sexta-feira, 11 de novembro de 2016

uma dupla tristeza e uma homenagem a acompanhar...

como já devem ter percebido, depois dos vários avisos que fui deixando esparsamente em algumas entradas, as coisas não têm andado a correr bem para o meu lado e estou a falar de saúde.

daí esta longa interrupção que se deve essencialmente a falta de vontade de intervir, em especial na área da educação, onde tinha muita coisa que já foi para o lixo da história...

oficialmente só estava presente no facebook onde me ia expressando, essencialmente através de obras de artes visuais, com os respectivos comentários.

dois acontecimentos, quase coincidentes, obrigam-me a deixar a minha área de (des)conforto e vir dar conta da citada dupla tristeza e o porquê da referida homenagem.

sexta-feira passada fui ao hospital para uma segunda sessão de ferro líquido, via endovenosa, e aproveitei para ir visitar uma vizinho e amigo que estava internado já há algum tempo, após várias complicações e infecções por via de uma operação à próstata; reconheceu-me muito bem, falámos um bocado (e aqui seria mais exacto dizer que ele falou, a explicar as suas mazelas, já que uma surdez mais acentuada não lhe permitia ouvir, em condições, o que se lhe dizia e eu não ia preparado para isso - não tinha papel nem lápis à mão)... e sou surpreendido pelo seu passamento esta terça-feira.

como devem compreender fiquei arrasado pois já nos conhecíamos desde que vim viver para s. pedro do estoril, apesar de não sermos amigos de peito e de convívio íntimo, conhecia os filhos e a mulher, mas em especial os cães, dois setters irlandeses, o mais velho o 'kaiser' e o outro 'doc' e fazíamos as nossas conversas de circunstância à porta da garagem dele, o engenheiro aurélio gaspar...

isto anos a fio e a perceber cada vez mais a maior cumplicidade dele com o filho joão que era a sua melhor companhia nos últimos anos.

em agosto, por mero acaso, vi-o a fechar a porta da garagem e perguntei-lhe como iam as coisas e ele lá foi desfiando uma história que me começou a parecer incoerente, até que se me iluminou o espírito e tive que lhe perguntar a frio... está-me a dizer que o seu filho joão morreu...?

desde aí que o meu amigo e vizinho nunca mais foi o mesmo, para além de pequenos problemas de saúde que estavam a ser controlados, foi-se deixando ir, um dia de cada vez...

despedi-me dele nesta quarta-feira, foi cremado na quinta-feira e, agora, é mais um dos espíritos livres que povoa os espaços siderais e em boa companhia, a do seu filho joão, do 'kaiser' e do doc'...

adeus amigos e boa viagem.

a dupla tristeza advém do facto de hoje ser apanhado desprevenido pelo falecimento de um senhor das letras e das baladas, leonard cohen, que foi um dos meus companheiros na estrada da vida (e na altura em que bob dylan foi designado como nobel da literatura eu ter contraposto o nome de cohen, em alternativa, assim como o de chico buarque, apesar de o dylan ser um dos mitos da minha juventude, acompanhado naturalmente da joan baez).


a justa homenagem não é feita pela escolha da melhor balada ou poema do 'cantautor' mas pela circunstância de estar a estendê-la ao meu amigo e vizinho, por agora serem espíritos que, acredito, velam por todos nós... 'Hallelujah'