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quarta-feira, 22 de julho de 2015

coisas da educação [ensino superior]... prós e contras da formação escolhida...? [2]



no observador...




"A partir desta semana, milhares de jovens portugueses vão ter a oportunidade de se candidatar a um curso no Ensino Superior público. O exercício consiste em distribuir um número limitado de vagas de acordo com as médias do ensino secundário. Quase não há nada aqui que não seja perverso. Os estudantes são reduzidos, para efeitos de candidatura, à informação anónima dos testes e exames do secundário. O numerus clausus é ainda pior: serve, não apenas para diminuir a concorrência em certas profissões, mas para repartir os candidatos por cursos que de outro modo teriam pouca ou nenhuma procura.

Mas estas são as condições da escolha. Armado com as suas notas do secundário, o jovem percorre a lista das centenas de cursos altamente especializados. Como escolher?

As autoridades legítimas não parecem ter dúvidas: o critério certo é a taxa de emprego dos diplomados. Ou seja: o melhor curso é aquele que dará ao jovem o emprego com que, um dia, possa pagar as férias sem pedir dinheiro aos pais. Parece a escolha sensata. É, de facto, a pior escolha possível. Não só porque o mercado pode mudar em três ou quatro anos, mas porque seleccionar um curso para que não temos vocação, só porque nos últimos tempos os seus diplomados encontraram empregos, aumentará a probabilidade de não sermos muito bons numa área a que muita gente vai concorrer. Convenhamos que não é o plano mais inteligente para arranjar trabalho. Desse ponto de vista, a escolha não deveria depender do que “está a dar”, mas da resposta a esta pergunta: onde e como é que eu posso estar entre os melhores?

Deverei então decidir segundo o meu interesse por esta ou aquela área de estudos? Como critério, faz mais sentido. Mas não chega. Primeiro, convém que percebamos se o nosso interesse corresponde a uma vocação real, e não a um devaneio infantil ou simples conformismo com as modas do dia. Depois, há que ter em conta que no sistema actual, a escolha segundo a área que me interessa pode servir apenas para eu acabar numa instituição medíocre, onde por acaso estão as vagas ao alcance da minha média. Ora, nenhuma vocação, por mais forte, resiste a maus professores e a más condições de trabalho.

A vocação é uma coisa boa, mas é triste que a vida universitária, com uma ou outra excepção, esteja tão limitada por especializações brutais. As universidades deveriam ser mais do que centros de pré-estágio profissional. Aos dezoito anos, talvez a melhor opção para o estudante fosse aquela que, sem comprometer uma futura predilecção profissional, o ajudasse a desenvolver competências gerais e a explorar todos os recursos de uma boa instituição do ensino superior, sem os constrangimentos fronteiriços dos cursos e departamentos. Mas também é verdade que esse modelo pressupõe, lá fora, empregadores mais interessados em personalidades do que em diplomas, e com meios para proporcionar formação específica a partir de competências básicas.

Enfim, o que deveríamos então escolher, se não for um emprego ou uma especialização? Pessoas. Sim, deveríamos escolher pessoas, e aquilo que as pessoas geram com as suas actividades e as suas relações: um ambiente, uma instituição. Como todos sabemos, aquilo que aprendemos e até aquilo de que gostamos nunca é independente das pessoas que nos ensinaram. Quantas vocações representam, de facto, a influência de um bom professor? Mas quantos dos candidatos se empenham em descobrir que professores irão ter, se optarem por determinado curso? Escolhemos um curso, às vezes uma instituição de ensino, e depois aguentamos os professores que por acaso lá ensinarem.

Num mundo menos louco, os candidatos estariam esta semana a pensar menos em cursos e mais em pessoas: quero aprender com este e aquele professor. E as instituições de ensino estariam a fazer a mesma coisa: a seleccionar pessoas, os seus estudantes, depois de previamente entrevistados: queremos ensinar este e aquele aluno. Em vez disso, um sistema centralizado informa sobre as “saídas profissionais” e a “empregabilidade” dos cursos, e depois distribui os candidatos segundo as médias obtidas no ensino secundário.

Dir-me-ão: é o sistema que temos, e o resto é fantasia. Sim, é verdade que é o sistema que temos, mas a fantasia não é o resto, é este mesmo sistema. O que tem para oferecer a dezenas de milhares de jovens é muito pouco: três ou quatro anos de exames e de cerveja, e no fim um “canudo”, que muitos aguardam como um passaporte de promoção social, mas que, acabado o tempo em que a raridade dos diplomas garantia estatuto e remuneração, poderá não ser mais do que uma aposta frustrada. 

Infelizmente, nunca tantos se satisfizeram com tão pouco."


onde também podem acompanhar os comentários... aqui.

domingo, 17 de maio de 2015

mas, claro... 'o império ortográfico'


no observador...



"O chamado “Acordo Ortográfico” tornou-se obrigatório esta semana – ou talvez não, pois que tudo nesta matéria é confuso. O Brasil ou Angola são, geralmente, as razões dadas para passarmos do acto ao ato. Mas o Brasil nunca mostrou demasiado entusiasmo ou pressa em partilhar uma mesma ortografia com Portugal – a nova grafia ainda nem sequer é obrigatória por lá. Quanto a Angola, continua a pensar. A parte portuguesa andou aqui à frente. Porquê? 

