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quinta-feira, 30 de julho de 2015

pois bem, diz ele... temos pano para mangas...!

Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!
 
 
Crise grega? Prisão de José Sócrates? Queda de um avião nos Alpes? Luta pela liderança do PS? Ataque ao Charlie Hebdo? O mais recente iPhone? Jorge Jesus no Sporting? Desenganem-se. O texto do Observador mais partilhado e mais discutido nas redes sociais nestes 14 meses de existência foi publicado no domingo passado e é uma entrevista com um professor universitário. O que fez o seu sucesso e suscitou tanta controvérsia? O tema abordado: o grau de liberdade que os pais devem dar aos seus filhos. Os riscos que devem permitir que corram. E até onde deve ir o seu instinto protetor.

“Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, uma entrevista de Rita Ferreira a Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, alguém que trabalha com crianças há mais de 40 anos, foi uma daquelas conversas que obrigam a pensar e repensar hábitos e comportamentos. Não a vou aqui fazer a sua síntese, pois merece ser lida de fio a pavio, apenas vos deixo dois pequenos aperitivos, duas frases retiradas da entrevista: “Os joelhos já não estão esfolados, mas a cabeça destas crianças já começa a estar esfolada, por não terem tempo nem condições para brincar livremente”; e “Brincar à luta é saudável. É um indicador de vida saudável das crianças. Como correr atrás de alguém, ou ser perseguido. Brincar é civilizar o corpo.” Há muito mais assim, desafiador. E, também, suficiente para me lembrar das vezes que “parti a cabeça”, como então se dizia, ou caí da bicicleta, ou da idade que tinha quando comecei a ir, em Lisboa, sozinho para a escola.

Talvez a época do ano permita a muitos pais estarem mais perto dos filhos, e ao mesmo tempo mais longe devido à extensão das férias escolares, mas calculo que esta altura seja boa para recordar alguns dos muitos trabalhos que, no Observador, fomos publicando nestes meses, sempre com enorme feedback por parte dos leitores. Assim poderá ler algum que lhe tenha escapado ou recordar argumentos e contra-argumentos. Eis um apanhado (pequeno) do que fomos fazendo com mais profundidade, em entrevistas ou em especiais:
 
“Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”, uma entrevista de Ana Cristina Marques ao psicólogo Eduardo Sá onde ele avisa que "errar é aprender" e que as crianças não devem ser educadas para se tornarem "modelos normalizados"; 

“Não devemos ser escravos dos nossos filhos”, também uma entrevista, esta com o pediatra Mário Cordeiro, onde se discutiram temas relativos a como educar uma criança, da importância do amor ao papel dos castigos, passando pelo tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. 

Quantas vezes por semana devemos dar banho aos filhos?, uma pergunta porventura surpreendente a que João Miguel Tavares procurou responder para chegar à conclusão que, na verdade, se há algumas divergências, o consenso vai no sentido de ser melhor dar banho todos os dias. Ou seja, quando um pai quer fugir a esse dever, “a argumentação não pode ser: “Querida, dar tantos banhos está a fazer mal ao bebé!” Terá antes de ser: “Querida, dar tantos banhos ao bebé está a fazer-me mal!”…
 
Vacinar ou não vacinar as crianças? Vale a pena perguntar?, o que na verdade nem devia valer a pena, como apuraram a Vera Novais e a Ana Cristina Marques, que foram ouvir os argumentos dos dois lados – sim, há um lado anti-vacinação – para concluírem, citando Mário Jorge Santos: “Um mundo sem vacinas, é um mundo aterrorizador para crianças e jovens”. (sobre este tema fizemos também um Explica-me, Vacinar para quê?)

Publica fotos dos seus filhos nas redes sociais? Talvez não devesse, um trabalho muito prático e oportuno, que expõe os riscos, discute a ética (onde acaba a privacidade dos nossos filhos?) e se dão alguns conselhos. 

Aos dois anos, a carne já não pode ser “chicha”, uma reportagem onde a Marlene Carriço nos diz que cada criança tem o seu ritmo, mas que o normal é as primeiras palavras surgirem por volta dos 12 meses. Sendo que os pais devem estimular o desenvolvimento e falar corretamente com os filhos desde muito cedo. 

