"O político medíocre, como todo o homem medíocre, é fruto da falta de
formação. Faltam Humanidades no nosso sistema de ensino. A cada reforma
curricular, disciplinas como História, Filosofia, Psicologia ou
Sociologia perdem terreno e exigência no currículo dos alunos.
O
paradigma dominante é tecnológico e económico. Não há discurso político
contemporâneo que não vá por aí. Di-lo o Presidente da República e
também o Primeiro-Ministro do país hipotecado, os Presidentes da Câmara e
da Junta, que fincam pé para que todos os gaiatos tenham pc e naveguem
pela net, mesmo sem nunca terem visto o mar. E os velhos, que não podem
morrer sem mandar um email, não vá a entrada no céu ou mais abaixo
precisar de conta aberta no Google. O futuro é tecnológico, digital,
interactivo, pronto a servir e a ser vivido. Ainda não entendemos o
jargão, mas já não estranhamos. A tecnologia acoplada a tudo o que mexa.
O economês como língua oficial. O deserto em volta.
Vale a
quantidade e pouco a qualidade. Vão os alunos passando de ano, ou
transitando, ou lá o que é, felizes, até ao dia em que batem no real. Já
não se reprova, termo banido da novilíngua educativa, como ensino ou
aprender, substituídos por conceitos vazios como competências, aprender a
aprender ou empreendedorismo. Nivelamos por baixo e são os fracos que
se lixam, com a promoção de uma mediocridade generalizada em que o
esforço deixa de valer a pena e a preguiça e a responsabilidade são
insistentemente perdoadas por factores externos. Dificultamos a formação
dos alunos culturalmente mais carenciados e acentuamos o fosso que os
separa dos que possuem um enquadramento económico e familiar que
compensa as lacunas escolares. Também para estes a escola se torna
obsoleta, cansados de um ensino que os trata como atrasados mentais. Não
tardará e o professor será um anacronismo num admirável mundo novo onde
cada aluno da geração “tipo” ou “tásse” poderá escolher o seu currículo
e avaliar-se a si mesmo. Tudo feito online, entre muitos ☺, LOL e
artigos da Wikipédia. O nivelamento pelos medíocres não elimina as
classes sociais, perpetua-as. A escola pública transforma-se num monstro
inútil onde continuam a safar-se os mesmos. Vale a estatística. Mesmo
que a maioria dos alunos não consiga sequer interpretá-la.
As
Humanidades dão trabalho, mais se em casa falta o incentivo e a
exigência, se a ausência de hábitos de leitura e discussão são o prato
de cada dia e o pergunta ao professor que é para isso que lhe pagam está
sempre na ponta da língua. Sem resultados imediatos, são desprezadas.
Incomodam.
O papel das Humanidades é servir-nos de âncora.
Precisamos reaprender a pensar, a demorar o pensamento, resgatando-o da
manada e centrando-o no essencial. Da falta de um pensamento crítico
nasce o político miserável, ser amputado de espírito, fechado numa
perspectiva que se habituou a tomar pela verdade e longe da vida que
está para além dela. O futuro não decorre de um conjunto de regras
imutáveis estabelecidas por um conjunto de bem pagos especialistas. As
regras do jogo estão sempre a mudar, prever hoje o que vale para amanhã é
mais fruto do acaso ou de estupidez astrológica do que ciência.
Comparem-se todas as previsões económicas feitas a médio e longo prazo. É
o aleatório que domina, nas bolsas, nas agências de rating ou nos
mercados financeiros: “A verdadeira tarefa da economia consiste em
mostrar ao homem o pouco que ele sabe acerca daquilo que pensa poder
planear” (Hayek).
A perspectiva em que se situa o observador
condicionará sempre a previsão, numa espécie de efeito de realimentação,
que apenas espelha o desejo de quem a profere. Limitamo-nos a seguir a
música da moda, composta de medo e mecanismos irracionais de toda a
espécie, dando corpo a uma crise que começou por ser imaterial,
aumentada a cada referência ou auto-referência. Como um discurso viral
que contamina todas as instâncias de poder, repletas de arremedos de
gente que ofusca a falta de conteúdo do discurso com um palavreado
estéril. Wittgenstein diz que a linguagem mascara o pensamento, aqui
disfarça o vazio. Aprendizes de pensamento único de escola partidária,
gente de frases feitas reproduzidas à exaustão, sem a coerência ou a
memória que implique a vergonha que vai do que disseram ontem ao que
fazem hoje. Gente esponjosa e bafienta que conspurca tudo o que toca.
Todos iguais, em circuito fechado, ninguém daria pela troca do nome do
boneco. Esta gente com os seus programas de infelicidade. Bufões. Depois
deles não virá o caos.
A saída está na mudança de paradigma. De
dentro já não conseguimos ver. É necessário mudar a própria forma de
pensar, abandonar a formatação, redefinir prioridades. Não será tanto a
Democracia que está em causa, mas a forma de a pensar. Daí não virá o
abismo, como dão a entender os aspirantes a profetas e vigilantes
interessados em perpetuar um status quo conveniente. De repente,
convencionou-se como inevitável a necessidade de reduzir a zero
conquistas de séculos e de vidas. HÁ, deve haver, direitos adquiridos.
Recusá-los é um retrocesso civilizacional. Mas aceitamos os arautos da
desgraça sem questionar. É preciso colocarmo-nos de fora e alterar a
nossa perspectiva sobre o mundo. As profecias cumprem-se a partir do
momento em que nelas acreditamos cegamente. Talvez cessem a partir do
momento em que deixemos de o fazer. Não são tanto as circunstâncias que
fazem a nossa vida, mas antes o que fazemos a partir delas.
O
pensamento crítico está ausente da política, porque foi expulso das
escolas e das universidades. A escola deve assumir-se como instituição
crítica para que o Estado deixe de ser manipulador (Ivan Illich) e
castrador. Abandonando aquela que foi a sua base e razão de ser durante
séculos, as Artes e Humanidades, os sistemas educativos actuais visam
apenas a formação de “gerações de máquinas eficazes” (M. Nussbaum)
obcecadas com o lucro. Com os políticos habituámo-nos a colocar sempre o
contador a zero a cada ritual eleitoral. É importante que percebamos
que é possível mudar e que chegou o tempo de ripostar e depor esta
política e os seus cães-de-guarda. Para que de cada estudante brote um
cidadão. Para que nasça um novo homem político que se importe.
As
Humanidades ajudam na adopção de uma perspectiva não contaminada que
contribua para arrancar as pessoas à complacência, recuperando-as para o
que importa. O futuro não é inevitável. Não está escrito. Não existe. A
crise, qualquer uma, mesmo as que nos impõem com base em especulações
feitas para não serem inteligíveis, é sempre um momento catártico, de
conflito e decisão. Uma boa altura para levantar a voz, limpar a casa e
fazer o que é correcto. Recuperar a Ética. E só isto. Ou então já
estamos mortos."