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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

na educação, 'história interminável'...?

Basta um pequeno esforço para reconstruir o discurso do dia.
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Queremos acabar com as mudanças permanentes. Queremos garantir a estabilidade do sistema educativo. As crianças estão no centro da nossa política educativa. Os alunos são a prioridade. As pessoas estão à frente. Por motivos ideológicos, o governo anterior mudou tudo sem rei nem roque. O anterior ministro criou a instabilidade. O governo precedente provocou danos quase irreparáveis. As políticas educativas anteriores, destinadas a promover a desigualdade, deixaram sequelas irreversíveis. Em quatro anos, a educação em Portugal recuou dez ou vinte. O governo anterior só se interessava pela produção de elites. Foi instalada a desordem educativa. As escolas estão destruídas.

Também não é preciso muito para prever o que se segue.

Vamos nós agora garantir que não haverá mais danos. Vamos reparar as sequelas. Vamos criar a estabilidade. Vamos garantir o primado dos alunos. Vamos construir uma escola de sucesso. Vamos levar a cabo uma política sensata, equilibrada, orientada pela ciência, dirigida para os alunos, destinada a promover a igualdade e a democracia. E sobretudo vamos reformar com a garantia da estabilidade. Para já, não haverá mais trabalhos para casa no ensino básico, dado que os alunos eram obrigados a trabalhar de mais. Depois de o Parlamento, numa votação inédita, ter eliminado uns exames, vamos agora eliminar os restantes, que eram um horrendo choque psicológico para os alunos. Vamos fazer provas de aferição sensatas, sem ideologia, sem classificação e sem trauma para os alunos. Não haverá mais exames, para já, no quarto e no sexto, mas sim provas no segundo, no quinto e no oitavo, o que é evidentemente mais democrático, mais pedagogicamente correcto e mais científico. Ámen.

Com a ajuda de António Costa, o ministro Tiago Brandão Rodrigues teve, nas televisões e no Parlamento, dois dias de glória. O ministro não ouviu quem devia ter ouvido, não acatou conselhos sábios de prudência e experiência e tomou medidas radicais a meio do ano lectivo. Com o atrevimento próprio dos ignorantes, denunciou a ideologia dos outros, declarando-se definitivamente científico e no cumprimento do interesse dos alunos. O parecer do Conselho Nacional de Educação diz o contrário? Aconselha várias medidas cautelares? É indiferente, “quem manda é o governo”. A disciplina, o trabalho, o rigor e o método? São etiquetas ideológicas que devemos afastar. O que importa é que a educação promova a igualdade e não a “elitização”, termo inventado por um analfabeto e adoptado pelo ministério. Parece ter ouvido cuidadosamente os dois partidos de extrema-esquerda e a Fenprof: sente-se até nas palavras utilizadas. Exprime-se numa língua de pedra, feita de lugares-comuns e de expressões aparentemente científicas. Diz que o sistema anterior é nocivo, provoca danos, criou traumas, promove a desigualdade, forma elites e traduz a cultura da nota. Não ouve nem dialoga com os parceiros, mas “informa-os das premissas”. Não ouviu os directores das escolas não se sabe porquê, mas também não interessa, porque “quem governa é o governo”. Reformou os exames e as avaliações a meio do ano, o que para ele não tem qualquer espécie de importância. Não falou com várias sociedades científicas, nem com organizações de pais, mas ouviu a Fenprof, que já o felicitou.

E assim recomeça mais um ciclo de reformas da educação. E desta maneira se iniciam discussões litúrgicas e obsessivas sobre os exames e a avaliação contínua, a aferição e a avaliação, a avaliação interna e a externa, a avaliação formativa e a sumativa…
O pior é que já vimos isto tudo. Uma vez. Duas vezes. Tantas vezes. Vezes a mais!
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DN, 17 de Janeiro de 2016
 
 
via feedly...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

haja quem lhes tolha o 'delírio' (ultra)liberal... antónio barreto considera "difícil" futuro entendimento entre política e economia... no público...!

