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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

uma boa notícia...

Prémio Conto Infantil Ilustrado está de volta


Sétima edição do concurso promove as competências de escrita e desenho dos mais novos. O prazo de entrega de trabalhos termina a 5 de fevereiro.
Andreia Lobo
"Vestir o papel de escritor e ilustrador e criar um conto inédito em língua portuguesa. Este é o desafio lançado aos alunos do 4.º ano de escolaridade pelo Prémio Conto Infantil Ilustrado – Correntes D’Escritas / Porto Editora.

Trata-se de uma “iniciativa única”, como descreve Paulo Rebelo Gonçalves, responsável pela comunicação da Porto Editora, entidade responsável pela organização do concurso, desde 2008, em parceria com a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. Porquê? “Promove o gosto pela escrita, pela leitura e pelo desenho como expressão artística, mas, não menos importante, estimula a partilha de ideias, de criatividade, o trabalho em equipa.”

Ao contrário do que acontece na maioria dos concursos, os trabalhos têm de ser obrigatoriamente realizados pela turma com o apoio do docente. Não são aceites participações individuais. Para Luís Diamantino, vereador da Cultura e da Educação da autarquia poveira, este é um dos aspetos que tornam o concurso “singular”: “Tem de haver uma união dos alunos da turma, entre os que escrevem melhor, os que têm mais imaginação ou mais jeito para o desenho, e todos colaboram na criação do conto, com a ajuda do professor.”

E, assim, “ao criarem algo em comum, os alunos criam laços entre eles”, resume o vereador, deixando um apelo ao envolvimento dos professores, que considera “a grande locomotiva” do concurso. “São eles que motivam os alunos e proporcionam experiências que nunca mais esqueceremos.”

Por ser dirigido a crianças do 1.º ciclo do ensino básico, com idades compreendidas entre os 9 e os 10 anos, o Prémio Conto Infantil Ilustrado “promove o desenvolvimento de competências educativas, sociais e afetivas”, assegura Paulo Rebelo Gonçalves. “Por isso, esta iniciativa é tão interessante e merece toda a atenção dos professores e educadores.”

Outro aspeto que prova a importância da iniciativa, aponta o vereador Luís Diamantino, é o facto de o concurso conseguir mobilizar participações não só em Portugal, mas também de escolas portuguesas espalhadas pelo mundo. “Já tivemos a concurso trabalhos de turmas de alunos a estudar em França e no Luxemburgo.”

Mais do que ganhar, diz ainda o vereador, “importa participar”. No entanto, quem concorre precisa de saber que, no que toca à avaliação dos trabalhos a concurso, os elementos do júri vão apreciar simultaneamente o texto e as ilustrações. Os três melhores contos, e todos os que receberem menções honrosas, são editados pela Porto Editora em livro. Ver a obra publicada é o sonho de qualquer escritor e para as crianças é sempre “gratificante”, atesta o vereador.

Nesta, tal como em todas as edições anteriores, os livros que resultam da iniciativa são oferecidos aos alunos premiados e a todas as escolas participantes. Mas os prémios não se ficam por aqui. As escolas vencedoras, que alcancem, respetivamente, o primeiro, segundo e terceiro lugares, ganham vales no valor de mil, quinhentos e duzentos e cinquenta euros para serem gastos em produtos e edições da Porto Editora.

O prazo de entrega dos trabalhos termina a 5 de fevereiro. Mas antes de começar a trabalhar importa perder algum tempo a ler na íntegra o regulamento da edição de 2016. Em resumo, ficam algumas notas importantes no que toca à estrutura e formato dos trabalhos. O texto deve ter no mínimo uma e no máximo três páginas, datilografadas a letra times new roman, corpo 12, a espaço e meio. As ilustrações devem ser apresentadas num documento à parte em dimensões máximas de 24 cm x 24 cm. Não são aceites ilustrações em formato informático.

Dupla atenção a outros detalhes do regulamento já mencionados: os participantes não podem concorrer individualmente, nem em grupos de turmas subdivididas. A participação de cada escola está limitada a dois trabalhos por turma do 4.º ano. Aos autores outro aviso: os textos devem ser apresentados sob pseudónimo.

O regulamento dita que cabe ao professor, que supervisiona o trabalho, a tarefa de testemunhar por escrito a autoria e a originalidade do texto. Para tal é preciso preencher uma declaração que deve ser enviada juntamente com o trabalho. A par deste documento, o professor tem de assinar uma outra declaração onde autoriza a publicação do trabalho, caso este seja premiado.

A participação implica ainda alguns procedimentos “extra”. Devem ser enviados três exemplares do texto datilografado, bem como os originais e duas cópias a cores dos desenhos das ilustrações. Todos estes documentos têm de seguir num envelope opaco e fechado, no rosto do qual se escreve a palavra “Obra”.

Noutro envelope, semelhante ao primeiro, coloca-se no rosto a identificação da turma, a denominação da escola, o título do trabalho e o pseudónimo. Dentro dele segue a identificação dos alunos da turma que realizou o trabalho, da escola, com morada e número de telefone. Também a identificação do professor responsável e do diretor da escola, seguidos dos seus contactos (morada, número de telefone e e-mail). E, por fim, as duas declarações já mencionadas.

Os dois envelopes são encerrados num terceiro “invólucro exterior” a ser enviado pela escola participante, autonomamente, ou através do agrupamento no qual se insere. No destinatário é obrigatória a inscrição: CONTO INFANTIL ILUSTRADO CORRENTES D’ ESCRITAS PORTO EDITORA, ao c/ de Manuela Ribeiro, Cine-Teatro Garrett (entrada tras.) Avenida Mouzinho de Albuquerque, n.º 35, 4490 – 409 Póvoa de Varzim.

Como sempre, convém lembrar que os trabalhos apresentados a concurso não são devolvidos pela organização. E, claro, podem ser excluídos, se não respeitarem o regulamento. Note-se ainda que o júri é constituído três elementos, dois designados pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, outro indicado pela Porto Editora.

Como já é habitual, o anúncio do vencedor acontece na XVII Edição do Correntes D’ Escritas, Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, que decorre nos dias 23 a 27 de fevereiro na Póvoa de Varzim
."


Informações: 


www.cm-pvarzim.pt

www.portoeditora.pt
via educare... 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

educação, escola e direitos de autor... reflexões para o fim de dia... via educare...!