“A palmada e o castigo são a lei do menor esforço”, em que a Ana Cristina Marques entrevistou Magda Gomes Dias, uma defensora daquilo a que chama “Parentalidade Positiva”. Ou seja, de novo um texto controverso, onde se defende que o bom caminho é argumentar com os filhos. 

Já Até quando devem os filhos dormir no quarto dos pais?, Não à mesada, sim à semanada! ou Até quando se deve amamentar? são mais alguns exemplos de textos com uma grande componente prática, realizados sempre com a ajuda de especialistas.
 
Finalmente, porventura num esforço para contribuirmos para uma maior natalidade, entrevistámos a terapeuta Constança Cordeiro Ferreira, “Estamos a exigir muito dos nossos bebés”, com dicas para ajudar os pais a compreenderem o recém-nascido que têm em casa, e tratámos temas mais incómodos, nomeadamente em Quando a maternidade não é assim tão cor-de-rosa, até porque, como se escrevia logo na entrada, “mães há muitas, sentido de humor nem por isso.”
 
Admito que, por esta altura, os leitores do Macroscópio já estejam um pouco cansados de tantas sugestões do Observador, o que não é regra neste espaço, como sabem. Ou então que nem todos sejam pais ou avós. Deixo-vos por isso mais algumas indicações de leitura, todas bem interessantes, profundas e em registos muito diferentes.

Começo por um texto da New York Review of Books que gostei particularmente de ler: What Is Wrong with the West’s Economies?, escrito por um Prémio Nobel da Economia, Edmund S. Phelps. O que gostei mais neste escrito foi a sua abordagem relativamente heterodoxa a um problema que aflige o mundo ocidental e que já aqui abordámos várias vezes. Phelps situa a chave do desenvolvimento na capacidade de inovação das sociedades e interroga-se porque falta ela em tantos países. Na sua opinião, um dos problemas está na forma como educamos os nossos filhos: ensinamos-lhes economia e gestão, engenharia ou medicina, mas não os ensinamos a serem criativos. E como é que poderíamos fazê-lo? Recorrendo, por exemplo, às Humanidades:

“It will also be essential that high schools and colleges expose students to the human values expressed in the masterpieces of Western literature, so that young people will want to seek economies offering imaginative and creative careers. Education systems must put students in touch with the humanities in order to fuel the human desire to conceive the new and perchance to achieve innovations. This reorientation of general education will have to be supported by a similar reorientation of economic education. We will all have to turn from the classical fixation on wealth accumulation and efficiency to a modern economics that places imagination and creativity at the center of economic life.”

Um bom contraponto a esta leitura, porque é uma visão bem mais optimista do futuro, é um outro trabalho que encontrei no Wall Street Journal: The Future of Work, Travel, Retirement and More. O que fez o jornal foi simples: pediu a especialistas que escrevessem sobre diferentes áreas, e eis algumas das suas indicações: How Single Millennials Will Change the Workplace; Why Employee Benefits Will Become Irrelevant; The Reactors That Will Revolutionize Nuclear Energy; Why Women’s Share of Wealth Will Grow; How the Internet of Things Will Transform Retirement; Five Ways the CFO Role Will Change; What Travel Could Be Like in the Future; The Secret to Not Letting a Machine Steal Your Job; The Many Ways Tech Will Revolutionize Financial Services; Why Future Oil Demand Could Be Very Low; Why I’m Pessimistic About the Future of Small Business ou A Letter From a Less-Hungry Future America. Eu sei que não há arte mais traiçoeira do que prever o futuro, pois até os visionários e os grandes inovadores se enganam (há pouco mais de 20 anos Bill Gates escreveu The Road Ahead onde defendia que o futuro pertenceria aos… CD Roms), mas é sempre interessante ler alguns textos que são, no mínimo, imaginativos, no máximo, certeiros.