"O sociólogo António Barreto considerou hoje que “vai ser difícil” o entendimento entre o mundo da política, do negócio e da economia, aliança que durou vários anos e que foi quebrada por causa da crise financeira.

“Já não é possível fazer negócios como há dez anos, auto-estradas como há dez anos, já não é possível fazer swaps como há dez ou há cinco anos, já não é possível fazer PPP [Parcerias Público-Privadas] como há 10 anos ou há 15, ou há 8 anos ou há seis anos”, disse.

“Estes fenómenos, - que parecem fenómenos de banditismo, corrupção, promiscuidade, chamem-lhe o que quiserem, retirem agora a parte moral disto - estas coisas colaram as partes, colaram o negócio, a banca, as empresas as multinacionais, as autarquias, o governo central, os partidos principais, isto conseguiu sobreviver, simplesmente agora já não é possível, já não há dinheiro”, afirmou.

António Barreto falava hoje à tarde, durante a Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer desde segunda-feira, em Castelo de Vide (Portalegre).
O sociólogo, que fez um balanço “positivo” sobre o desenvolvimento de Portugal nas últimas década, sublinhou ainda que “o alegre viver” que durou “20 anos” entre o negócio e a política “está em causa”."


sábado, 8 de junho de 2013

opinião... 25 anos de portugal europeu... de antónio barreto...!

