Mostrar mensagens com a etiqueta humanidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta humanidades. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de julho de 2013

mais uma achega à questão da (in)competência linguística dos alunos (!) [mas não só]... cartas à directora... a crise das humanidades... no público...!

ontem, numa entrada, dava conta dos problemas que os alunos demonstram na língua materna quando analisados os resultados das provas finais de ciclo e exames nacionais [relatório 2012 do gave, já aqui divulgado na entrada anterior]... por via de um comentário no educare... aqui.


sexta-feira, 12 de julho de 2013

a ler [descomplicando certas 'farsas']... humanidades e desenvolvimento... de desidério murcho... no de rerum natura...!


"A Universidade de Oxford acaba de divulgar aqui um estudo importante sobre o impacto económico do estudo das humanidades. O estudo parece mostrar que, além evidentemente do valor intrínseco que tem o estudo das humanidades, os graduados nestas áreas contribuem de maneira importante para o crescimento económico. Uma boa notícia, certo?


Errado.

Uma má notícia. Porque confirma que, quando se trata de defender o seu tacho, mesmo os investigadores mais honestos perdem as estribeiras. Ao ler o artigo percebemos duas coisas importantes, e que são de fazer qualquer observador imparcial ficar logo de pé atrás quanto à honestidade deste estudo.

Primeiro, o Professor West, responsável pelo estudo, começa por declarar que "a necessidade de demonstrar o impacto e valor do estudo das humanidades na economia e na sociedade intensificou-se durante a recente crise económica". Ou seja, encomendamos um estudo a uma companhia de tabaco para mostrar que afinal o tabaco até faz bem? Qualquer pessoa que não seja completamente parva vê que um estudo que visa provar X e que é conduzido por quem tem tudo a ganhar que realmente "prove" X tem uma probabilidade tão elevada de ser uma completa fraude académica que é quase uma certeza. Oh, eu não duvido que tenha todas as marcas superficiais da seriedade e objectividade académica. Mas isto também nós encontramos nos estudos espíritas, homeopatas, astrológicos, numerológicos e criacionistas. A criatividade humana não tem limites, no que respeita à aldrabice.

Segundo, no final do artigo o Professor West especifica melhor qual é o impacto económico positivo do estudo das humanidades: "Qualquer pessoa que tenha escrito uma análise crítica da República de Platão em menos de mil palavras" está mais bem capacitada para responder ao que os empregadores procuram, que são pessoas com "competências sucintas e persuasivas de comunicação escrita e verbal, e capacidade de análise crítica e de síntese". Como deveria ser evidente, isto é como defender que toda a gente deve treinar halterofilia durante três anos, porque depois quando se vai trabalhar na sapataria temos mais força para arrumar as caixas das botas mais pesadas. Fora de brincadeiras, é evidente que se essas são as competências que os empregadores procuram e as pessoas querem, há maneiras muito mais directas e eficientes de as ensinar, em vez de instrumentalizar o pobre Platão.

A situação do mundo contemporâneo, com classes profissionais muitíssimo bem colocadas politicamente para conseguir o dinheiro dos impostos dos outros para fazerem o que lhes interessa a eles mas não a quem paga a despesa, é certamente insustentável. É um pouco como a escravatura no séc. XVII: é evidente que é uma vergonha, mas muita gente ganha com o negócio, sobretudo as pessoas mais próximas do poder, e quem mais perde com o negócio está tão longe do poder que é como se não existisse. Mas eu preferiria que ao menos se fizesse um silêncio recatado, em vez de se tentar atirar areia para os olhos dos outros, ao mesmo tempo que se prostitui a objectividade do estudo académico. Se para defender o meu tacho eu tenho de mentir descaradamente, prefiro mudar de profissão e ir vender cuecas para a porta do Coliseu." 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

reflexão... as humanidades [fora da] na escola... de miguel cardoso... via de rerum natura...!

"O político medíocre, como todo o homem medíocre, é fruto da falta de formação. Faltam Humanidades no nosso sistema de ensino. A cada reforma curricular, disciplinas como História, Filosofia, Psicologia ou Sociologia perdem terreno e exigência no currículo dos alunos.

O paradigma dominante é tecnológico e económico. Não há discurso político contemporâneo que não vá por aí. Di-lo o Presidente da República e também o Primeiro-Ministro do país hipotecado, os Presidentes da Câmara e da Junta, que fincam pé para que todos os gaiatos tenham pc e naveguem pela net, mesmo sem nunca terem visto o mar. E os velhos, que não podem morrer sem mandar um email, não vá a entrada no céu ou mais abaixo precisar de conta aberta no Google. O futuro é tecnológico, digital, interactivo, pronto a servir e a ser vivido. Ainda não entendemos o jargão, mas já não estranhamos. A tecnologia acoplada a tudo o que mexa. O economês como língua oficial. O deserto em volta.