Para perceber o Acordo Ortográfico, não basta recuar a 1990. É preciso, pelo menos, voltar a 1961. Nesse ano, o ditador Salazar, sem consultar o país, decidiu que Portugal desenvolvera com os povos extra-europeus sujeitos à administração portuguesa uma relação tão especial, que se justificava defender essa administração contra tudo e contra todos. Em 1974, a direcção revolucionária das forças armadas, também sem consultar o país, decidiu abdicar dessa administração e abandonar territórios e populações à ditadura e à guerra civil dos chamados “movimentos de libertação”. Não renunciou, porém, ao mito da relação especial. Essa relação teve uma novo avatar enquanto “solidariedade anti-imperialista”, quando uma parte do MFA também quis ser “movimento de libertação”, para depois, em democracia, se redefinir como “comunidade de língua”. 

Foi assim que, para além das independências, as oligarquias democráticas mantiveram o império numa versão linguística, a que era consentida por uma das “línguas mais faladas do mundo”. Alguém então se terá lembrado que Fernando Pessoa escreveu algures que “a minha pátria é a língua portuguesa”. Nunca importou a ninguém o que Pessoa quis dizer com a frase, logo entendida como o direito de qualquer português continuar a sonhar com mapas onde Portugal, sendo talvez pequeno, tem uma língua muito grande (“a sexta mais falada do mundo”, etc.). Acontecia, porém, que, entre Portugal e o Brasil, havia diferenças. Era preciso apagar esses vestígios de fronteiras, pelo menos no papel. Só assim (argumentava-se), a língua poderia emergir como única e grandiosa, reunindo o que se separara e impondo-se ao que resistia. No fundo, este acordo ortográfico é apenas o sintoma de uma descolonização mal resolvida. 

Dir-me-ão: mas não temos ou não deveremos cultivar as tais relações especiais com os Estados onde o português é língua oficial? Sim, claro. Mas é importante, a esse propósito, não esquecer duas coisas. A primeira é que relações especiais não significam necessariamente ausência de diferenças e de distâncias. Estas diferenças e distâncias são aliás, no que diz respeito ao Brasil, muito mais profundas e irreversíveis do que convém admitir ao imperialismo linguístico. O português escrito no Brasil não se distingue apenas pela ortografia, mas pelo vocabulário e sobretudo pela sintaxe. A existirem, as relações especiais não deviam depender de quaisquer homogeneizações, irrelevantes ou impossíveis, mas de uma maior intensidade de comunicação, que habituasse portugueses e brasileiros às características de escrever e de falar uns dos outros. Ao reconhecer isso, há porém que reconhecer isto: não há assim tanto interesse de um lado e do outro num intercâmbio demasiado enérgico. As culturas que tradicionalmente mais fascinam portugueses e brasileiros não são as dos outros países de língua portuguesa, mas, por muitas razões, a das grandes potências do Ocidente, como os EUA. Este Acordo Ortográfico é, portanto, uma ilusão. 

Mas há uma segunda coisa: a língua portuguesa não nos une apenas ao Brasil ou a Angola ou a Moçambique, mas também à Espanha, à Itália, à França, mesmo à Inglaterra e a outros países europeus ou de formação europeia. E a esse respeito, o Acordo Ortográfico tem um efeito perverso: afasta o português escrito dessas outras línguas europeias, com as quais tem raízes comuns, por via da rejeição, como em reformas anteriores, da grafia etimológica. A palavra acto assim escrita ainda sugere a palavra act para um inglês que não fale português. Ato, não. Num momento de integração europeia, optamos por uma grafia tropical, destinada a complicar a decifração do português pelos nossos vizinhos e parceiros mais próximos (como se já não bastasse a nossa pronúncia impenetrável). Não vou reclamar o regresso da philosophia. Mas é pena que tivéssemos deixado de ter uma palavra que evocasse imediatamente a philosophie francesa ou a philosophy inglesa. Era aliás assim que Pessoa gostava da sua pátria: “Philosopho deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta nas bases clássicas ou pseudo-clássicas”. 

O Acordo Ortográfico é, entre nós, a última manifestação de um paroquialismo colonial que se voltou contra si próprio: não podendo aportuguesar o Brasil, vamos abrasileirar Portugal, a ver se salvamos o mapa onde não somos pequenos. Mas é precisamente assim que parecemos e somos pequenos. A grandeza, hoje em dia, deveria consistir em tratar os países que têm o português como língua oficial sem fraternidades falsas, paternalismos deslocados, ou sujeições ridículas. E passa também por perceber que há muito mais populações, para além das que falam português, com quem temos uma história e um destino em comum. 

O resultado de todos estes devaneios de imperialismo linguístico é que deixámos de ter uma ortografia consensual. O regime tenta agora compensar isso através do terrorismo escolar exercido sobre crianças e jovens. O que começou como um disparate acaba numa indignidade."