"Por estes dias, os alunos da Escola Secundária D. Manuel Martins, em Setúbal (dia 19 de outubro), e da Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro (dia 26), vão perceber como é que ao fazer uma cópia ilegal de um CD de música estão a retirar salário a um artista. São várias as questões relacionadas com os Direitos de Autor. “Mas não há muita informação fidedigna sobre a matéria”, começa por dizer Paula Cunha, diretora-geral da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Para colmatar essa lacuna, a SPA encontrou uma forma de fazer com que “os jovens ouçam as explicações da entidade que juridicamente representa os autores”. E, assim possam esclarecer – com quem de direito – as dúvidas geradas quanto à legalidade ou ilegalidade de atos simples. Como o de pôr a tocar música na festa do bairro ou de levar para as aulas as fotocópias de Os Maias, de Eça de Queirós. O conceito é simples, explica Paula Cunha: “O direito de autor é o salário do criador. É aquilo que o autor recebe porque está a fazer o seu trabalho.” No terreno escolar, cabe a Tozé Brito, administrador da SPA, desvendar a profissão de artista aos estudantes do ensino secundário. Falar do processo de criação. Mostrar que os músicos não trabalham só por gosto. E que a escrita de canções requer mais do que a mera inspiração. Explicações para chegar ao óbvio: “Ser autor é uma atividade criativa distinta, mas que tem o direito a ser remunerada. Essa remuneração é um direito do autor. Por isso, as suas criações têm de ser protegidas e não podem ser pirateadas”, resume a diretora-geral da SPA.

Ao comprar uma obra o consumidor paga o direito de ser o seu detentor físico. Mas não a pode utilizar num local público, sem pagar os respetivos direitos. Por isso, quem viola os direitos de autor comete um crime de contrafação. Ou seja: utiliza sem a devida autorização do produtor algo que lhe pertence. A penalização pode incluir pena de prisão até três anos e multa de 150 a 250 dias, conforme a gravidade da infração. A linha que separa a legalidade da ilegalidade pode não ser muito clara. Paula Cunha acredita mesmo que a maioria dos jovens prevarica sem saber. Razão pela qual o foco nas escolas é dirigido à importância do trabalho do autor enquanto criador. “Quando lhes é explicado os jovens percebem que ser autor não é um passatempo, é uma ocupação a tempo inteiro. Por isso, a nossa abordagem é pedagógica, não é repressiva.”

De todas as atividades artísticas, a música é a área em que os jovens colocam mais questões. Os atropelos mais frequentes aos direitos de autor, segundo Paula Cunha, incluem “a perceção de que a pirataria é socialmente correta” e “que atividade criativa é um hobby”. A familiaridade com as novas tecnologias torna menos claras outras situações de risco: “É preciso explicar aos jovens porque não podem ir à Internet e fazer downloads ilegais. Amanhã, alguém pode fazer o mesmo a uma obra deles. E aí já não vão gostar!”

Há todo um conjunto de noções que os jovens devem ter sempre em mente. Que o facto de ser dono de um CD não significa que o possa pôr a tocar onde quiser. Poderá ouvi-lo em privado. Mas não num local público. Pelo menos, sem pagar os respetivos direitos à SPA. Uma vez que é a entidade a quem cabe autorizar a utilização das obras cujos autores representa, sejam nacionais ou estrangeiros. É também a SPA que define em que contextos essa utilização é legal. Cobrando os direitos deste uso. Montantes que são depois pagos aos titulares das obras. Além da música, a SPA representa todas as atividades que impliquem produção artística: literatura, cinema, vídeo, pintura, fotografia.

A receção nas escolas tem mostrado que o interesse dos públicos pelo tema está a crescer. Por um lado, “muitos jovens querem ser músicos ou escritores e percebem que ao defender hoje os direitos de autor estão a contribuir para aquela que pode vir a ser a sua causa”, constata Paula Cunha.

Por outro lado, as novas tecnologias representam outros desafios para a missão da SPA: “É uma realidade à qual não podemos fugir e que torna mais importante este tipo de intervenção nas escolas.” A legislação em matéria de direitos de autor foi revista em meados deste ano. Ainda assim, a SPA quer ver resolvida, de uma vez por todas, a questão das cópias ilegais. “Estamos a aguardar uma lei que regule o crime da pirataria. É uma matéria que precisa de ser muito bem clarificada.”

Razões de sobra para a iniciativa voltar ao espaço escolar já no próximo ano. “Não estamos apenas a defender a cultura estamos a explicar como a cultura, é defendida pela SPA e como os seus mecanismos funcionam para que os autores recebam aquilo a que têm direito.”

Depois de Coimbra, Porto, Viseu e Braga - onde a SPA teve uma plateia de mais de 300 alunos – a diretora-geral garante que o projeto vai continuar. “Temos recebido inúmeros pedidos para levar o tema às escolas de todo o país. Os professores acham o tema interessante e a abordagem que estamos a fazer capta a atenção dos alunos.”

Além das sessões previstas nas escolas, a SPA promove em Setúbal e em Faro dois debates abertos ao público em geral onde explicará que valores são cobrados, como são distribuídos pelos criadores e a importância económica e social dos direitos de autor. O primeiro acontece no Auditório Charlot e o segundo no Auditório da Biblioteca Municipal de Faro, dias 19 e 26 de outubro às 15h00
."



Sobre a Sociedade Portuguesa de Autores
Criada há 90 anos, a SPA é uma cooperativa de direito privado, sem fins lucrativos, com mais de 25 mil autores portugueses inscritos. Os direitos de autor e a propriedade intelectual estão protegidos legalmente pela Constituição da República Portuguesa (artigo 42.º) e pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, publicado no Decreto-Lei n.º 63/85 de 14 de março. Com alterações introduzidas pelas leis n.ºs 45/85, de 17 de Setembro, 114/91 de 3 de setembro, pelos Decretos-Leis nºs. 332/97 e 334/97, ambos de 27 de novembro, e pelas leis nºs 50/2004, de 24 de Agosto, 24/2006, de 30 de Junho e 16/2008, de 1 de abril.

Esta proteção é reconhecida em todos os membros da União Europeia, nos países subscritores da Convenção de Berna para a Proteção de Obras Literárias e Artísticas e nos membros do Tratado da Organização Mundial da Propriedade Intelectual.

Mais informações: na página www.spautores.pt


via educare...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

o ontem, o hoje e o amanhã da educação (?)... reflexões para o fim de dia...!

 
 
 
 
nota - para as duas entradas anteriores sigam as respectivas ligações para leitura...
 
 
"Pedem-me que escreva sobre o perfil de um próximo ministro da Educação (vou por agora deixar de parte a Ciência e o Ensino Superior, que merecem pasta própria), o que é uma missão que tem tanto de tentador quanto de temerário em alguém que leva muitos anos de críticas cerradas à maior parte da ação dos titulares da pasta. Será que, após tanto tempo a ver tudo tão negativo, há espaço e disponibilidade para pensar a função ministerial no setor da Educação por um prisma positivo?