Vale a quantidade e pouco a qualidade. Vão os alunos passando de ano, ou transitando, ou lá o que é, felizes, até ao dia em que batem no real. Já não se reprova, termo banido da novilíngua educativa, como ensino ou aprender, substituídos por conceitos vazios como competências, aprender a aprender ou empreendedorismo. Nivelamos por baixo e são os fracos que se lixam, com a promoção de uma mediocridade generalizada em que o esforço deixa de valer a pena e a preguiça e a responsabilidade são insistentemente perdoadas por factores externos. Dificultamos a formação dos alunos culturalmente mais carenciados e acentuamos o fosso que os separa dos que possuem um enquadramento económico e familiar que compensa as lacunas escolares. Também para estes a escola se torna obsoleta, cansados de um ensino que os trata como atrasados mentais. Não tardará e o professor será um anacronismo num admirável mundo novo onde cada aluno da geração “tipo” ou “tásse” poderá escolher o seu currículo e avaliar-se a si mesmo. Tudo feito online, entre muitos ☺, LOL e artigos da Wikipédia. O nivelamento pelos medíocres não elimina as classes sociais, perpetua-as. A escola pública transforma-se num monstro inútil onde continuam a safar-se os mesmos. Vale a estatística. Mesmo que a maioria dos alunos não consiga sequer interpretá-la.

As Humanidades dão trabalho, mais se em casa falta o incentivo e a exigência, se a ausência de hábitos de leitura e discussão são o prato de cada dia e o pergunta ao professor que é para isso que lhe pagam está sempre na ponta da língua. Sem resultados imediatos, são desprezadas. Incomodam.

O papel das Humanidades é servir-nos de âncora. Precisamos reaprender a pensar, a demorar o pensamento, resgatando-o da manada e centrando-o no essencial. Da falta de um pensamento crítico nasce o político miserável, ser amputado de espírito, fechado numa perspectiva que se habituou a tomar pela verdade e longe da vida que está para além dela. O futuro não decorre de um conjunto de regras imutáveis estabelecidas por um conjunto de bem pagos especialistas. As regras do jogo estão sempre a mudar, prever hoje o que vale para amanhã é mais fruto do acaso ou de estupidez astrológica do que ciência. Comparem-se todas as previsões económicas feitas a médio e longo prazo. É o aleatório que domina, nas bolsas, nas agências de rating ou nos mercados financeiros: “A verdadeira tarefa da economia consiste em mostrar ao homem o pouco que ele sabe acerca daquilo que pensa poder planear” (Hayek).

A perspectiva em que se situa o observador condicionará sempre a previsão, numa espécie de efeito de realimentação, que apenas espelha o desejo de quem a profere. Limitamo-nos a seguir a música da moda, composta de medo e mecanismos irracionais de toda a espécie, dando corpo a uma crise que começou por ser imaterial, aumentada a cada referência ou auto-referência. Como um discurso viral que contamina todas as instâncias de poder, repletas de arremedos de gente que ofusca a falta de conteúdo do discurso com um palavreado estéril. Wittgenstein diz que a linguagem mascara o pensamento, aqui disfarça o vazio. Aprendizes de pensamento único de escola partidária, gente de frases feitas reproduzidas à exaustão, sem a coerência ou a memória que implique a vergonha que vai do que disseram ontem ao que fazem hoje. Gente esponjosa e bafienta que conspurca tudo o que toca. Todos iguais, em circuito fechado, ninguém daria pela troca do nome do boneco. Esta gente com os seus programas de infelicidade. Bufões. Depois deles não virá o caos.

A saída está na mudança de paradigma. De dentro já não conseguimos ver. É necessário mudar a própria forma de pensar, abandonar a formatação, redefinir prioridades. Não será tanto a Democracia que está em causa, mas a forma de a pensar. Daí não virá o abismo, como dão a entender os aspirantes a profetas e vigilantes interessados em perpetuar um status quo conveniente. De repente, convencionou-se como inevitável a necessidade de reduzir a zero conquistas de séculos e de vidas. HÁ, deve haver, direitos adquiridos. Recusá-los é um retrocesso civilizacional. Mas aceitamos os arautos da desgraça sem questionar. É preciso colocarmo-nos de fora e alterar a nossa perspectiva sobre o mundo. As profecias cumprem-se a partir do momento em que nelas acreditamos cegamente. Talvez cessem a partir do momento em que deixemos de o fazer. Não são tanto as circunstâncias que fazem a nossa vida, mas antes o que fazemos a partir delas.

O pensamento crítico está ausente da política, porque foi expulso das escolas e das universidades. A escola deve assumir-se como instituição crítica para que o Estado deixe de ser manipulador (Ivan Illich) e castrador. Abandonando aquela que foi a sua base e razão de ser durante séculos, as Artes e Humanidades, os sistemas educativos actuais visam apenas a formação de “gerações de máquinas eficazes” (M. Nussbaum) obcecadas com o lucro. Com os políticos habituámo-nos a colocar sempre o contador a zero a cada ritual eleitoral. É importante que percebamos que é possível mudar e que chegou o tempo de ripostar e depor esta política e os seus cães-de-guarda. Para que de cada estudante brote um cidadão. Para que nasça um novo homem político que se importe.

As Humanidades ajudam na adopção de uma perspectiva não contaminada que contribua para arrancar as pessoas à complacência, recuperando-as para o que importa. O futuro não é inevitável. Não está escrito. Não existe. A crise, qualquer uma, mesmo as que nos impõem com base em especulações feitas para não serem inteligíveis, é sempre um momento catártico, de conflito e decisão. Uma boa altura para levantar a voz, limpar a casa e fazer o que é correcto. Recuperar a Ética. E só isto. Ou então já estamos mortos
."