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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

rip...





Uma mulher não chora, terá pensado Oriana nesse final de tarde de outubro? Aquela não era a primeira vez em que se via numa situação difícil. Os tiros do Batalhão Olímpia, o grupo paramilitar que disparava sobre os estudantes na Praça das Três Culturas de Tlatelolco, no centro histórico da Cidade do México, eram bem reais mas, que diabo!, há um ano que ela sabia no terreno o que era uma guerra. Já estivera várias vezes no Vietname, sempre com a mesma mochila onde escrevera que o seu corpo deveria ser entregue ao embaixador de Itália em caso de KIA (killed in action, morta em combate).

“Uma rapariga não chora, não deve chorar”, dissera-lhe o pai depois de lhe pregar uma chapada, tinha ela 14 anos e pela primeira vez tremia de medo durante um bombardeamento dos Aliados na II Guerra Mundial, em Florença. “Chorava de uma forma silenciosa, composta, sem gemidos, sem soluços, mas ele deu por isso”, conta no livro A Raiva e o Orgulho, o seu último, escrito no rescaldo do 11 de Setembro. Nunca mais voltara a derramar lágrimas em público; não iria fazê-lo agora, embora tivesse a sensação de estar frente a um pelotão de fuzilamento.

“Na guerra, às vezes há uma hipótese, mas ali não havia nenhuma”, recorda a jornalista num outro livro, Nada e Assim Seja, que escreveu sobre a guerra do Vietname. “[Em Tlatelolco], encostaram-nos a uma parede, não podíamos mexer-nos; mais tarde aparecia-me com frequência o pesadelo de um escorpião rodeado de chamas.”

Oriana viajara para a Cidade do México especificamente para cobrir os protestos dos estudantes universitários. Naquela tarde de 2 de outubro de 1968, em vésperas dos Jogos Olímpicos, refugiara-se com um grupo de jovens manifestantes no edifício Chihuahua, de imediato rodeado pelos paramilitares, o exército e a polícia. Um deles, Manuel Gómez Muñoz, então representante do Conservatório Nacional no Conselho Nacional de Greve, que falava italiano porque estudava canto lírico, viu-a ser alvejada duas vezes no momento em que os obrigaram a trocar de sala. “A primeira coisa que me perguntou foi se tinha sido nos rins, se tivesse sido estaria acabada.”

Não tinha. A jornalista ainda seria arrastada sem piedade e roubada de todos os seus pertences, antes de ser levada para o hospital. Alguém romancearia que chegou a ser dada como morta e deixada numa morgue improvisada – não é verdade. Certo é que nunca mais voltou ao México depois desta trágica tarde que ficou conhecida como o Massacre de Tlatelolco, mas mais por ter ficado com azar ao país, diria, do que por medo.

Bonita, petite, de olhos azuis-acinzentados enfatizados pelo eyeliner, Oriana Fallaci era menos frágil do que aparentava. A voz rouca dos cigarros e o sotaque sexy ajudavam a construir essa primeira impressão que se desvanecia ao desafiar – destemida – os todo-poderosos, uma e outra vez apanhados de surpresa. As suas entrevistas a políticos e governantes eram campos de batalha, com os entrevistados a acabarem invariavelmente numa imaginária coleção de peles. Para ela, o poder era desumano, um fenómeno detestável, e por isso tudo fazia para o desmascarar.




Uma espécie de bruxa

O rol de duas décadas de entrevistas e o seu método perturbador impressionam. Ao coronel Muammar Kadhafi, perguntou, sem rodeios: “Sabe que é pouco amado?” Com Lech Walesa começou cheia de ironia: “Já alguém lhe disse que é parecido com Estaline? Fisicamente, quero dizer.” Importunou Ariel Sharon com o significado da palavra “terrorista”, acusando-o de ele próprio ter sido um. E, finalmente, frente a Makarios III, então Presidente do Chipre e patriarca da Igreja Ortodoxa Grega, quis logo saber se ele era um apaixonado por mulheres (sendo que o seu silêncio acabou a comprometê-lo).