Certamente que sim e deste modo a tentação vence o bom senso, pelo que apresento em seguida alguns pontos que considero fundamentais, na dupla qualidade de encarregado de educação e professor que quer para a sua educanda apenas e tão-só o que deseja para os seus alunos, num ministro da Educação que encare o seu cargo como um serviço ao seu país, que transcenda os limites de um calendário eleitoralista, que esteja ao serviço de princípios fundamentais de solidariedade e coesão nacional e que seja impermeável aos grupos de pressão que cada vez mais condicionam, ou dirigem a partir de fora, muitas da decisões políticas no setor.

Comecemos pelo que muitos considerarão o fim, ou seja, pelo tipo de relação que o ministro deve estabelecer e manter com aqueles que são os responsáveis pela implementação com sucesso de qualquer reforma educacional a sério: os professores, a quem a última década deixou fortíssimas marcas de desconfiança e desafeição em relação à tutela política, tanto pelo perfil autoritário daqueloutra ocupante da 5 de Outubro como pela postura indiferente do atual.

Qualquer futuro ministro da Educação deve procurar, por todos os meios, recuperar a confiança dos professores que trabalham quotidianamente nas escolas, por forma a mobilizá-los para a sua missão sem ser apenas através da imposição de normativos ou do seu amesquinhamento público, no sentido de os condicionar perante a opinião pública e publicada e os obrigar a fazer aquilo em que não acreditam. Essa mobilização passa pela sua revalorização profissional e material, após uma década de acelerada proletarização e precarização, associada a um envelhecimento do corpo docente em exercício e a uma desmobilização dos jovens candidatos à profissão, mas também pela promoção de um sentido de união e comunhão de objetivos do topo até à base, sem procurar dividir para reinar, colocando professores contra professores, diretores contra dirigidos, contratados contra “efetivos”, quadros de zona contra quadros de escola, professores de um ciclo contra professores de outros ciclos ou mesmo promovendo a desunião dentro de grupos profissionais ou áreas académicas, favorecendo os que se deixam seduzir mais facilmente pela colaboração e os que a ela resistem.

Sem esse sentimento de união, de partilha no processo de tomada de decisão a nível de escola ou central, sem a recuperação de um espírito de colaboração entre todos, as escolas podem tornar-se “unidades orgânicas” mais “eficazes” mas a sua identidade organizacional específica, a sua “alma”, continuará num processo de erosão e desagregação que a macrocefalia da rede escolar e a cada vez menor proximidade entre os órgãos de gestão, a sala de professores e as salas de aula, ajudaram a desenvolver neste século. Um futuro ministro não pode encarar os professores como adversários políticos a abater ou como peças indiferenciadas de uma engrenagem regulada por fórmulas matemáticas.

Mas um futuro ministro deve ter também, e muito especialmente, em conta que o seu cargo se destina a tomar decisões que sirvam para que os alunos das nossas escolas façam o seu percurso escolar nas melhores condições possíveis, não sacrificando os seus reais “interesses” – tantas vezes invocados em vão nas lutas políticas – aos interesses particulares de agentes presentes no chamado “mercado da Educação”. Assim como famílias e alunos merecem – e é seu direito – um serviço público de Educação de qualidade, que não promova o agravamento de desigualdades, seja entre ensino público e privado (puro ou em parceria), seja no seio da rede exclusivamente pública.

Os currículos não podem ser definidos por nichos académicos ou editoriais, as regras e critérios da avaliação, nomeadamente a externa, não podem mudar ao ritmo das eleições ou humores dos políticos em trânsito, as escolas não podem dividir-se em ricas e pobres conforme o poder de persuasão ou pressão de autarcas ou as amizades dos diretores no interior da máquina do ministério. Os materiais escolares no ensino “obrigatório, universal e gratuito” não podem ser obrigatórios, universais e com custo exponencial; as refeições escolares não podem ser contratualizadas pelo valor mais baixo cobrado, em regime de oligopólio ou mesmo monopólio em algumas zonas do país. Os alunos não podem ser tratados como mais uma variável numérica onde já encerraram pessoal docente e não docente.

Se de acordo com o(a)s sucessivo(a)s ministro(a)s da Educação, os alunos é que são a razão de ser do ministério e são o centro da Educação, os seus “interesses” não podem ser “defendidos” apenas quando se trata de os colocar artificialmente em oposição aos dos professores.

Não me parece que seja do interesse dos “alunos” ou das suas “famílias” (nas quais me incluo) que a Educação tenha passado a estar ao serviço de políticas que promovem de forma consciente e ativa o agravamento de um país assimétrico, socialmente injusto, a duas ou três velocidades, e em que os serviços públicos abdicaram de promover o desenvolvimento e batem em retirada após análise de rácios redutores de custo/benefício, legitimando o despovoamento e reforçando diversas centralidades macrocéfalas. Políticas que, para além disso, têm colocado o funcionamento das escolas ao serviço da desregulação dos horários laborais dos pais dos alunos.

Um futuro ministro da Educação deve preocupar-se em chegar à pasta com o olhar “limpo” de pré-soluções infalíveis, para as quais se encomendam estudos comprovativos; não pode ser um peão nos jogos de influências em torno da mesa do orçamento e deve exigir transparência e equidade a todos os estabelecimentos de ensino que pretendam ter verbas públicas, não fazendo exigências apenas às escolas que tutela diretamente e permitindo a opacidade às que subsidia.

Um futuro ministro da Educação não deve chegar deslumbrado por sê-lo ou disponível para aceitar uma qualquer equipa de secretários de Estado definida por jogos de poder partidários. Ou tem poder para escolher quem o vai ajudar ou não serve como ministro, não passa de um diretor-geral com mais ajudas de custo.

Um futuro ministro da Educação deve ter a cortesia de ouvir os que o antecederam, mas não tem a obrigação de lhes herdar os traumas ou fantasmas. Não deve, por exemplo, continuar a pactuar com a redução e desqualificação dos serviços ministeriais com medo de “monstros” no aparelho.
Em suma, um ministro da Educação deve ter orgulho em o ser, mas não por ver o seu nome associado a mais uma “reforma estrutural” ou por ter conseguido enormes conquistas estatísticas em matéria de “sucesso”. Deve ter orgulho, isso sim, em prestar um serviço ao seu país, sendo que o país não pode estar melhor, quando as suas crianças e os seus jovens não o estão e crescem numa sociedade mais desigual e injusta, em que a Educação é considerada um encargo financeiro e não um investimento com futuro. Em que os alunos não são tratados como futuros cidadãos."