 (…) PARECE paradoxal: nunca, como hoje, nos sentimos tão inundados de informação. E nunca, como agora, soubemos tanto e tão bem o que se passou. Mas nunca, como hoje, os cidadãos se sentem perdidos no meio de tantos dados, tantos números, tantos factos e tantas medidas! A crise actual é responsável por esta situação. As dificuldades são tais, que a informação não gera necessariamente conhecimento; e nem sempre o conhecimento permite a compreensão.
Com este trabalho sobre os “25 anos de Portugal europeu”, quer a Fundação Francisco Manuel dos Santos olhar para esta dimensão essencial da nossa história recente. As perguntas são simples: Que fez a Europa de Portugal? Como reagiu Portugal a este seu novo estatuto? O que mudou em Portugal? Para melhor ou pior? Que outras influências conhecemos nós durante estes anos?
A Europa não foi para nós apenas a União. Foi certamente a geografia e a cultura. Foi o continente, mas foram também as suas nações. Foi a Comunidade, mas também a União e o Euro.
Sabemos agora que a nossa integração europeia teve as suas fases, os seus ciclos. Sabemos hoje que foram três ou quatro, a começar pelo desejo e pela esperança dos anos sessenta e setenta. E sabemos que a primeira fase foi euforia, acompanhada de oportunidades e de crescimento. Mas que a estes sucederam a inquietação, a incerteza e a crise.
Os últimos anos, com a sua crueza de crise e austeridade, revelaram uma Europa que, há trinta anos, não ambicionávamos e que, há vinte, não esperávamos. Foi uma má surpresa, mas a face escondida da Europa esteve sempre lá. Só que a não víamos. Hoje quase só a vemos. E se é para a Europa que olhamos, para exigir responsabilidades, também é para a Europa que nos dirigimos para reclamar coesão.
A Europa foi um excesso de aspirações. É hoje um desapontamento desmesurado. Mas nem tudo se deve à Europa. Nem tudo o que de progresso se verificou nos anos sessenta a oitenta se ficou a dever à Europa. Nem tudo o que de crítico ocorreu nos anos noventa e nos primeiros do século XXI foi por causa da Europa. Os nossos erros, as nossas políticas desajustadas e os nossos defeitos são seguramente os principais responsáveis.
Na crise, procuramos as origens. Insuficiência estrutural? Deficiências políticas? Fragilidade inultrapassável? Estudar o que se passou é indispensável para corrigir e preparar os próximos ciclos. Nas nossas dificuldades, será sempre indispensável saber onde estão as reais responsabilidades. Nas políticas internas? Nas circunstâncias externas? Nos comportamentos das famílias e das empresas? Nas atitudes dos interesses?
Sabemos agora melhor que quase todos os indicadores progrediram na primeira metade deste período que nos ocupa. E quase todos os indicadores pioraram na segunda metade. Portugal aproximou-se dos seus vizinhos e convergiu com a União Europeia na primeira parte deste tempo. Mas afastou-se e divergiu na segunda parte. O contraste entre a primeira metade e a segunda é tal que as dificuldades presentes conduzem muitos a pôr tudo em causa, o euro, o mercado único, a União e a Comunidade.
Não é ilegítimo tudo querer discutir e contestar. O debate livre é o que admite todas as hipóteses. Mas também é o que se faz com algumas certezas. Ora, a Europa é uma delas.
Nem tudo é mensurável no impacto da União em Portugal. Podemos contar os fundos estruturais e acrescentar as comparticipações nacionais. Podemos calcular o retorno de muitos destes investimentos. Como podemos avaliar prejuízos e faltas de rentabilidade. É igualmente possível contabilizar, aqui e ali, o investimento externo motivado pela pertença à União. Ou os benefícios e os prejuízos nos termos de troca e na evolução do comércio externo, seja dentro do mercado único, seja nos movimentos com terceiros. Muitos outros benefícios e riscos, vantagens e inconvenientes, podem ser detectados. Mas há factores de ambiente, questões de cultura, efeitos de proximidade e consequências de pertença a uma comunidade que dificilmente se quantificam, mas que são indispensáveis para avaliar globalmente estes 25 anos.
Valores, ideias, costumes e comportamentos têm inestimável valia para a construção da vida colectiva e para o estabelecimento de regras de convívio. A democracia, cuja solidez tem evidentemente relações com o desenvolvimento económico e social, tem outras origens e outros fundamentos que não são apenas do domínio do vigor económico. O gosto pela liberdade, a procura da verdade, a atracção pela ciência e a inclinação para a expressão artística podem ser mais fáceis ou mais acessíveis com o bem-estar económico, mas a sua génese está noutro sítio, é de uma outra natureza. A tolerância, o respeito pelos outros, a solidariedade e a compaixão poderão ser mais reais quando a escassez e a luta pela sobrevivência estão ultrapassadas, mas também aqui se trata de valores que não resultam directamente do desenvolvimento material ou da fortuna.
Todos estes valores, nas suas versões históricas ou actuais, vêm em grande parte da Europa, aqui nasceram, aqui se desenvolveram. Apesar dos períodos negros e mau grado a guerra, a violência e o despotismo que, periodicamente, a Europa alimentou e exportou para o resto do mundo, a verdade é que foi neste continente que uma boa parte da civilização contemporânea e da decência humana encontrou raízes. Foi tudo isto que fomos também buscar à Europa, continente para o qual tínhamos já tanto contribuído, no passado, mas do qual nos afastámos durante longas décadas, séculos talvez.
A proximidade cultural e geográfica. A tradição científica e moral. As implicações religiosas e políticas. A raiz humanista e tolerante. A democracia e a liberdade: eis razões suficientes para que o mundo europeu seja o horizonte do nosso futuro. Mesmo se quisermos olhar e sentir os outros povos e o resto do planeta, melhor o faremos a partir da Europa. O destino português, como nação, como Estado ou como parte de uma comunidade mais vasta, exige vizinhos e parceiros. Sem eles, a solidão é o resultado. Sozinhos, espera-nos uma fragilidade impensável e talvez uma pobreza inimaginável. Quem sabe se também não nos esperam a intolerância e o despotismo.
Será possível, com o que sabemos hoje, imaginar uma nova maneira de estar na União? Evitar os erros das políticas públicas e corrigir a nossa política diante dos nossos parceiros? Será possível imaginar uma União refeita e repensada, capaz de resolver muitos dos problemas que ela própria criou? Podemos conceber uma União que limite e contrarie as ambições hegemónicas? Podemos idealizar uma Europa com inteligência suficiente para formular uma política de coesão? Existe a possibilidade de criação de uma União forte e menos vulnerável a agressões políticas, culturais e financeiras? A todas estas perguntas, respondo afirmativamente. Não é seguro, mas é possível.
Não faço exercício de optimismo. Antes faço profissão de fé europeia. Não conheço continente, mundo, região, cultura ou civilização que mais e melhor nos possa dar e para a qual mais sejamos capazes de contribuir. Como é então possível que, depois de termos visto, nestes últimos anos, a derrapagem europeia e a pusilanimidade da União, ainda possa sobrar energia para preferir a Europa? Pela mesma razão que, depois de conhecermos os erros dos Portugueses, não desistimos de Portugal.
Apesar de tudo, apesar das pretensões de hegemonia, mau grado a luta entre as grandes potências europeias, não obstante a quase ausência de solidariedade entre países membros da União, apesar de tudo, a Europa!
Apesar do egoísmo e da fragilidade, da desigualdade de Estados e da ambição dos interesses, apesar de tudo, a Europa!
Apetece dizer, pensando num grande europeu do Renascimento, “e, no entanto, a Europa”!
e ficam as ligações para o estudo... aqui... e para os comentários... aqui...!