Escreva-se ainda que Henry Kissinger repetiu inúmeras vezes ter tido com ela a conversa “mais desastrosa” da sua vida (as suas relações com Nixon esfriariam em consequência dela), mas que foi a entrevista ao ayatollah Khomeini a fazer dela uma lenda, já se vai ver porquê.

Antes de qualquer entrevista, preparava-se obsessivamente porque as via como “um exame mútuo, um teste aos nervos”, lê-se na biografia Oriana Fallaci: The Journalist, the Agitator, the Legend, de Cristina De Stefano. “Nas minhas entrevistas, não ajo apenas com as minhas opiniões [era uma mulher de esquerda], mas também com as minhas emoções; todas as minhas entrevistas são dramas”, explicaria. “Ouço realmente as pessoas e tenho instinto, sou uma espécie de bruxa.”

Quanto às perguntas, quase sempre usadas para provocar o seu interlocutor, justificava-se assim: “São brutais porque a procura da verdade é uma espécie de cirurgia, e a cirurgia dói. A maioria dos meus colegas não tem a coragem de colocar as perguntas certas.” Ser jornalista, na sua opinião, era sinónimo de “ser desobediente, estar na oposição”.

“La Fallaci”, como era chamada por muitos, era uma mulher corajosa e a genética poderá explicar em parte essa sua característica. O pai, Edoardo Fallaci, um marceneiro antifascista, seria preso e torturado em 1944, por causa de um depósito de armas recebidas dos americanos. A mãe, Tosca Cantini, órfã de um anarquista, havia de o encontrar ao fim de dois dias, na Villa Triste, conhecida como “a casa da tortura”, enfrentando o sinistro major Carità para o tirar de lá vivo. “Senhora, não tenho tempo para perder. O seu marido será executado amanhã de manhã, às seis. Pode vestir-se de preto”, aconselhou o “Sr. Caridade”.

“A minha mãe levantou-se e disse-lhe: ‘Mario Carità, amanhã de manhã vou vestir-me de preto, como disse, mas se o senhor nasceu do ventre de uma mulher, diga à sua mãe para fazer o mesmo porque o seu dia vai chegar muito em breve’”, contou Oriana à jornalista americana Margaret Talbot, a quem deu a sua última entrevista para a New Yorker, cinco meses antes de morrer, a 15 de setembro de 2006.

Edoardo seria poupado, passando mais um tempo na cadeia. A mãe de Oriana abortaria naquele mesmo dia, à saída da Villa Triste. “Chegou a nossa casa, branca como a neve, e disse:‘O pai vai ser executado amanhã e a Elena (o nome que já tinha dado à futura criança) morreu’. Sem lágrimas.”

Antes deste episódio, já a mais velha das quatro manas Fallaci percorria de bicicleta a cidade e os campos vizinhos, desempenhando tarefas clandestinas para a resistência antifascista. Tinha 14 anos, respondia pelo nome de guerra “Emilia” e usava umas trancinhas que lhe davam um ar inocente; ninguém desconfiaria que levava granadas de mão escondidas em alfaces no cesto da sua bicicleta.

Leitora ávida, aliás como a sua mãe, tinha a sorte de dormir no “quarto dos livros”. Uma noite reparou numa senhora que a olhava da capa de um calhamaço, mesmo por cima do seu divã minúsculo, e pegou-lhe, curiosa. Tosca ainda lhe disse “Que vergonha, isso não é coisa para crianças”, mas acabou a incentivá-la: “Lê, lê, está tudo bem.” Eram As Mil e Uma Noites que se tornaram os seus contos de fadas, abrindo caminho pouco depois para as Aventuras de Jack London.