A minha última sugestão de leitura de hoje é para uma investigação da New Yorker, que é também uma grande reportagem sobre a forma como El Chapo escapou da sua prisão no México. Em Underworld: How the Sinaloa drug cartel digs its tunnels ficamos quase com um doutoramento na arte de escavar túneis que cruzam fronteiras ou penetram bem até ao coração de prisões de alta segurança. É uma boa leitura para relaxar um pouco, mesmo sendo terrível a realidade que suporta estas redes, a do tráfico de droga. E digo isso porque nela se revela como o homem, mesmo o mais cruel e corrupto, pode ser inventivo para além de toda a nossa imaginação.

Espero ter-vos deixado sugestões suficientes por hoje, tenham ou não crianças por perto. Como sempre, descansem, leiam, e estejam de volta amanhã, que eu também estarei aqui de novo.

sábado, 18 de julho de 2015

sugestões... férias e livros, resultam...?

como a coisa mete livros e comigo resulta sempre, uns anos com mais leitura outros com menos, aproveito para deixar estas sugestões...



Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!
 
 
"O prometido é devido. Ontem disse-vos que hoje iria falar de livros para férias e aquilo que é prometido é devido. Afinal é nesta época do ano que muitas vezes se colocam as leituras em dia. Para além disso, perdoem a imodéstia, foi também esse o tema do Conversas à Quinta desta semana, em que estive a falar com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto sobre Uma dúzia de livros para as suas férias.
 
Curiosamente trouxemos treze livros para cima da mesa, mas um estava repetido. Mesmo assim o tempo foi curto para apresentar estas escolhas, até porque se tratavam de sugestões a sério, de livros lidos e comentados. Livros em português e livros em inglês, francês e até em italiano (uma pequena jóia, sobre Física). Quase sempre livros com alguma ligação a temas da atualidade ou com atualidade e também alguns romances. No final ficou a faltar-nos um: a Crónica da Tomada de Ceuta, por Gomes Eanes de Zurara, por uma lamentável motivo: no ano em que se assinalam os 600 anos daquela expedição que marca o início da expansão portuguesa, não há nenhuma edição deste clássico do século XV disponível nas livrarias. A edição mais recente, apesar de ser de 2007, é quase impossível de encontrar. É uma daquelas lacunas que diz muito sobre a edição e os editores em Portugal. E também sobre a forma como funciona o mercado livreiro.
 
Mas adiante. Até porque, apesar de estarmos nesta época do ano, quase não encontrámos listas de sugestões na imprensa portuguesa. Com uma excepção e meia.
 
A exceção é um texto de Carlos Fiolhais que, no Público, recomendou na sua coluna de opinião Dez livros para as férias. Selecciono dois deles:
  • José Tito Mendonça, Uma Biografia da Luz. Ou a Triste História do Fotão Cansado, Gradiva. Neste Ano Internacional da Luz o penúltimo volume da colecção Ciência Aberta convida-nos a uma viagem pelos mistérios da óptica, revelando não só a história da descoberta da luz mas o percurso de vida do autor, um professor de Física do Instituto Superior Técnico que sempre procurou a luz.
  • Atul Gawande, Ser Mortal, Nós, a medicina e o que realmente importa no final. Lua de Papel (prefácio de João Lobo Antunes). Somos mortais, mas só nos lembramos disso quando somos confrontados com a mortalidade de alguém mais próximo (aconteceu-me há pouco com o passamento de José Mariano Gago). Da autoria de um cirurgião que ensina em Harvard, aqui está uma obra que nos ajuda no confronto com a morte.
 