domingo, 20 de janeiro de 2013

mais liminar (?)... este governo é cobarde (!)... antónio barreto dixit... no i...!


"Como viu o relatório do FMI?
Devo dizer que é, em numerosos parágrafos, absolutamente justo, porque revela ou sublinha o que muitas pessoas sabem mas não querem dizer em público. Aliás, há muitas coisas que é o próprio governo que diz, mas faz com que seja o Fundo Monetário Internacional a dizer para não ter de ser o governo a fazê-lo. O que é ridículo, é de um altíssimo grau de cobardia.

Quais são as coisas que todos sabem e não querem assumir?
Sabe-se há muitos anos que tem de haver uma alteração nos funcionários públicos, uma alteração no Estado de protecção social, que há grupos sociais e grupos profissionais que são muitíssimo privilegiados em relação a outros e que vivemos assim durante 20 ou 30 anos, alegremente. Tudo isto é verdade e – eu li-o –, o relatório põe o dedo nessas feridas. Com certeza não são imbecis, não são estúpidos. Toda a gente diz: “Ah, tratam Portugal como se fosse a Indonésia, as Filipinas ou a Costa Rica porque para eles os países são todos iguais.” Não é verdade! Muito do que vem no relatório do FMI está perfeitamente identificado."

para ler a entrevista... aqui.

para ouvir... uma outra... aqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

reflectindo... de uma 'preleção' [estudar em tempos de crise*]... de antónio barreto...!

"TENHO GRANDE prazer e honra em estar convosco neste dia tão especial para os antigos estudantes e futuros profissionais. Em muitos países, este dia é considerado um dos mais importantes da vida de cada um. Desejo-vos felicidades e um longo percurso profissional e pessoal!

Não vou ao ponto de considerar a juventude ou o estudo como período de quarentena ou de estágio, mas há algo disso. Quarentena, como disse um historiador francês, ao falar daquele período em que se não está cá nem lá... Ou estágio, como dizem os vinicultores, quando deixam os seus vinhos a preparar... Mesmo sabendo que os estudantes trabalham cada vez mais e que os trabalhadores são obrigados a estudar, a verdade é que a partir de agora a vida para muitos de vós vai mudar. A vossa participação na vida colectiva adquire hoje novo sentido. A responsabilidade para com a vossa comunidade assume nova feição. A assunção de uma ideia de estratégia e de construção do futuro é agora definitiva e premente. Apesar de saber que a vida adulta e profissional é, para muitos, feita de mudança, pode ligar-se o dia de hoje ao fim de uma longa transição. Os sentimentos essenciais de preparação, investimento, urgência, esperança e independência vão evoluir, conhecer novas formas.

Para alguns, o estudo foi um prazer. Para outros, um sacrifício. Para uns foi fácil. Para outros, uma corveia, um fardo a exigir árduo esforço. Quase todos se terão sentido adiados, em preparação, em permanente processo de diferimento. A todos direi o mesmo: foi uma decisão justa! Estudar e aprender é certamente o que de mais certo fazem e fizeram até hoje.

Já ouço vozes que murmuram nesta sala. Então e o desemprego? E a crise económica? E a falta de saídas profissionais? Só vos posso dizer em palavras simples: sem estudos, sem diploma, sem grau, seria pior. E quem o não tivesse, arrepender-se-ia toda a vida.