Ótima estudante, aos 17 anos já colaborava com o jornal Il Mattino dell’Italia Centrale, seguindo os passos do seu tio Bruno. Com o primeiro salário pôde inscrever-se na Faculdade de Medicina, mas rapidamente teve de largar os estudos, difíceis de conciliar com a escrita, madrugada dentro, de artigos sobre crimes e desgraças em geral.

Começava pela “cronaca nera” (notícias de crime), o que explica a sua urgência de chegar antes dos outros às notícias, confessou mais tarde. Seguir-se-iam as crónicas de tribunal e só depois entrou pelos temas do dia a dia, que lhe abriram caminho para o mundo da moda e do espetáculo. Mas, antes ainda, um artigo sobre o enterro de um comunista que a Igreja se recusou a fazer chamou a atenção dos editores do L’Europeo.

“Estúpido trapo medieval”

Foi a trabalhar para esse semanário que, no início dos anos 50, se mudou para Roma, onde a dolce vita atingira o seu esplendor, a Cinecittà fervilhava e quase todas as estrelas de cinema estavam ali à mão para serem entrevistadas. Quem diria que seria a fazer perguntas a Gina Lollobrigida que Oriana iria iniciar a sua carreira de grande entrevistadora? “Não acho que você seja tão estúpida como as pessoas dizem” – assim apanhou a atriz de surpresa.

O falso pudor não era com ela, percebeu-se imediatamente. E a técnica para levar as suas “vítimas” a revelarem aquilo que gostariam de esconder, sobretudo o lado obscuro das suas mentes, logo aplicada. Os rascunhos das dezenas de entrevistas que fez ao longo das mais de duas décadas quase só dedicadas a esta arte evidenciam que nada era deixado ao acaso – as suas afirmações, muitas vezes transvestidas de perguntas, tinham como objetivo levar os seus entrevistados a irem baixando a guarda até à estocada final.

Chamada a Milão, onde ficava a sede do jornal, Oriana desatou rapidamente a correr o mundo. Em Los Angeles, teve mais umas conversas memoráveis que compilou no seu primeiro livro, I Sette Peccati di Hollywood. Depois começou a entrevistar os “donos disto tudo”, aceitando também ser enviada especial e repórter de guerra, e publicando livro atrás de livro. No final dos anos 70, investiu finalmente na ficção (o fim que sempre tinha querido alcançar através do jornalismo), com êxito.

Será, porém, pelas suas entrevistas que ficará para a História – e não apenas a do jornalismo. Entrevistas de antologia como aquela que fez a ayatollah Khomeini, um político a sério “e não um fantoche como eram Arafat ou Kadhafi”, dirá, mas que ela havia de culpar pelo fanatismo islâmico no mundo. “Uma pena que a sua mãe, quando estava grávida, não tenha escolhido abortar”, comentou na referida entrevista a Talbot.

O encontro dos dois merece ser recordado em detalhe, até ao momento em que o imã abriu um sorriso e por fim não conseguiu conter uma gargalhada. Estávamos em setembro de 1979, logo após o eclodir da revolução iraniana, quando Oriana viajou até à cidade santa de Qom para entrevistar o homem que declarara o Irão um estado islâmico. Ao fim de dez dias de espera e de muita insistência, chegou finalmente o “sim” do imã, com uma condição: ela teria de se apresentar descalça e envolvida num chador semelhante àquele que todas as mulheres iranianas eram obrigadas a usar fora de casa.

Oriana começaria a entrevista logo ao ataque, como era seu hábito. Uma após outra, disparou perguntas sobre o encerramento de jornais da oposição, o tratamento dado à minoria curda iraniana e as execuções sumárias levadas a cabo pelo novo regime, na verdade acusações a que o Khomeini ia respondendo com metáforas e evasivas. Até que dirigiu a sua indignação para os cada vez mais diminutos direitos das mulheres, afinal também elas obreiras do novíssimo estado islâmico. Por exemplo, por que razão tinham as iranianas agora de andar “escondidas como feijões debaixo de uma roupa tão incómoda e absurda” como era o chador, que nem as deixava moverem-se livremente quanto mais trabalhar?
Aqui, Khomeini pôs as unhas de fora, virando-as diretamente para a italiana: essas mulheres que tinham andado a lutar ao lado dos homens, contribuindo para a revolução, usavam todas “vestuário islâmico”, não eram como Fallaci que andava “de cabeça descoberta por aí, arrastando atrás de si um comboio de homens”; dessa maneira não teriam sido úteis porque haveriam de “perturbar até as outras mulheres”.