A meia exceção saiu aqui no Observador. É uma selecção de livros, todos eles boas leituras de férias, mas que foram escolhidos com outro propósito: assinalar o dia mundial do livro, a 23 de Abril deste ano. 17 jornalistas da nossa equipa escolheram outros tantos livros com um só critério: serem os que mais os tinham marcado este ano. Há obras mais recentes, novidades, e clássicos, numa mistura que talvez seja a mais apropriada, pois as férias não são apenas para ler o que acabou de sair, são muitas vezes o tempo para ler o que nunca se conseguiu ler (e por isso, já agora, também falámos, no já citado Conversas à Quinta dessa imortal obra-prima que é Guerra e Paz, de Lev Tolstói, com as suas mais de 1600 páginas em quatro volumes). Quanto às 17 escolhas dos jornalistas do Observador, aqui ficam três, para amostra:
  • Submissão, de Michel Houellebecq, “Intolerante e xenófobo, disseram uns. Um aviso do que aí vem, disseram outros. No mesmo dia em que o enfant terrible da literatura francesa lançou esta história de uma França submetida à lei islâmica, a redação do Charlie Hebdo foi atacada. 12 pessoas morreram. Uma vida é uma vida mas, como jornalista, o tema tocou-me de uma maneira especial. Talvez influenciada por tudo o que aconteceu, este livro também”. Sara Otto Coelho
  • Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, “É um grande romance português de um autor que está um bocado esquecido, mas cuja obra é um clássico porque continua a parecer atual e não parece datada”. Ana Suspiro
  • O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, “Foi-me recomendado por um amigo e eu, que não conhecia o autor, tornei-me entretanto um admirador da sua obra. A ideia inicial do livro é bastante simples, mas rapidamente ele se torna numa grande obra sobre a passagem do tempo, as expetativas goradas e os horizontes que nunca chegam”. João Pedro Pincha

 

Deixo agora este espaço de conforto que é, apesar de tudo, livros em português, e passo a outras selecções que me chamaram a atenção. E começa pela do The Guardian, Best holiday reads 2015. Também aqui o critério seguido na selecção foi pedir a gente da casa e a alguns convidados para fazerem as suas escolhas. Aqui ficam alguns exemplos, escolhidos quase aleatoriamente, de livros que, mais do que já lidos, são livros que se tenciona ler neste período:
  • I can’t wait to read Circling the Sun by Paula McLain (Virago), author of The Paris Wife (Virago), which told the story of Hemingway’s first marriage; her new book is the story of the aviator Beryl Markham and her relationship with Denys Finch Hatton, who was also the lover of Karen Blixen (Isak Dinesen). Sarah Churchwell
  • Why the West Rules – for Now by Ian Morris (Profile) follows in the footsteps of Jared Diamond’s Guns, Germs and Steel (Vintage), aiming to turn history from a collection of fuzzy stories into hard science. It provides a wealth of startling new evidence and thought-provoking ideas. Yuval Noah Harari
  • The American writer, Leonard Michaels, who died in 2003, wrote prose of exquisite clarity. His Sylvia (Daunt Books) tracks a fatally destructive love affair and marriage in Greenwich Village in 1960. This short novel is terrifying, beautiful and addictive. Ian McEwan
 
Já o Independent não esteve com meias medidas e propôs The best summer reads: 90 books chosen by 40 literary luminaries. Com tanta escolha, nem sei que citar, pelo que começo por um clássico, sugerido por uma romancista, Kate Atkinson: “The 150th anniversary of its publication will probably prompt many people to revisit Alice in Wonderland and its companion,Through the Looking-Glass, published several years later. I think Through the Looking-Glass is my favourite of the two, although when I was a child I never read one without the other as they existed side by side in the same volume, one of the few childhood books I still possess. I return to it often and will do so again this summer.” E sigo com uma sugestão de um grande historiador, Antony Beevor, se bem que ela se refira a um livro que só sairá em Setembro mas que podem ir já pré-encomendar os que tiverem férias mais tardias: “The other book that I will be reading this summer (…) is Timothy Snyder’s Black Earth. Snyder, who wrote the magnificent and important Bloodlands, is now focusing on the first stage of the Holocaust, what Vasily Grossman called the “Shoah by bullets” (as opposed to the subsequent “Shoah by gas”). Snyder re-examines the assumption that the Holocaust was unique, and this should once again provoke a very useful and healthy debate.”

