"Nuno
foi constituído arguido e impedido de sair do país porque usurparam a
sua identidade, um crime que segundo a Comissão de Proteção de Dados é
cada vez mais frequente e que as pessoas facilitam ao exporem-se na
internet.
Nuno
só "facilitou" porque deixou a carteira dentro do automóvel e foi lá
que a roubaram. Apresentou de imediato queixa na polícia e tratou de
arranjar novos documentos. Ao fim de três meses, contou à Lusa, foi
chamado à secção de inquéritos da PSP por supostamente ter passado
cheques sem cobertura.
"Estavam a usar a minha identidade. Fui constituído arguido e
impedido de sair do país durante um ano", o tempo que durou o pesadelo. O
tempo em que alguém se fez passar por ele e comprou materiais de
construção no valor de milhares de euros.
Foram, diz, quase uma dezena de cheques e novamente chamado à polícia
para "fazer ditados" (para compararem a letra). Tudo "muito estranho".
Mas Clara Guerra, coordenadora do serviço de informação e relações
internacionais da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), diz que
não é estranho, mas sim uma prática cada vez mais comum, facilitada
hoje pela displicência com que pessoas e instituições divulgam e expõem
dados pessoais na internet.
A Lusa pediu à Polícia Judiciária (PJ) dados sobre queixas de
usurpação de identidade, mas não obteve resposta. No entanto, segundo o
Relatório Anual de Segurança Interna de 2015, "o crime de burla
informática e nas comunicações subiu 30,4 por cento em 2014"
relativamente ao ano anterior, subindo também 4,3 por cento o crime de
falsificação de documentos.
Dados divulgados pela GNR em novembro passado dão conta de 680 crimes
relacionados com burla informática e nas comunicações em 2014 (que têm
vindo a aumentar desde 2012) e outras tantas queixas de falsificação ou
contrafação de documentos.
A usurpação acontece tanto no mundo físico como no digital, avisa
Clara Guerra, explicando que até no lixo há muita informação, porque há
pessoas que aí colocam, por exemplo, faturas, sem as destruir primeiro.
Ou até mesmo cartões multibanco caducados.
"Através disso, através da engenharia social, conseguem-se obter
dados, abrir contas bancárias. E hoje, na internet, as pessoas
disponibilizam muitos dados, relacionam-se com empresas à distância,
faz-se identificação remotamente", diz.
E depois, acrescenta, pode acontecer um roubo de identidade, até sem a
vítima saber, para com ela se praticarem atos ilícitos. E as "pessoas
podem ter dificuldade em provar que não foram elas as autoras desses
atos".
Este ano, a CNPD colocou a usurpação de identidade no centro do
debate, um instrumento de crime que afeta 200 mil pessoas por ano nos
Estados Unidos só no serviço de saúde, com 25 por cento dos britânicos a
já terem sido alvo de roubo de identidade, salienta Clara Guerra.
Ninguém está a salvo, diz. E, por isso, há precauções que podem ser
tomadas, como "não andar sempre com o wi-fi do telemóvel ligado", porque
há formas de simular uma rede pública e aceder ao conteúdo de
telemóveis, mas também de computadores, como há formas também de obter
remotamente dados de passaportes ou de identificadores de Via Verde
(radiofrequência).
"E depois há uma prática antiga, que começou com o Bilhete de
Identidade e não se percebe porquê", lamenta. Clara Guerra explica que
hoje se pedem fotocópias ou digitalizações do Cartão de Cidadão "por
tudo e por nada", o que é ilegal, e que tem motivado muitas queixas à
CNPD. "As pessoas devem apresentar queixa", frisa.
E diz que o próprio Banco de Portugal deu indicações aos bancos para
tirarem fotocópias do Cartão de Cidadão. "Já avisamos o Banco de
Portugal que não se pode sobrepor à lei", diz a responsável,
acrescentando que de nada serviu.
Ainda assim, a sensibilização e formação é o caminho para "atalhar o
crescimento do problema", desde ações nas escolas à análise das práticas
das empresas e entidades públicas quanto à recolha e tratamento de
dados.
"Queremos identificar para pode intervir. Estabelecer regras práticas
e claras do que as entidades têm de observar quando estão a fazer
tratamento de dados", diz.
A prevenção, dar orientações, acompanhar, bem como as boas práticas
na forma como as entidades públicas tratam informações sobre os cidadãos
ou como se faz a autenticação à distância, são formas de combater "um
fenómeno que pode ser complicado".
Porque é complicado alguém descobrir que foi feito um empréstimo em
seu nome, que tem um carro para pagar, que passou cheques sem cobertura.
Não tivesse o Nuno conseguido provar a inocência e a ele ia calhar-lhe
pagar a construção de uma casa."
FP // SO
Lusa/fim
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