Apesar das frustrações actuais, mau grado o desemprego de milhares de licenciados e graduados, não obstante a incerteza que parece dominar a nossa existência contemporânea, uma preparação cultural, profissional e técnica é de indiscutível valia. Tiveram razão os que insistiram e persistiram. Sabe-se hoje que um graduado ou titular de um qualquer diploma superior tem muitas mais possibilidades de encontrar emprego, de formar uma empresa ou de criar a sua própria actividade independente, do que outra pessoa sem grau ou diploma. Há países em que a razão é de um para cinco, isto é, o diplomado tem cinco vezes mais possibilidades de encontrar o seu emprego do que o que não fez estudos superiores.

Vale a pena determo-nos um pouco mais nesta questão do emprego e do desemprego dos universitários e dos titulares de diplomas de estudos superiores. Que pensar do desperdício de recursos e da frustração dos licenciados que, um ano depois do seu grau, ainda hoje trabalham em “call centers”? Como olhar para esta enorme despesa, seja das famílias, seja do Estado, com uma preparação que nem sempre tem saída? Qual a racionalidade deste investimento que tantas vezes parece não ter retorno? É imaginável, em tempos de crise, baixar drasticamente o esforço de estudo e aprendizagem? É aconselhável, em tempos normais ou de dificuldades, planificar os estudos, isto é, formar e preparar apenas as pessoas que poderão ter emprego e que correspondam às necessidades da sociedade, das empresas e das instituições?

As minhas respostas a estas perguntas são todas negativas. Por várias razões. A primeira é porque se trata de tarefa absolutamente impossível. Por mais sofisticadas que sejam as técnicas de previsão, por mais rigorosos que sejam os métodos de ponderação da incerteza, nunca foi possível prever as necessidades profissionais com dezenas de anos de antecedência. Ora, é disso que tratamos: das necessidades económicas, sociais e técnicas de uma geração em relação à seguinte. Em educação, quando planificamos, é para gerações, não para dois ou três anos. Regimes ditatoriais, Estados que se julgavam omniscientes e governos convencidos que dominavam o futuro tentaram, mas nunca conseguiram. Ao decretar hoje que precisamos, dentro de vinte ou trinta anos, de dois mil médicos, três mil advogados ou quatro mil engenheiros, estamos a fazer o necessário para cometer um erro difícil de corrigir. Nenhum dos métodos seguidos até hoje, seja a planificação central, seja a total liberdade de escolha (ou a “mão invisível”, como se poderia dizer...) produziu uma qualquer solução para este problema. Mesmo em Portugal, que não tem ditadura, planificação ou omnisciência, podemos comparar duas tradições. A do planeamento, como é o caso da Medicina e da Enfermagem; e as da “mão invisível”, nos casos de muitos cursos como sejam o ensino, a sociologia, a comunicação social, as relações internacionais, o jornalismo, os recursos humanos e a gestão de empresas. No primeiro caso, a insuficiência é absurda e o recurso a profissionais estrangeiros é permanente. No segundo caso, o desemprego é abundante e a frustração quase geral.

Que fazer então? A meu ver, simplesmente deixar a sociedade ajustar-se, permitir que as decisões sejam tomadas pelos próprios, fazer com que a formação seja a mais aberta possível e a mais flexível que se imagina. Ao mesmo tempo, organizar o acesso aos estudos e às profissões de modo a não deixar degradar a qualidade das formações e a promover o rigor. Estudar é certamente um direito social; mas também é uma faculdade ligado ao mérito. E não esqueçamos nunca que a formação técnica e cultural é ela própria geradora de novas aspirações e novas necessidades.

De qualquer maneira, o critério essencial para a organização dos estudos superiores não é para mim o da adequação às necessidades económicas e empresariais do futuro. Muito mais importantes são os critérios ligados ao progresso humano, à liberdade e à autonomia dos cidadãos; ao desenvolvimento da ciência e da cultura; e à promoção do conhecimento e da procura da verdade.