Quase 40 anos depois, imaginamo-la a ranger os dentes antes de dizer a frase “Não é verdade, imã”, ganhando assim tempo para puxar atrás a culatra e descarregar com a segregação a que eram votadas as iranianas desde a revolução: “Não podem estudar na universidade com os homens, nem trabalhar com os homens, nem tomar banho no mar ou na piscina com os homens. Devem mergulhar à parte com o chador. A propósito”, perguntou, irónica, “como se faz para nadar com o chador?”

Faça-se aqui um parêntesis para lamentar a inexistência de uma filmagem desta entrevista, se não fosse pedir muito, realizada com duas câmaras que captassem a tensão, os olhares, a linguagem corporal de ambos. Só as perguntas e respostas (que podemos ler em italiano no site oriana-fallaci.com e em português no livro Entrevista Com a História) nos deixam rever a rapidez com que Khomeini presumiu erradamente que a calaria, ao responder: “Nada disto lhe diz respeito. Os nossos costumes não lhe dizem respeito. Se o vestuário islâmico lhe desagrada, não é obrigada a usá-lo. Porque ele é para as mulheres jovens e respeitáveis.” Oriana não perdeu tempo a mostrar-se ofendida. Viu ali uma oportunidade para se afirmar e não hesitou. “Muito gentil”, escarneceu. “E, visto que me diz isso, tiro já este estúpido trapo medieval”, avisou, arrancando o chador.

Nesse momento – contaria a Talbot –, Khomeini mostrou-se ofendido. “Levantou-se como um gato, ágil como um gato, uma agilidade que nunca esperaria num homem tão velho como ele era, e deixou-me. Tive de esperar 24 horas (ou 48?) para o ver de novo e terminar a entrevista.”

Dessa segunda vez, um dos filhos de Khomeini, Ahmed, aconselhou-a a nem sequer usar a palavra “chador”. Mas Oriana voltou ao tema mal ligou o gravador. “Primeiro, ele olhou para mim espantado, depois os seus lábios esboçaram um sorriso, depois sorriu a sério e finalmente riu-se.”

Quando a entrevista acabou, Ahmed sussurrou-lhe: ‘‘Acredite, nunca vi o meu pai rir. Acho que você foi a única pessoa no mundo que o fez rir.”

Oriana, “o faquir”

Consta que Khomeini aceitara encontrar-se com Fallaci porque a entrevista que ela fizera no início da década a Reza Pahlevi causara grandes danos à imagem do então Xá do Irão. Mas a italiana gostava tanto de um como do outro, descobriria rapidamente o imã. Quando este lhe disse que a revolução que liderava era movida pelo amor, ela retorquiu: “Amor ou fascismo? A mim parece-me fanatismo, do mais perigoso tipo: do tipo fascista.”

Muitos anos depois, instada a escrever sobre o 11 de Setembro, iria voltar à ideia de que o fundamentalismo islâmico é o renascimento do fascismo contra o qual lutara. O seu artigo de opinião, inflamado, seria tão mal recebido como tinha sido décadas antes a sua posição contra o aborto. Embora muito ligada à família, Oriana deixou sempre para segundo plano a sua vida pessoal, nunca se recompondo do facto de ter sofrido um aborto espontâneo.