PAULO GUINOTE Professor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação 
 
 
 
 
"Pediu-me o Educare.pt uma opinião sobre a missão do próximo ministro da Educação, designadamente sobre o que ele deve fazer. Aqui fica, sob registo bem concreto, a minha opinião.

Portugal está no limiar de uma viragem que, espero bem, resulte das eleições de 4 de outubro próximo. Portugal ou se afunda e perde a pouca soberania que lhe resta ou muda de paradigmas para se regenerar. Mas não o pode fazer sem refundar o seu sistema educativo.

Há medidas imediatas que podem alterar, de um dia para o outro, a penosa vida das escolas, transformando o confronto permanente em cooperação constante e duradoira. Assim o próximo ministro da Educação tenha reflexão produzida, que lhe permita fazer rápido o que é urgente, a saber:

- Assumir, finalmente, a autonomia das escolas. O paradigma tradicional de gestão do sistema está esgotado. O poder tem que confiar nos professores e entregar-lhes a responsabilidade efetiva de gestão das suas escolas.

- Criar um departamento de desenvolvimento curricular, especializado e permanente, que substituirá a cultura assente em grupos ad hoc sempre que se operam intervenções em planos de estudo e programas.

- Redefinir toda a missão e estrutura da Inspeção-Geral da Educação e Ciência, orientando-a prioritariamente para a vertente pedagógica.

- Reavaliar os modelos de fornecimento de bens e serviços às escolas, assentes em plataformas informáticas e em concursos públicos centralizados, que prejudicam, em nome de falsas economias de escala, a dinamização das pequenas economias locais.

- Recuperar a figura tradicional de escola como unidade orgânica, com gestão própria, de modo a devolver às escolas a identidade que os agrupamentos lhes retiraram.

- Alterar o modelo de gestão das escolas, compatibilizando-o com o novo paradigma de autonomia, devolvendo-lhe a democraticidade perdida, adequando a natureza dos órgãos às realidades sociais existentes e abandonando a lógica concentradora do poder num só órgão.

- Remover drasticamente práticas e processos burocráticos inúteis, que constituem hoje a cultura organizacional vigente nas escolas portuguesas.

- Conferir aos quadros de pessoal das escolas a dimensão adequada às suas necessidades permanentes.

- Redefinir globalmente os planos de estudo e os programas disciplinares, expurgando-os da submissão a metas incumpríveis, sem sentido nem escala humana razoável.

- Diminuir as elevadas cargas curriculares atuais, desajustadas ao desenvolvimento psicológico das crianças.

- Reconduzir ao adequado o peso do Português e da Matemática, que estão hipervalorizados, em detrimento de outras disciplinas.

- Reforçar o peso curricular das Artes e das Expressões, designadamente as atividades físicas e desportivas.

- Retomar a universalização das aulas com 50 minutos de duração, reconhecendo que as aulas de 90 minutos fizeram aumentar as dificuldades para controlar os alunos que boicotam o trabalho do professor.

- Permitir que as escolas com problemas ensaiem turmas reduzidas e tenham dois professores por turma, em situações específicas.

- Reduzir o peso institucional e social dos exames nacionais e acabar com a sua aplicação nos 4.º e 6.º anos de escolaridade.

- Criar verdadeiros serviços de orientação escolar, vocacional e tutorial nas escolas, instituindo quadros de psicólogos e terapeutas.

- Dignificar o ensino profissional e interditar qualquer adoção vocacional em idade precoce.

- Atrasar a entrada no ensino básico para os 7 anos de idade. Agora que o pré-escolar se vai universalizando, é tempo de acautelar que a entrada para a “escola dos sentados” se faça com uma maturidade psicológica que contribua para a diminuição do insucesso escolar.

- Substituir o estatuto do aluno, de carácter nacional, por simples códigos de conduta, construídos dentro de cada escola como instrumentos promotores de disciplina e geradores de responsabilidade, rigor e trabalho. Naturalmente que é imperioso devolver autoridade aos professores, outorgando-lhes um estatuto de autoridade pública dentro da escola. Naturalmente que o processo disciplinar escolar tem que assumir uma natureza sumária e ser despido de garantias similares às dos processos penais.

- Diminuir a taxa de reprovações, identificando precocemente os obstáculos à aprendizagem e aceitando que os alunos têm ritmos e necessidades diferentes e que a escola precisa de mais meios, materiais e humanos, para lhes poder responder.

- Reorganizar e aumentar as respostas a crianças com necessidades educativas especiais ou oriundas de minorias étnicas, religiosas e culturais.

- Conceber um verdadeiro estatuto de carreira docente, em que os professores portugueses se revejam, que seja instrumento de desburocratização da profissão, fixador de claro referencial deontológico, gerador de estabilidade profissional e indutor de uma verdadeira autonomia responsável, de natureza pedagógica, didática e científica.

- Definir um modelo de avaliação do desempenho dos professores útil à gestão do desempenho, isto é, que identifique os obstáculos ao sucesso e se oriente para os solucionar. Que tenha muito mais peso formativo que classificador. Que se preocupe mais com a apropriação por parte dos professores dos valores que intrinsecamente geram sucesso e melhoram o desempenho, que com os instrumentos que extrinsecamente o pretendam promover.

- Reavaliar e reformular toda a legislação que regula os concursos e a contratação dos professores, visando a correção possível das injustiças acumuladas ao longo dos anos, por desrespeito sistemático do consignado no art.º 75.º da Constituição da República Portuguesa. Significa isto a aceitação de que o único indicador sensato que garante seriedade, justiça, equidade e exequibilidade a qualquer concurso é a graduação profissional dos candidatos inserta numa lista nacional, ordenada segundo ela.

- Promover uma intervenção profunda no modelo de formação inicial de professores, cuja exigência é genericamente insuficiente nos planos cultural, científico e didático.

- Retomar políticas de educação permanente, designadamente de educação da população adulta, como veículo nuclear de inclusão social e como meio para cumprir os objetivos do “Horizonte 2020”.
É minha convicção profunda que o próximo responsável pelas políticas educativas tem que assumir as intervenções enumeradas, se quiser recuperar a confiança dos professores e travar a degradação do sistema de ensino. Este elenco de medidas é politicamente incontornável e instrumento primeiro de uma reconstrução imperiosa. Mas deve ser complementado com uma ação segura de envolvimento da sociedade num debate social sobre a missão da escola de massas e sobre o significado e pertinência de alguns conceitos que a condicionam definitivamente."


SANTANA CASTILHO Professor do Ensino Superior

quinta-feira, 9 de julho de 2015

coisas da matemática... instrumentos de cálculo... no educare...!

 

no educare, em linha...