 
Mas se estamos a falar de livros em inglês, o romance deste Verão arrisca-se a ser Go Set a Watchman, a obra perdida de Harper Lee, a celebrada autora de To Kill a Mockingbird (Tradução portuguesa, “Mataram a Cotovia", edições Relógio de Água). O livro acaba de chegar ao mercado (em Portugal só mais lá para o fim do ano) e as reacções têm-se dividido. Para muitos será necessário esquecer o romance icónico que vendeu mais de 40 milhões de exemplares nas últimos cinco décadas para poder apreciar a obra que a autora dera como perdida, uma obra que começou por ser recusada pelo seu editor. Mesmo assim deixo-vos uma referência, a crítica do Wall Street Journal, um dos jornais onde o primeiro capítulo saiu em pré-publicação. Chama-se In Harper Lee’s ‘Go Set a Watchman’ Atticus Finch Defends Jim Crow e revela-nos que a a figura do advogado imortalizada no cinema por Gregory Peck, “One of the few unambiguously heroic figures in American literature was originally conceived as a segregationist.” O que não deixará de ser surpreendente, mesmo chocante: “Yet for the millions who hold that novel dear, “Go Set a Watchman” will be a test of their tolerance and capacity for forgiveness. At the peak of her outrage, Jean Louise tells her father, “You’ve cheated me in a way that’s inexpressible.” I don’t doubt that many who read this novel are going to feel the same way.”
 
E por aqui me fico. Espero tê-los ajudado nas vossas escolhas de leituras de Verão.
 
Tenham um bom fim-de-semana."


via mensagem do observador...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

paradoxos da economia global... ou mais para lá dos equívocos...?... é que já não há, cá, quem se entenda... sobre coisa nenhuma...!


no observador...


e, agora, façam o favor de ler a frase... assim:

'não consigo compreender o entusiasmo com a opa da altice. será que não entendem que defende os seus interesses, e que os interesses da oligarquia do capital nunca serão os nossos interesses?'


então como é que ficamos...?

eu fiquei na mesma.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

'o senhor das moscas'...?


no observador...

"Segunda-feira, dia de início das aulas, a certa altura levantei a cabeça do computador e olhei para a parede onde estão as televisões. Que susto: Mário Nogueira em duplicado, em dois dos canais de notícias. Felizmente os aparelhos estavam sem som.
 
Depois interroguei-me: mas porque é que, num dia em que o foco deviam ser as expectativas de quem inicia, ou reinicia, as aulas, quem está por todo o lado é um sindicalista que há décadas não entra numa sala de aulas a não ser à frente de um piquete de greve? A resposta é simples: porque o nosso sistema educativo é, em muitos aspectos, mais fruto dos mários nogueiras deste país do que de muitos e sucessivos ministros da Educação. A forma como este ano lectivo voltou a abrir é uma boa ilustração deste paradoxo.

Perguntam-me porque é que, todos os anos, o arranque do ano escolar é sempre um drama. Porque é que faltam sempre professores. Porque é que tantas famílias só em cima da hora conhecem horários e regras. Porque é que há sempre protestos, manifestações, escolas fechadas a cadeado e por aí adiante. A resposta habitual remete para a incompetência do Ministério (uma incompetência historicamente comprovada, reconheça-se). Quem não gostar do ministro de turno, acrescentará que a culpa é dele. Quem preferir o discurso ortodoxo dos sindicalistas, acrescentará que é por se estar a desinvestir da “escola pública”.

A verdade é outra: as dificuldades, maiores ou menores, que há todos os anos por altura da abertura do ano escolar são uma consequência directa do gigantismo paquidérmico do Ministério da Educação, do seu centralismo e da sua obsessão monopolista. É também uma consequência de o foco das suas políticas ser há muitos anos os professores, as suas carreiras e os seus direitos, e não os alunos e as suas famílias.

Basta olhar para o mastodonte. O Ministério da Educação não é só a maior “empresa” portuguesa, com mais de 150 mil funcionários e uma burocracia que vomita directivas sobre directivas. O ME é também uma empresa com milhares de locais de trabalho diferentes, com necessidades diferentes, mas que está capturado por interesses sindicais que o obrigam a tratar todos os funcionários e todos os candidatos a funcionários de forma uniforme e centralizada.

O nosso ministério é fruto de uma utopia estalinista – por muito estranho que possa parecer juntar utopia e estalinismo. A utopia é a de tratar todos os professores por igual, à ordem dos sindicatos. O estalinismo resulta da única forma de o conseguir: centralizando tudo. O sistema de colocação de professores leva estas políticas ao paroxismo.