Nada ternurenta, mas muito apaixonada, teve relações curtas com alguns camaradas jornalistas, que muitas vezes terminavam com ela a deixar de lhes falar. “[Enviava-os] para a Sibéria das minhas emoções”, dizia.

O grande amor da sua vida foi Alexandros (“Alekos”) Panagoulis, um político e poeta grego que se opôs ativamente à junta militar, a quem Oriana dedicou o livro Un Uomo. Conhecido na resistência como O Invencível, morreu em circunstâncias estranhas, num acidente, em 1976. O último romance da jornalista seria com Paolo Nespoli, um soldado italiano quase trinta anos mais novo, que sonhava ser astronauta. Em 2007, quando se preparava para entrar na Estação Espacial Internacional, ele agradeceu-lhe publicamente por ter sido a mulher que tornara possível alcançar esse objetivo.

Oriana tinha morrido um ano antes, na sua amada Florença, de cancro do pulmão, um diagnóstico que recebera no final dos anos 90. A morar há muito tempo em Nova Iorque, onde ainda exclamava amiúde “Mamma mia!”, viajou para Itália de avião privado porque nenhuma companhia aérea aceitou levá-la. Na casa de repouso Santa Chiara di Firenze, onde se mostraria estoica até fechar os olhos, aos 77 anos, chamavam-lhe “o faquir”. Pouco depois, ganhava uma entrada na Enciclopédia Britânica e, sobretudo – espera-se – nos cursos de Jornalismo. Consta que também bordava e cozinhava muito bem, mas dessas suas qualidades não reza a História.



na visão online...

quinta-feira, 24 de maio de 2018

património... para quem se interessar pelo assunto, divulgo...!

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quarta-feira, 2 de maio de 2018

mais uma publicação com interesse...

mac pero capa  _
MESTRE PERO | MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGAApresentação do 1º número da colecção
por Paulo Pereira, 4 Maio 2018, 18h00

Individualizando alguns dos mais destacados autores de cada tempo, responsáveis pela produção artística de matriz cristã, a colecção Mestres da Arte Cristã oferece ao leitor uma perspectiva integrada do património cultural português, da idade média à contemporaneidade, nas áreas da arquitectura, pintura, escultura e artes decorativas. Divulgando obras notáveis da arte nacional, mas desvendando também um significativo conjunto de realizações inéditas, aposta no rigor de uma metodologia actualizada, com a colaboração dos mais avalizados especialistas.
Mestre Pero (c. 1300-1350), a que se dedica o primeiro número desta colecção, representa um momento de ruptura na arte portuguesa, uma revolução no panorama da escultura medieval. Ao serviço da rainha Santa Isabel, agradou a uma clientela vasta e prestigiada, como os arcebispos de Braga e de Évora, uma princesa bizantina, nobres e muitos outros encomendadores. Com este livro, da autoria de Carla Varela Fernandes, a obra deste importante escultor é tratada como um todo, arriscando-se ainda um provável itinerário artístico, entre França e vários locais da Península Ibérica.
Mestres da Arte Cristã é um projecto editorial do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, desenvolvido em parceria com a Direcção-Geral do Património Cultural.

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sábado, 28 de outubro de 2017

para reler... gonçalo ribeiro telles em 2003...!




Gonçalo Ribeiro Telles: Esta entrevista tem 14 anos mas podia ter sido dada hoje





                    

 

Nos primeiros 15 dias de agosto de 2003 arderam cerca de 300 mil hectares no nosso País. Passaram 14 anos e continuamos a falar do mesmo. Por isso esta entrevista que, na altura, a VISÃO fez a Gonçalo Ribeiro Telles, não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal



                      
Nos primeiros 15 dias de agosto de 2003 arderam cerca de 300 mil hectares no nosso País. Os fortes incêndios de Oleiros, Sertã e Aljezur fizeram as manchetes dos jornais (e da VISÃO) e os temas são sempre os mesmos: a floresta de eucaliptos e pinheiros, as falhas da proteção civil, a falta de condições de trabalho dos nossos bombeiros. Passaram 14 anos e continuamos a falar do mesmo. Por isso esta entrevista que, na altura, fizemos a Gonçalo Ribeiro Telles, arquitecto paisagista e “pai” do ecologismo português, não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, nenhuma lição retiramos dos nossos erros, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal.
VISÃO: Quais são as causas desta calamidade?
GONÇALO RIBEIRO TELLES: A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.
V: De onde vem essa ideia?
GRT: É uma ideia antiga que começou nos anos 30 com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária. As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse transformar grandes áreas do País já são 36% em florestas industriais. Esta campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos. Houve ainda outra campanha, a do trigo, em que se organizou o País em função desta cultura, que tinha por base o mito da independência de Portugal em pão. Além das terras para o trigo, tudo o resto, num sistema de agricultura economicista, tem que ser floresta, produção de madeira. O resultado está à vista.
V: Passámos então a ser um País florestal.
GRT: Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de madeira e de protecção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho, porque o que têm na sua terra são matas, matos, etc. No século XIX, o pinheiro bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose. O pior é que se transformou o País num território despovoado e que, dadas as características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.
V: Como deve ser reordenado o território?
GRT: O País está completamente desordenado. Por um lado, uma política agrícola que não considera o mosaico mediterrânico, com agricultura, pecuária, regadio e horticultura, os matos, as matas, todo um mosaico interligado e ordenado. Em Mação, por exemplo, aquela população vivia tradicionalmente da agricultura que fazia nos vales e nas naves.
E na serra existiam os matos pastados pelas cabras, pelos bovinos. Dos matos retirava-se o mel, a aguardente de medronho, a caça e as aromáticas.
A França, nas zonas de mato, tem uma política de aromáticas de abastecimento da indústria de perfumes. A questão, hoje, é criar uma mata que produza madeira, mas que se integre nos agro-sistemas, uma paisagem sustentada, polivalente e nunca repetir, como já querem, a plantação de eucaliptos e de pinhal. As populações estão fartas disso e devem ser chamadas a depor. E tem que haver duas intenções ecológicas fundamentais: a circulação da água e a circulação de matéria orgânica, aproveitando-a para melhorar as capacidades de retenção da água do solo.
V: A excessiva divisão do território (em meio milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?
GRT: A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.
Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.
V: Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma?
GRT: Ardiam na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim.
V: Defende uma mata com que tipo de madeiras?
GRT: Madeiras para celulose é difícil porque temos agora uma forte concorrência no resto do mundo. Os eucaliptais, para serem mais rentáveis, só poderiam sê-lo no Minho que é onde chove mais de 800 ml ao ano. O eucalipto precisa de muita água e Portugal não pode concorrer com o Brasil e a África em termos de custo. Só se transformarmos o Minho num eucaliptal. Pode-se optar pelas madeiras de qualidade da cultura mediterrânica como todos os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinhais criteriosamente distribuídos.
V: Não são tão rentáveis...
GRT: O carvalho, por exemplo, acompanha toda uma panóplia de rendimento como a cortiça, a pecuária, a produção do mel, das aromáticas, a caça.
V: Há uma visão limitada do que pode ser rentável na floresta?
GRT: É muito bom para as celuloses e muito mau para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos activos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros.
V: As populações estão alertadas para essa multiplicidade de culturas?
GRT: Completamente alertadas; quem parece que não está são os políticos e os técnicos. Porque se perderam numa floresta de «números». Quem conhece as estatísticas diz que somos o terceiro país da Europa em número absoluto de tractores, só ultrapassados pela Alemanha e pela França. Somos um país de tracto res porque os subsídios dão para isso, porque interessa à importação dessa maquinaria toda. As pessoas foram levadas a investimentos, em nome do progresso, que não tinham qualquer racionalidade.
V: No caso de se aumentarem as áreas agrícolas, temos agricultores para tratar delas?
GRT: Temos. Estão desviados, foram convencidos de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.
V: Que pode fazer o Estado, uma vez que 84% da nossa floresta está nas mãos dos proprietários?
GRT: Pode fazer planos integrados de ordenamento da paisagem. O Estado não domina totalmente a expansão urbana quando quer, não faz planos gerais de urbanização? Não se devia poder plantar o que se quer porque também não se pode construir o que se quer. Constrói-se mal porque, às vezes, o Estado adormece. Faltam planos gerais de ordenamento de paisagem, que a actual legislação não contempla, apesar de já ter instituído a Estrutura Ecológica Municipal através do Decreto-Lei 380/99. A Lei de Bases do Ambiente tem os conceitos e os princípios para um plano de ordenamento de paisagem, está lá tudo escrito, mas nunca foram regulamentados.
V: A actual legislação favorece as monoculturas?
GRT: Favorece porque a chamada «modernização» da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de Agronomia em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século XIX e no princípio do século XX. Agora, parece terem-se rendido ao economicismo.