"Um ábaco pode ter várias formas e cores e remete para o contar pelos dedos. É constituído por uma moldura com bastões ou arames paralelos dispostos na vertical que correspondem às unidades, dezenas, centenas e por aí fora, nos quais estão os elementos de contagem – habitualmente bolas – que podem deslizar. Presume-se que tenha surgido no Oriente há mais de cinco séculos. Este antigo instrumento de cálculo não passou de moda. Pelo contrário. O ábaco é velhinho, mas é o centro das atenções de um programa que nasceu na Malásia em 1993 e que, neste momento, é aplicado em mais de 25 países dos cinco continentes.

A ideia do programa de desenvolvimento mental, desenhado para crianças dos 5 aos 13 anos de idade, é que o ábaco se entranhe na cabeça e os mais novos consigam fazer cálculos mentalmente sem recurso a máquinas de calcular, lápis ou papel. “Não é uma aula de Matemática. Temos muitas dinâmicas de aula para melhorar a atenção, a concentração, e estimular a criatividade e a memória visual e auditiva”, adianta Rosário González, uma das responsáveis pela implementação deste programa no nosso país. Não são aulas, mas sim momentos lúdicos em atividades extracurriculares que, no futuro, podem entrar no programa curricular de escolas que se interessem pelo modelo.

O programa Aloha Mental Arithmetic tem uma componente lúdica vincada. “O exercício com o ábaco já é um jogo. Trabalhamos as memórias e, por exemplo, recorremos a brincadeiras”, refere Rosário González. “Através do ábaco ensinamos as crianças a fazer cálculos. Trabalhamos o desenvolvimento mental com imagens de forma que visualizem mentalmente o ábaco e consigam fazer as operações, as contas, os cálculos”, acrescenta. O objetivo é, portanto, potenciar a inteligência dos alunos a partir de ferramentas básicas como o cálculo com ábaco, aritmética mental e jogos didáticos.

É um modelo com base num instrumento do passado, mas com os olhos postos no futuro. O programa ajuda a desenvolver diferentes competências que acompanham as crianças ao longo da vida ao melhorar a atenção e concentração, a orientação espacial, a memória fotográfica, a criatividade, a imaginação, a visualização. No final do programa, as crianças são capazes de fazer cálculos que envolvam até 17 algarismos sem utilizarem calculadora, nem lápis ou papel. No final, o aluno será capaz de chegar ao resultado da operação (25 + 368 + 670 - 847) x 48 : 16 + 7396 só com cálculo mental, só com ajuda do cérebro.

O ábaco é, portanto, usado na sua plenitude e o programa baseia-se muito no jogo para que a aprendizagem seja também um momento lúdico, divertido, além de interativo. E se há estudos que revelam que as crianças não aproveitam o potencial do hemisfério direito do cérebro, este modelo exercita os dois hemisférios em simultâneo para um maior rendimento da capacidade intelectual.

O Aloha Mental Arithmetic está agora em Portugal em vários centros de estudo e colégios do distrito do Porto. A estreia deste modelo aconteceu no ano letivo que agora termina e abrangeu perto de 100 crianças dessa região. Há dois ciclos definidos conforme as idades: o primeiro dos 5 aos 7 anos, o segundo dos 8 aos 13. No primeiro, os alunos aprendem os fundamentos do cálculo com o ábaco e a aritmética mental. Em dois anos e quatro níveis desenvolvem capacidades em matérias que dizem respeito a números. No segundo ciclo, desenvolve-se a prática de cálculo mental e estimula-se, ao máximo, as capacidades intelectuais. Há ainda as oficinas Aloha para quem frequenta ou não o programa. Tem quatro temas: criatividade, orientação espacial, imaginação e atenção e concentração. O super-herói John Neurón e o protagonista destes workshops que têm várias atividades na agenda como um laboratório de contos, séries visuais, labirintos, ou resolução de enigmas.

Um ano a aprender, um campeonato no final, um teste à rapidez em cálculo mental. O 1.º Campeonato Nacional de Cálculo Aloha Portugal realizou-se no Porto com mais de meia centena de alunos. As regras estavam estabelecidas. Cinco minutos, 70 operações aritméticas e um ábaco, o único instrumento permitido, além do cérebro naturalmente. Neste campeonato, não houve máquinas de calcular, nem meios tecnológicos. Apenas com as contas do ábaco, os participantes tinham de chegar aos resultados corretos de operações de cálculo algo complexas. Nesta 1.ª edição, participaram cerca de 200 pessoas, entre alunos, familiares, amigos e professores
." 

terça-feira, 28 de abril de 2015

de volta à escola... reflexões para o fim de dia...!


no educare...


"Há experiências de Escolas de Segunda Oportunidade de todo o tipo por toda a Europa. Na Roménia, os alunos recebem roupa e alimento, além da formação. Na França todas as escolas são submetidas a uma acreditação, sem a qual não funcionam. Os alunos desempregados na Alemanha são o público-alvo desta via, mas correm o risco de perder estas “segundas oportunidades”. Em Portugal, existe apenas a Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos, em São Mamede Infesta. No futuro as políticas educativas podem valer-se desta experiência.

A Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos tem em comum com as suas congéneres europeias o facto de oferecer respostas educativas que não existem nas vias mais tradicionais de ensino. Criada em 2008, tem funcionado com um modelo próprio e em articulação com a Rede Europeia de Escolas de Segunda Oportunidade [European Association of Cities, Institutions and Second Chance Schools]. Abre as portas aos jovens que abandonam a escola, provenientes de todos os municípios do Grande Porto. Anualmente, a escola conta com 70 vagas para alunos, entre os 16 e os 25 anos. “Resistimos um bocado em receber jovens antes dos 16 anos, porque achamos que até essa idade devem estar no ensino regular”, explica o mentor do projeto Luís Mesquita. 

Para cada aluno é construído um plano individual de formação que integra elementos nas áreas da certificação escolar, desenvolvimento social e pessoal, formação vocacional e artística. A escola trabalha por projetos, numa lógica de integração comunitária e de resposta às necessidades identificadas em cada ano. Funciona com apoios vindos de programas e de parceiros sociais. Por isso, é uma escola diferente, como explica o seu diretor. “Nasceu de uma iniciativa associativa e durante sete anos fizemos o nosso caminho no sentido do reconhecimento público, para sermos reconhecidos como instituição, ter os planos de estudo acreditados e capacidade de certificação.”

Em outubro de 2014, a Rede Europeia de Escolas de Segunda Oportunidade esteve reunida em Matosinhos e alguns dos seus membros trouxeram exemplos de como a educação pode voltar a cativar quem se desilude com os estudos. O modelo está bastante difundido, “mesmo em países com sistemas educativos muito avançados, como a Dinamarca e a Suécia”, constata Luís Mesquita. “Há um público muito numeroso para as escolas de segunda oportunidade, não só ao nível de cada país, mas sim de determinadas regiões.” 

