segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

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Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
 
7 de Dezembro de 2015
 

A maré de Marine e o chavismo a cair de Maduro 


Não é nada que não se estivesse à espera. É uma daquelas coisas que todos sabíamos que ia acontecer, numa espécie de se não for desta é para a próxima. Foi ontem que a verdade dos números caiu em cima dos franceses e de alguma Europa surpreendida: Marine Le Pen e a Frente Nacional varreram as regionais francesas, subindo de forma categórica e pela primeira vez ao lugar de partido mais votado em França.

Marine e os candidatos da FN, onde se destaca a sua sobrinha Marion Maréchal-Le Pen – a nova estrela do partido -, só ainda não deram várias voltas à pista a festejar porque o sistema eleitoral francês joga-se a duas voltas e é muito natural que eleitorados diversos se juntem agora numa espécie de “todos contra Marine”. Este texto do meu colega Daniel Ribeiro explica bem a importância do momento.

Neste jogo de desistências e apoios cruzados, os socialistas de Hollande – relegados para terceiro lugar – já anunciaram que pura e simplesmente não vão a jogo em alguns sítios. Retiram-se para impedir a vitória da FN. Essa desistência foi agradecida pelo regressado Nicolas Sarkozy, que, no entanto, recusa fazer acordos formais. Sarkozy sabe que é o único que pode travar a vitória de Marine Le Pen e nem negoceia apoios que vão acabar por lhe cair aos pés.

Neste duelo Marine vs Nicolas não está afastada a hipótese da Frente Nacional vir mesmo a liderar duas enormes regiões, onde ontem arrebatou mais de 40% dos votos. Em Norte-Pas de Calais-Picardia e em Provença-Alpes-Côte d’Azur, Marine e a sua sobrinha Marion, podem vir a liderar as regiões. (Eleições em França. Frente Nacional às portas do poder em duas grandes regiões). Mais uns dias e as contas estão feitas.

Como a democracia é isto mesmo, o poder do voto popular e individual, o mesmo dia que marca a viragem da Frente Nacional assinala o princípio do fim de 17 anos de chavismo na Venezuela. O estilo bolivariano do Presidente Nicolas Maduro – o sucessor de Hugo Chávez – foi derrotado de forma categórica nas urnas. Com uma participação extraordinária de 74,25% dos eleitores, a MUD conseguir 99 lugares no Parlamento contra 46 de Maduro.

Ainda falta apurar muitos votos, mas a diferença é de tal ordem que já é certo que Maduro vai ter que presidir à Venezuela com um parlamento hostil e que, pela ordem natural das coisas, vai acabar por perder o poder.

Começam, assim, os dias do fim do chavismo, esse projeto de poder bolivariano demagógico que arrastou a Venezuela para a miséria, numa situação económica quase incontrolável, mas cujo populismo tanto agradou a alguns políticos portugueses, a começar pelo amigo José Sócrates (ladeado pela dupla Pinho & Lino) e a acabar em Paulo Portas, na sua versão Oliveira da Figueira, com a mala cheia de Magalhães.

Como o mundo não se faz só de eleições, vamos ao resto.


OUTRAS NOTÍCIAS
O terrorismo continua a marcar os nossos dias. Esta noite Barack Obama fez um raro discurso ao país a justificar a sua estratégia anti-terrorista e o plano de ataque ao Daesh na Síria e no Iraque. É uma importante intervenção sobre uma nova fase do terrorismo. O presidente americano referiu-se aos ataques da semana passada em San Bernardino e manteve a ideia de não colocar tropas no terreno na Síria.

A manhã em Londres é de alguma tensão e segurança muito reforçada, depois de um homem ter levado a cabo um ataque com uma faca numa estação na tarde de sábado. Muhaydin Mire, de 29 anos, já foi acusado de tentativa de homicídio pela Scotland Yard, mas o medo de ataques de “lobos solitários” instalou-se.

Hoje é a estreia oficial de Mário Centeno no Eurogrupo. O novo ministro das finanças já fez um périplo informal pelas instituições europeias na semana passada, mas hoje é mesmo a sério. É a primeira vez que os seus colegas o vão ouvir. Vai ser interessante – e importante – ver o que o poderoso Wolfgang Schauble diz no fim da reunião.

Por cá, o Jornal de Negócios e o Correio da Manhã publicam uma sondagem que mostra como a ideia sobre a duração do novo governo está a mudar na cabeça dos portugueses. 31% dos inquiridos considera que o Executivo PS vai cumprir os quatro anos da legislatura, 3,9% acha que vai durar três anos e 17,1% fala numa duração de dois anos. Ou seja, mais de 50% acredita que não cai na primeira curva.

O Público traz hoje a primeira grande entrevista com o novo primeiro-ministro. Há várias novidades, nomeadamente a confirmação de que a sobretaxa não acaba toda em 2016. As negociações com os partidos à esquerda decorrem no Parlamento, sendo certo que a solução deverá assentar num modelo de progressividade.