                       
V: Deve o Estado apoiar com subsídios e benefícios fiscais?
GRT: Com certeza. O proprietário está com a corda na garganta, faz aquilo que lhe der dinheiro já para o ano. Por isso, têm que se estabelecer limites e normas a sistemas, não a culturas, mas sem tirar às pessoas a liberdade de correr riscos.
V: E promover o associativismo florestal, como em Espanha, por exemplo?
GRT: Abrimos um bom caminho com as «comunidades urbanas» que estão na forja, pequenas áreas metropolitanas de freguesias e aldeias, acho muito bem. Estamos numa cultura mediterrânica e não se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção em grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma população instalada em condições de dignidade.
Essas comunidades é que deverão fazer a síntese de todos os interesses. Porque quando começamos a destacar os interesses por sector, a visão sistémica desaparece e os interesses da comunidade passam para empresas que ultrapassam as suas fronteiras comprometendo a sustentabilidade da região.
Não defendo que haja um sector agrícola e um sector florestal, para mim é exactamente o mesmo: a agricultura completa a floresta e a floresta completa a agricultura.
V: O Partido Socialista voltou a falar da regionalização como forma mais eficaz de ordenar o território. Concorda?
GRT: Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord'água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.
V: O Governo acordou tarde para a calamidade dos incêndios?
GRT: Que podia o Governo fazer? O mal vem de longe. Mas não estou seguro de que se vá enveredar agora pelo caminho certo. Já estão a dizer que querem reflorestar tudo como estava. Fico horrorizado quando ouço isso. Significa que querem voltar aos pinheiros e aos eucaliptos. Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez pinheiros à porta. Destruíram as hortas... Porque ardem as casas? Porque o pinheiro está no quintal.
V: Olhando para o futuro, os incêndios podem constituir uma oportunidade para se reorganizar o território?
GRT: Também o terramoto permitiu que o Manuel da Maia, a mando do Marquês de Pombal, fizesse a Baixa lisboeta. Não desejo um terramoto, mas não percam esta oportunidade. O futuro do País e da sua identidade cultural e independência está em causa.
(Entrevista publicada na VISÃO 545, de 14 de Agosto de 2003)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

curiosidades na educação...





nota -

todas as informações relevantes encontram-se no nome do ficheiro de imagem...

o apontamento é de um dos meus tios paternos.

sexta-feira, 4 de março de 2016

continuando o dia... com uma novidade...!



comentário:
 
como é meu costume, desde muito novo, compro o número um de qualquer publicação que não seja um livro... tipo revistas de banda desenhada, arte, história e jornais...
 
este é mais um exemplo e pareceu-me interessante...
 
como é evidente a sequência de aquisição futura dependia bastante dos fundos de maneio, caso do tintin, mundo de aventuras, o lobo mau, o observador que passou a ser comprado na casa dos meus pais... e exemplos poderiam ser muitos mais.