No Norte da Europa os sistemas educativos enfrentam desafios ligados à multiculturalidade, às populações migrantes e à integração de pessoas com deficiências; no Sul, as escolas estão no epicentro de problemas ligados à exclusão social, à pobreza e inserção de minorias. Subjacente a todos estes contextos, sublinha o diretor da escola portuguesa, está “a ideia de que um sistema único de educação não consegue responder a todas as necessidades dos aprendentes”. "  


pode ler o resto do artigo... aqui.


a escola referida pode ser auscultada... aqui.

terça-feira, 11 de março de 2014

“complementaridade entre todos os recursos pedagógicos é a chave do sucesso educativo”... no educare...!

"Adalberto Dias de Carvalho, investigador do Observatório dos Recursos Educativos, refere que os computadores não podem subalternizar as potencialidades formativas da relação interpessoal direta. 

O Observatório dos Recursos Educativos (ORE) fez um balanço de recentes investigações sobre a utilização criteriosa dos recursos digitais em contextos educativos. A complementaridade entre os recursos digitais e os recursos educativos tradicionais - como o uso do lápis, da esferográfica, ou de manuais e livros impressos - não deve ser esquecida num mundo cada vez mais tecnológico. Os recursos digitais exercem um grande fascínio nos alunos e a sua utilização deve ser estimulada na sala de aula. Mas Adalberto Dias de Carvalho, professor catedrático e investigador do ORE, avisa que os professores têm de estar preparados para que as potencialidades educativas não sejam desperdiçadas ou para que não haja exageros na hora de ligar o botão. Deve haver regras nas salas de aula. Como, por exemplo, não desviar a utilização do computador para outros assuntos que não façam parte da lição. O investigador afirma, por outro lado, que é importante “combater a sensação de autossuficiência que os alunos poderão sentir, levando-os a secundarizar a observação das realidades que os rodeiam e em que vivem”. “O 'excesso' de informação pode também ter efeitos contraproducentes”, comenta. O tema continua a ser investigado pelo ORE.

EDUCARE.PT: É consensual para quem estuda a utilização de recursos digitais em contextos educativos que os computadores portáteis, os tablets e outros equipamentos homólogos não podem ser ignorados e têm benefícios. O rápido acesso à informação será a grande vantagem destes equipamentos? 

Adalberto Dias de Carvalho (ADC): Com certeza que a rapidez, a par da vasta informação a que se tem acesso de uma forma extremamente eficaz através dos computadores e de outros recursos similares, é atraente. Acontece, porém, que o “excesso” de informação pode também ter efeitos contraproducentes: assim, não só é preciso saber procurar essa informação como igualmente validá-la e tratá-la. Ora, tal exige um acompanhamento pedagógico muito próximo e sistemático por parte dos professores e dos educadores em geral. Na escola, em casa e atualmente em todos os lugares e ocasiões.

E: Poderá haver uma relação direta entre o aumento da motivação dos alunos e o recurso às novas tecnologias na sala de aula?
 
ADC: É flagrante que os recursos digitais, não só pela razões que referi anteriormente como de igual modo pelo fascínio que exercem as imagens que veiculam, pela constante inovação tecnológica e pela sensação de autonomia que suscitam, detêm um enorme poder de atração que deve ser positivamente explorado.

O risco é o de, se se perder o controlo, poderem acarretar uma fixação quase obsessiva que tenda a levar, nomeadamente as crianças e os jovens, a afastarem-se da restante vida do quotidiano e da própria socialização em contexto real. Em sala de aula, importa ainda ter presente que, enquanto utensílios didáticos que são, não podem subalternizar as potencialidades formativas da relação interpessoal direta.

E: Um estudo realizado no Canadá revela que em apenas 10 anos a taxa de abandono escolar passou de 42% para 22%. Os autores da pesquisa suspeitam que a distribuição, por parte da tutela, de computadores portáteis pelos alunos possa estar na origem dessa diminuição. Como analisa estes dados?

ADC: Trata-se, em qualquer das circunstâncias, de taxas de abandono escolar elevadíssimas! Acredito que a distribuição de computadores portáteis tenha sido um dos fatores para o decréscimo dessas taxas no Canadá, mas certamente que não foi o único. Seria ainda interessante sabermos se esse decréscimo foi sempre progressivo, se estabilizou ou se, passado o efeito da novidade, não se registaram retrocessos. Teríamos ainda de apurar que tipo e nível de aprendizagens ou de competências se verificaram... Seria igualmente interessante compararmos com o que se terá passado no nosso país com a distribuição massiva dos “Magalhães”.

E: Há indicações de que o rendimento em termos cognitivos do contacto com esses recursos tecnológicos parece ser menor quando comparado com dispositivos mais tradicionais, como a simples impressão em papel. Fala-se nos computadores, mas sublinha-se que o lápis, a esferográfica e o papel não podem desaparecer das salas de aula. Há riscos de isso acontecer?
 
ADC: Claro que entramos aqui de uma maneira ou de outra no domínio da futurologia. Acontece que o debate sobre o futuro do papel e do lápis tem já algumas décadas em que ciclicamente irrompem e esmorecem os vaticínios ou profecias acerca do seu desaparecimento. Tudo desaparecerá um dia, incluindo certamente os computadores... Temos, isso sim, de ser aqui cautelosos nos juízos e nas tentações fúteis de vanguardismo.

O que sabemos com segurança é que, a par das evidentes e imprescindíveis vantagens do universo das tecnologias do virtual, há aprendizagens que não podem ignorar as características únicas dos livros e demais materiais em papel, para além do carácter sensorial específico do seu próprio manuseamento. De facto, conforme consta de relatórios científicos internacionais compilados no estudo do ORE, por exemplo a apreensão de conteúdos de textos longos ocorre com um índice mais elevado de sucesso a partir do uso de textos impressos em papel, sendo que tal não tem a ver nem com níveis etários, nem com hábitos de leitura anteriores.

E: Os estudos recentes revelam que ler em papel é, em termos de desempenho cognitivo, mais rentável do que a leitura em formato digital. Os professores portugueses têm essa perceção?
 
ADC: Na verdade, os computadores, designadamente na sala de aula, podem provocar distrações grandes nos seus utilizadores diretos - sendo isso mais flagrante nas crianças - como nos colegas que se encontram ao seu lado. Ler uma história por um livro em papel tem frequentemente um efeito mais repousante, sobretudo se for na hora de adormecimento de uma criança, do que o que acontece, em sentido inverso, por efeito da luminosidade dos tablets.