Costa explica porque fez os acordos à esquerda, diz perceber que a direita esteja irritada e respeitar “algum azedume”, avisa que a Concertação Social não se pode transformar numa Câmara Alta e que os transportes de Lisboa e Porto vão mesmo ver as privatizações revertidas.A entrevista é longa e vai dar que falar ao longo do dia.

O Diário de Notícias diz que o Ministério Público vai ter uma ferramenta informática com ligação direta a bancos e seguradoras. Qualquer operação suspeita passa assim a poder ser monitorizada em tempo real. Já havia comunicações bancárias obrigatórias, mas assim fica ainda mais rápido.

As escolas de gestão da Universidade Católica de Lisboa, da Nova e do Porto estão uma vez mais entre as melhores da Europa na lista do Financial Times. A Católica Lisbon School of Business and Economics ficou em 26.º lugar, a Nova School of Business and Economics em 28º e a Porto Business School surge em 62.º lugar. Pelo segundo ano consecutivo, a London Business School, da Universidade de Londres, fica em primeiro lugar.

No futebol os dias andam mais calmos, depois da agitação dos direitos televisivos. Esta semana há competições europeias e é para isso que os olhares se viram. Há um Benfica-Atlético Madrid e um Chelsea-Porto.

Ontem foi um dia muito agitado para o ciclismo. Tudo porque o F. C. Porto anunciou um acordo com a W52, que, dias antes, tinha sido anunciada como parceira do Sporting. Ou seja, enquanto alguém em Alvalade festejava o regresso ao ciclismo, esqueceu-se de pôr o cadeado e quando olhou para a bicicleta… já estava no Porto.

Antes de terminar esta parte, resta dizer que a chuva regressou em força. Basta ir à janela para confirmar. Está um daqueles dias cinzentos e chuvosos, com ar de que não vai mudar. É a vida.


FRASES
“Percebo que a direita esteja irritada e respeito até algum azedume”. António Costa, no Público, na sua primeira grande entrevista como primeiro-ministro

“Fim da austeridade? O país não pode embarcar em facilitismos”. Luís Amado, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros em entrevista ao Diário Económico

“F.C. Porto antecipou falta de pedalada para o futebol”. Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, sobre a forma como os portistas ‘roubaram’ a equipa de ciclismo que se preparava para fazer um acordo com os sportinguistas


O QUE EU ANDO A LER
Os jornais internacionais já começaram com as habituais listas de melhores livros do ano. Por cá, essas listas ainda estão pouco consolidadas, pelo que deixo a literatura para o meu próximo Expresso Curto, ainda uns dias antes do natal.

É um exercício tão habitual como encher as ruas de comércio com luzes de natal. Olhar para trás e ver o que melhor se escreveu, compôs ou filmou faz parte da época e ajuda nalgumas prendas ou naqueles balanços mais introspetivos que todos fazemos antes das últimas badaladas do ano. Tenho que ler isto, mas como é que nunca ouvi isto, não é que este filme me escapou, etc…

Se quase todos os jornais, revistas e sites são bons a olhar para trás, há um nome que se estabeleceu como o melhor do mundo a olhar para a frente. A revista The Economist já tem nas bancas a edição especial The World in 2016. Como sempre, é fundamental para nos abrir os olhos para o que está mesmo ali ao virar da esquina, em mais um ano de enormes contradições.

Essa edição, que se encontra com facilidade nas nossas bancas ou em digital, caminha nessa tensão entre um mundo de inovação tecnológica e descobertas científicas e tendências imparáveis de guerra, refugiados, terrorismo, instabilidades de toda a ordem e ascensão das direitas nacionalistas e das extremas-esquerdas.

Essa tensão está bem sintetizada no texto da diretora da revista Zanny Minton Beddoes, “o lamento de uma liberal”, que apela a um “radicalismo do centro”, como forma de enfrentar as agendas populistas e conservadoras (à direita e à esquerda) que se estão a instalar na ordem mundial.

Para terminar, e porque hoje é ponte, sugiro que vá ao cinema ver o magnífico Que horas ela volta?, da brasileira Anna Muylaert, a primeira mulher em 30 anos a ser pré-nomeada para o Óscar de melhor filme estrangeiro. O filme recebeu o prémio do público no Festival de Berlim e o de melhor atriz no Festival de Sundance, uma extraordinária Regina Casé.

A crítica portuguesa tem sido menos entusiasta, mas Que horas ela volta? é um filme poderoso e simples que provocou grande discussão no Brasil – onde já foi considerado o filme da década – pela forma direta e bem disposta como olha para as diferenças sociais e tensões que atravessam o país de uma forma simples e poderosa. É muito bem filmado, com planos pouco habituais no cinema comercial, e melhor interpretado por um belíssimo naipe de atores, num filme que vai dar que falar.

Entre o trabalho, as compras e uma ida ao cinema, vá espreitando o Expresso Online porque o mundo não para. E ao fim da tarde, já sabe, temos o Expresso Diário com toda a atualidade bem arrumada, notícias em primeira mão e opinião exclusiva. O Expresso Curto regressa quarta-feira. Até lá tenha um bom dia e, se puder, aproveite o feriado.