Todos estarão recordados da crise das colocações em 2004. Nesse ano o sistema bloqueou e não havia forma de distribuir os professores pelas escolas. Mais uma vez, a culpa era da incompetência, talvez do computador. Poucos sabem com foi o problema resolvido: não cumprindo a lei. Eu explico. Nesse ano, após uma negociação entre a equipa de David Justino e os sindicatos, o sistema de colocação de professores passou a ser totalmente centralizado: todas vagas abriam ao mesmo tempo, todos os professores concorriam ao mesmo tempo, tanto os que queriam mudar de escola, como os que queriam apenas arranjar uma escola. Para cada lugar em aberto, era preciso ordenar os milhares de candidatos. Quando um professor da escola A conseguia lugar na escola B, abria um lugar na escola A que antes não estava a concurso. Era então necessário refazer todos os ordenamentos, vezes e vezes a fio. O computador não aguentou – nenhum aguentaria – pelo que fez-se um pequeno truque: para esses lugares não se recalculava tudo. Não era isso que dizia a lei, mas era isso que impunha a realidade. O problema lá se resolveu, desta forma algo kafkiana.

Dez anos depois voltamos a ter problemas com as colocações. Porquê? Porque o Ministério voltou a aceitar na negociação com os sindicatos a centralização de todas as colocações, agora para aquele grupo de escolas que pacientemente, lentamente, tinham vindo a conseguir alguma autonomia. É um absurdo: se as escolas têm autonomia, deviam poder escolher os seus professores de acordo com as suas necessidades e critérios. Mas é uma realidade: a lógica sindical é que exista um único patrão, a burocracia centralizada da 5 de Outubro, não as vontades descentralizadas das escolas, das suas equipas, das famílias cujas escolhas deviam respeitar.

A cereja em cima do bolo foi fazerem estas colocações seguindo uma fórmula que não respeita o que está escrito na lei, como demonstrámos aqui no Observador. Mas se esse comportamento mostra o nível de autismo do Ministério, não é nele que está o problema: o problema está em termos o sistema educativo mais centralizado, mais burocratizado e mais dependente das negociações com os sindicatos do Hemisfério Ocidental.

Num sistema educativo centrado nos alunos, as suas famílias pressionariam as escolas para ter os melhores professores e teriam a liberdade de escolher outra escola quando isso não acontecesse – escola pública ou mesmo escola privada. No nosso sistema a prioridade não é dar aos alunos o professor que melhor se adapta às suas necessidades, é dar aos professores a escola que está mais de acordo com as suas conveniências. E a perversidade de tudo isto reflecte-se no facto de acharmos que temos professores satisfeitos com os seus empregos é sinal de que temos boas escolas e boas aprendizagens, quando isso está longe de ser verdade. Ou é mesmo mentira.

Basta pensar em duas outras falácias sindicais adoptadas pelo discurso dominante: a de que com mais professores e com turmas mais pequenas teremos melhor educação. Ao analisar o mais recente relatório da OCDE Education At a Glance, a revista The Economist mostra como isso é falso. Mais: mostra como, apesar da evolução dos últimos anos, o sistema português continua a ser um modelo de ineficiência. Não é na remuneração dos professores ou na dimensão das turmas que reside o problema português: é em pensar-se que tudo se resolve a partir da 5 de Outubro, é em aceitar a chantagem sindical, é em não devolver a palavra às famílias, que deveriam poder “votar com os pés”, trocando os seus filhos de escola livremente em função dos resultados obtidos.

Mais: uma das tragédias destes nossos tempos é vermos como um ministro que chegou a falar em “implodir a 5 de Outubro” acaba também ele prisioneiro desta máquina, desta lógica e, em última análise, prisioneiro de Mário Nogueira. Ele, e todos quantos vierem depois dele enquanto esta lógica não for alterada, vão continuar a ter insónias a cada abertura do ano lectivo, como meros CEOs de uma empresa tão gargantuesca como ingerível e ingovernável."


aqui.

'trova do tempo que passa'...?


no observador...


cada vez mais ando convencido, de acordo com o espírito destes rempos nebulosos, que se torna necessária uma discussão profunda sobre a criação da ordem dos professores... e as razões serão várias... mas a classe docente é tão patologicamente dividida, que não sei...!