É evidente ainda que o acesso sempre iminente a outros elementos que o computador proporciona implica o uso de uma disciplina e de uma determinação em que as crianças têm naturalmente mais fragilidades.

A utilização de recursos digitais na sala de aula, que deve ser estimulada, tem contudo de ser criteriosamente explorada, como tudo o que são recursos pedagógicos. Mas, para isso, antes de mais, os professores têm de estar preparados para o efeito sob pena de haver ou desperdícios de potencialidades educativas ou um uso desordenado das mesmas por excesso, por defeito ou ainda por pura e simples inadequação às diversas situações concretas de aprendizagem. A complementaridade entre todos os recursos pedagógicos disponíveis é, com certeza, a chave do sucesso educativo.

E: Os professores devem estabelecer regras nas salas de aula para a utilização desses recursos? Qual o caminho a seguir para uma utilização didaticamente cuidada?
 
ADC: Em sala de aula - o que terá também reflexos em toda a vida das crianças e dos jovens - é imprescindível a existência de regras de que os alunos devem ter conhecimento. Um exemplo simples: os alunos, de uma forma geral, não poderão desviar a utilização do computador para assuntos diversos dos que estão a ser abordados, o que é para eles sempre uma tentação precisamente pela enorme facilidade e rapidez de acesso.

Há, com certeza, desde logo, novas formas de trabalho autónomo dos alunos pelo acesso direto a informações, documentários, debates, etc., antes inacessíveis. Há igualmente a possibilidade de explorar nomeadamente as possibilidades de contacto com crianças e jovens de todo o mundo via Skype. Mas importa combater a sensação de autossuficiência que os alunos poderão assim sentir, levando-os a secundarizar a observação das realidades que os rodeiam e em que vivem mas que, de um modo ou de outro, acabarão por os surpreender, inclusive pelo seu realismo.

E: Na Coreia do Sul fala-se já numa “demência digital” em adolescentes que afeta a memória e a capacidade de concentração. Será este um caminho sem retorno?
 
ADC: É verdade que na Coreia do Sul, potência das tecnologias virtuais, ao mesmo tempo que o governo aposta na implantação plena dessas tecnologias nas escolas, vários estudos de cientistas do mesmo país alertam para os riscos de uma utilização obsessiva, incluindo o das perturbações demenciais. Daí a necessidade de se reforçar o papel educativo e preventivo das escolas nestes domínios, habituando as crianças, desde cedo, a uma utilização diversificada e adequada das potencialidades quer dos computadores quer dos livros e outros materiais em papel. "
“Complementaridade entre todos os recursos pedagógicos é a chave do sucesso educativo” » Educare - O Portal de Educação

sábado, 4 de janeiro de 2014

coisas [da educação]... 'tentaram quebrar a espinha dorsal aos docentes?'... de joão ruivo...!




"No meu livro “O Desencanto dos Professores”, reuni um conjunto de artigos que escrevi numa conjuntura que considero das mais hostis para os profissionais da educação em Portugal. 

Vai levar tempo para erguer, acima dos tornozelos, a autoestima dos professores, para recuperar a sua imagem social, e para chamar novamente à profissão os melhores e os mais capazes. As perdas são, em tempo, custo e envolvimento de recursos humanos, incalculáveis. O tempo, a seu tempo, o dirá. 

O pior que pode acontecer a um povo é perder a sua memória coletiva. Vale a pena, então, lembrar... 

A ideia lançada, inicial e subliminarmente, de que os professores eram uns “madraços”, que acumulavam incontáveis faltas ao serviço, que gozavam férias e mordomias só permitidas a grupos privilegiados, e que desperdiçavam os enormes meios financeiros com eles despendidos, constituiu a maior ofensa, a mais inqualificável infâmia perpetrada perante uma classe altruísta, que todos os dias, no seu posto de trabalho, deu o seu melhor pelo aperfeiçoamento das qualificações dos portugueses e pelo desenvolvimento social, económico e cultural do seu país. 

Não é novidade. O cenário revelava-se propício e constituiu a porta aberta para o que se lhe seguiu: alteração e aumento compulsivo de funções e tarefas cometidas aos docentes, colocando-os na vertigem da desprofissionalização; divisão da classe, através de uma estratificação artificial da carreira; implementação de processos de avaliação de desempenho administrativos, burocráticos e estigmatizantes; redução artificial de cargas horárias e alterações aos planos curriculares ao sabor das circunstâncias, provocando-se, desnecessariamente, o maior desemprego conhecido, até hoje, na classe; introdução de novas tecnologias na escola, sem formação antecipada dos intervenientes no ato educativo, no que se revelou ser uma insensatez face ao esbanjamento de dinheiros públicos em negócios e parcerias com empresas privadas… 

Desde então, a escola tendeu para um espaço de desencantos e desencontros, onde os profissionais da educação começaram a ser chamados para refletirem pouco sobre o ato educativo e, em substituição, a reunirem muito em redor da aplicação de normativos e procedimentos de natureza burocrático-administrativa. Neste quadro, milhares de docentes preferiram solicitar a sua aposentação antecipada, com graves penalizações nas suas pensões, no que constituiu uma desnecessária sangria de quadros qualificados e experientes. Ou seja: ao abandono precoce das escolas por parte dos alunos, temos agora que acrescentar o abandono precoce da profissão por parte dos professores. 

E isto tudo num país que ainda precisa de muita escola e de mais e melhor qualificação dos seus cidadãos. Que desperdício inqualificável formar um docente para o deixar partir para uma aposentação precoce, ou deixá-lo desocupado, numa etapa da sua carreira em que revelava mais controlo, segurança e maturidade…. 

Por todas estas razões, o descontentamento trouxe à rua milhares de professores, proliferaram os movimentos de docentes à margem das organizações sindicais tradicionais, e as redes sociais e os blogues de docentes constituíram o elo de ligação de um grupo profissional que, apesar de tudo, recusou cruzar os braços e preferiu levantar a voz da indignação e envolver-se na defesa de uma escola pública onde seja gratificante ensinar e compensatório aprender. 

Hoje, apesar da adversa conjuntura em que ainda vive a escola portuguesa, estamos em crer que se alguém quis quebrar a espinha dorsal aos docentes não o conseguiu. 

E, em boa verdade, também não houve uma quebra significativa da confiança que a sociedade deposita nos professores e na instituição escolar. Diríamos mesmo que a escola continua a ser a única organização pública onde as famílias entregam, diariamente, os seus filhos e partem tranquilas para o trabalho, sabendo que crianças e jovens ficam seguros e bem entregues. 

