que, pouco a pouco, foi desaparecendo das nossas livrarias. Aproveitem agora.

Outra escolha pessoal reeditado este ano: Saul Bellow, o príncipe dos escritores judeus norte-americanos, republicado por cá na Quetzal. Que me desculpem os fãs de Roth, mas Bellow é o melhor de todos e não vai ser fácil destroná-lo.

Se quiserem acabar o ano com um livro de Bellow e outro Cardoso Pires na cabeceira ficam em boas mãos para entrar em 2016. Enquanto não pegam em livros, já sabem, é só estarem atentos ao Expresso Online, onde não vai faltar informação, análise e opinião sobre o Banif, Espanha e tudo o mais que acontecer. Ao fim da tarde trazemos o Expresso Diário, com tudo isto bem enquadrado e nova ronda de opinião e notícias em primeira mão. E como o mundo não para de girar, o Expresso Curto volta amanhã de manhã.

Bom dia, bom trabalho e boas compras de natal e não se esqueça que, se alguém lhe perguntar o que fez no fim de semana, pode sempre dizer: “ontem vendi um banco…”