segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

coisas da educação... ou da deseducação...?

A educação é o antídoto para a radicalização

 

Gordon Brown

"Nenhum visitante do Médio Oriente pode deixar de notar o fosso entre as aspirações educacionais, empresariais e profissionais dos jovens da região e a dura realidade que priva muitos deles de um futuro positivo. De facto, no Médio Oriente, metade das pessoas com idades entre os 18 e os 25 anos está desempregada ou subempregada.

A agravar esta situação está a crise global dos refugiados, que deslocou cerca de 30 milhões de crianças, das quais seis milhões vindas da Síria, sendo muito poucas as que têm a probabilidade de voltar para casa ainda em idade escolar. Não deveria ser surpresa o facto de o grupo conhecido na região como Daesh (o Estado Islâmico) acreditar que pode encontrar um terreno fértil para o recrutamento nesta vasta população de jovens despojados e descontentes.

Os propagandistas do Daesh estão a fazer um mau uso das redes sociais semelhante ao que os seus antecessores e contemporâneos extremistas têm, por vezes, feito das mesquitas - utilizando-as como um fórum para a radicalização. O grupo edita consistentemente conteúdos que contestam a possibilidade da coexistência entre o Islão e o Ocidente e convida os jovens a juntarem-se à jihad.

Os vídeos grotescamente violentos produzidos pelo Daesh têm o apelo do choque. Mas o que realmente atrai os jovens descontentes é o convite para fazer parte de alguma coisa que parece maior do que eles mesmos e as sociedades em que vivem. Shiraz Maher do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização (ICSR, sigla em inglês) do King"s College de Londres identifica uma linha de sentimentos comuns entre os recrutas: "uma justa indignação, um sentimento de desafio, uma sensação de perseguição e uma recusa em se conformarem". Como conclui um relatório recente da Fundação Quilliam, o Daesh joga com o desejo juvenil de se fazer parte de alguma coisa com significado; é o apelo utópico da organização o que mais atrai os novos recrutas.

Perante isto, poucos discordarão de que nos encontramos numa batalha geracional por corações e mentes que não pode ser vencida apenas por meios militares. O poder militar pode eliminar os principais líderes do Daesh. Mas vamos precisar de mais do que isso para convencer os quase 200 milhões de jovens muçulmanos de que o extremismo é, literalmente, um beco sem saída.

Há muitos exemplos de operações furtivas para combater o extremismo em todo o subcontinente indiano e no Médio Oriente: revistas infantis no Paquistão, vídeos destinados aos adolescentes no Norte de África, estações de rádio no Médio Oriente e livros e publicações de oposição à Al Qaeda. Elas podem ajudar a expor a verdade sobre a vida no Daesh - a brutalidade, a corrupção e a propensão para purgas internas - de várias maneiras, inclusive chamando a atenção para as deserções. Como afirma um relatório de 2014, "[a própria existência de desertores] desfaz a imagem de unidade e determinação que [o grupo] procura transmitir".

Mas temos de ser mais ambiciosos se quisermos ganhar a guerra ideológica, apoiando o espaço cultural que o Daesh chama de "zona cinzenta", que ele almeja destruir. É um espaço em que muçulmanos e não-muçulmanos podem coexistir, descobrir os seus valores comuns e cooperar. Peter Neumann, diretor do ICSR, propôs um concurso no YouTube de vídeos que explicam as falhas do Daesh. "Iríamos receber 5000 vídeos num instante", diz ele. "Destes, quatro mil são lixo, mas 1000 são eficazes - 1000 vídeos contra a propaganda do Estado Islâmico."

No entanto, a melhor ferramenta de longo prazo para combater o extremismo é a educação. Em Jaffa, Israel, uma escola gerida pela Igreja da Escócia ensina as virtudes da tolerância às crianças muçulmanas, judias e cristãs. Em todo o Líbano, um currículo escolar comum que defende a diversidade religiosa - inclusive a "recusa de qualquer radicalismo e exclusão religiosa ou sectária" - está a ser ensinado às crianças sunitas, xiitas e cristãs e começa aos nove anos de idade. O país introduziu também dois turnos no seu sistema escolar para acomodar cerca de 200 000 crianças sírias refugiadas.

Se um país como o Líbano, conturbado e devastado pela violência sectária e pelas divisões religiosas, pode defender a coexistência e oferecer aos refugiados sírios a oportunidade de estudar, não há razão para outros países da região não seguirem o seu exemplo.

A escolha não poderia ser mais clara. Nós podemos ficar parados e assistir a uma nova geração de jovens muçulmanos, hábeis utilizadores da internet, ser inundada com falsas alegações de que o Islão não pode coexistir com os valores ocidentais. Ou podemos reconhecer que os jovens do Médio Oriente, e do resto do mundo muçulmano, partilham as aspirações dos jovens de todo os outros lugares do mundo.

Todas as provas indicam que os jovens da região querem educação, emprego e a oportunidade para aproveitar ao máximo os seus talentos. A nossa resolução para 2016 deve ser a de fazer com que isso aconteça."

( C ) Project Syndicate, 2015.

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