Mas será que, após este claustrofóbico período, a tutela pode afirmar que temos mais escola e melhor educação? 

Infelizmente, a resposta é: não! Nos tempos que ainda correm, as escolas fecharam-se num clima organizacional sufocante, os alunos não melhoraram globalmente, de facto, os seus resultados escolares, os professores não aperfeiçoaram as suas competências profissionais e a escola não se transformou numa verdadeira comunidade educativa. 

Ou seja: agora temos menos escola e menos escolas, temos menos educação e menos professores. Entretanto, nesta encruzilhada, o país ganhou a maior taxa de desemprego alguma vez vista na profissão docente, e um medíocre sistema de formação de professores, incapaz de atrair os candidatos mais capazes e mais competentes. 

Mas porque a educação e os professores são semente e pão de todos os futuros, estamos em crer que, uma vez mais, os docentes portugueses irão sabiamente ultrapassar este difícil instante da sua longa história profissional, e recuperarão o valor e a energia da sua profissionalidade, para bem do desenvolvimento social, cultural e económico do nosso país."

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

educação diferenciada (?) [reflectindo]... “a separação reforça a autoestima e desenvolve mais livremente as capacidades”... no educare...!

"María Calvo Charro é considerada uma das maiores especialistas em educação diferenciada a nível internacional. Doutorada em Direito Administrativo, professora titular na Universidade Carlos III de Madrid, dedica-se à investigação sobretudo em Espanha e nos Estados Unidos. Escreveu várias obras, entre elas Educar Rapazes e Educar Raparigas, livro editado em Portugal pela Associação Europeia de Educação Diferenciada. Uma obra que classifica de guia para uma melhor educação dos filhos e dos alunos com base nas diferenças entre os sexos.

"Os métodos de ensino e as técnicas pedagógicas válidas para os rapazes podem provocar efeitos negativos nas raparigas. E vice-versa. Os sistemas que se revelam um êxito com as raparigas podem ser um desastre, pedagogicamente falando, com os rapazes", afirma nesta entrevista ao EDUCARE.PT.

EDUCARE.PT: Separar rapazes e raparigas em idade escolar é um assunto controverso. Quais as vantagens desta separação num momento de aprendizagens, de absorver e digerir o mundo?

María Calvo Charro (MCC): Rapazes e raparigas beneficiam da separação porque dessa forma respeitam-se os ritmos biológicos e de aprendizagem, reforça-se a autoestima e as capacidades desenvolvem-se mais livremente. Sem a presença do sexo oposto, sentem-se mais livres para expressar as suas emoções e contar as suas experiências pessoais. Libertam-se de estereótipos. Todas as matérias merecem a mesma consideração, tanto a área científica como a humanística. Nas escolas de um único sexo, todos são capazes de qualquer coisa, não há papéis atribuídos e atrevem-se, de igual forma, com a Matemática, com as línguas, com o futebol, com a dança...

O gosto pela aprendizagem é reforçado quando os conteúdos educativos se enquadram em programas que têm em conta as preferências naturais, resultado da diferente configuração do cérebro masculino e feminino. Neste ambiente, os seus dotes de liderança expressam-se livremente, não receiam fazer perguntas ou intervir na turma sem medo do ridículo. Libertam-se de complexos e de preocupações de parecerem interessantes ao sexo oposto. Preocupam-se mais com o que está no quadro do que com o aspeto físico. Apostam na vertente académica. A sua autoestima baseia-se em fatores como as amizades, o bom relacionamento com os pais e o desempenho académico. São eles próprios e estão destinados a tornarem-se líderes da sociedade do futuro.

A educação diferenciada oferece aos alunos um espaço livre de pressões externas que os ajuda a amadurecer com tranquilidade. Nas aulas diferenciadas, durante os complexos anos da adolescência, rapazes e raparigas podem compreender mais facilmente o papel do seu próprio sexo. O equilíbrio emocional da criança não vai ser afetado por estar algumas horas do dia separada do sexo oposto, com quem se pode relacionar sem problemas ou obstáculos fora do horário escolar ou aos fins de semana.

E: No seu livro, sublinha que eles retêm melhor os dados objetivos e elas fixam com maior facilidade dados subjetivos. O sexo é, de facto, relevante quando se aprende?

MCC: Claro. Atualmente, muitos rapazes e raparigas sentem-se incompreendidos em algumas escolas que são incapazes de dar um tratamento adequado às suas particularidades comportamentais, cognitivas e evolutivas. A falta de atenção ou desprezo por determinadas atitudes masculinas e femininas provocam frustração ou deceção em muitos alunos e alunas e gera discriminação. Ambos os sexos são discriminados quando o sistema educativo é incapaz de apreciar as diferenças sexuais na aprendizagem, criando assim obstáculos à plena realização pessoal.

A educação diferenciada é um método de ensino capaz de superar o mito da neutralidade sexual, difundido nas salas de aula e fora delas, e que, independentemente de ideologias, crenças ou políticas, dá o tratamento adequado a rapazes e raparigas atendendo com detalhe as suas especificidades, o que permite alcançar os objetivos educativos e culturais.

Contrariamente à ideia de que toda a diferença entre sexos é cultural, uma construção social que convém eliminar, este modelo educativo parte do conceito de diversidade sexual como um elemento essencial da natureza humana que faz dos homens e das mulheres diferentes mas, ao mesmo tempo, complementares. A sexualidade é uma dimensão essencial da pessoa. Por conseguinte, o direito ao pleno desenvolvimento da personalidade implica o direito ao pleno desenvolvimento da essência feminina e masculina que constitui cada ser humano, homem ou mulher.

Partindo da igualdade absoluta quanto a metas, objetivos, meios e qualidade de ensino, a educação diferenciada aplica métodos adequados às especificidades de cada sexo - consciente de que através da educação e do exercício do livre-arbítrio qualquer mulher pode desenvolver o talento do homem e vice-versa. Um e outro esforçam-se mais em determinadas tarefas e aprendizagens de acordo com as suas capacidades biológicas, mas com a correta orientação dos professores, empenho e vontade de superação, ambos os sexos podem alcançar os objetivos a que se propõem
."

para ler o resto da entrevista... siga a ligação abaixo...   

sábado, 8 de dezembro de 2012

leitura... da educação... 'as tecnologias sem o professor não funcionam'... de andreia lobo... via educare...!

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"Com mais de 30 anos a dar aulas, confidencia à assistência: "A conclusão a que este modesto professor chegou é que nunca encontrou soluções completas para problemas que continuam a existir. Às vezes há uma ajuda. Mas as tecnologias sem o professor não funcionam". O público concorda, ouvem-se fortes aplausos."

para ler... aqui.