Por outro lado, o desígnio essencial, o objectivo mais importante do ensino e da formação superior não é o da aprendizagem de uma profissão e de uma técnica, critérios certamente interessantes, mas não suficientes. O decisivo numa formação superior é a cultura geral, o raciocínio e o método. Numa expressão simples: aprender a pensar! Por mais sofisticadas e operacionais que sejam as técnicas aprendidas e dominadas, é a capacidade de raciocínio, de relação entre disciplinas e abordagens, de análise e de crítica, de adaptação a novas situações, de inovação e de interrogação, que dá conteúdo e missão ao ensino superior. Qualquer ofício, qualquer profissão aprendida com o enquadramento da cultura geral e da interdisciplinaridade própria do ensino superior adquire uma versatilidade e uma polivalência de incalculável valor.

Esta linha de pensamento conduz-nos a outro aspecto bem actual. Na Europa em geral e em Portugal em particular (tal como em mais dois ou três países mediterrânicos), vivemos um tempo de crise e dificuldade que tem levado a políticas de austeridade, de poupança e de contenção de despesas. Tanto despesas públicas, como privadas. Tanto despesa como crédito. O endividamento das famílias, das empresas, dos bancos e das Administrações Públicas é de tal monta que ninguém escapa aos programas ditos de austeridade e de contenção. Portugal é um dos países mais atingidos e mais empenhados nesse esforço. A este propósito, convém perguntar: como administrar esse programa de austeridade? Que sectores devem ser mais atingidos e mais poupados? Será que a educação e a formação devem estar incluídas nos sectores onde a austeridade se faz sentir? Será que todos os sectores da vida colectiva devem ser atingidos por igual? Será que faz sentido poupar alguns sectores? Quais? Com que critérios?

A minha resposta é a seguinte. Tal como os grupos humanos, as classes sociais, as instituições e as empresas, todos os sectores devem ser objecto de poupança e austeridade. Todos os sectores devem sobretudo ser objecto de reforçada luta contra o desperdício. Mas alguns sectores devem ser protegidos de um excesso de austeridade. Sem privilégios, devem ser objecto de algum esforço. Entre esses, a educação sem qualquer dúvida. Porquê? Porque é, a prazo, um sector com capacidade reprodutiva e com potencialidade para proporcionar um retorno. Direi também o mesmo na sua formulação negativa: porque é um dos sectores em que um recuo geracional mais desgaste ou mais estragos produziria. Um excesso de austeridade, em tempos de crise, pode simplesmente ser irrecuperável na geração seguinte. Pode deixar cicatrizes que dificilmente saram. E diminuirá seguramente as próprias capacidades e energias para ultrapassar a crise.

É possível que outras pessoas digam algo de parecido a propósito de outros sectores, da saúde à segurança social, do emprego à segurança pública, do ambiente à energia ou da indústria à produção alimentar. É possível, sim. Isso faz parte do debate democrático a que só uma decisão informada e pública pode dar continuidade e solução. Ora, a verdade é que não sentimos isso neste nosso actual tempo de crise. Que se saiba, que seja conhecido e partilhado por muitos, os Portugueses não realizaram nem assistiram a um debate sobre as alternativas e as prioridades. Têm assistido, isso sim, a uma sucessão de decisões e medidas destinadas a poupar e conter a despesa em todos os sectores imagináveis, sem que haja, a meu ver, a perspectiva que aqui sublinhei, a de preservar as situações que podem melhor permitir a recuperação ulterior.

Gostaria ainda de alertar para um segundo ponto: esta ideia de que estudar em tempos de crise é aconselhável, recomendável e ainda mais necessário do que habitualmente parece aplicar-se exclusivamente às autoridades e aos poderes públicos. A maneira como exprimi o meu ponto de vista pode sugerir isso. Se é esse o caso, aproveito para corrigir. Esta ideia, na minha opinião, diz respeito a toda a gente, públicos e privados, pais e filhos, escolas e famílias, empresas e instituições. Incluindo estudantes. Em tempos de crise, o melhor que podem fazer, para além de procurar e encontrar soluções de sobrevivência própria e dos seus, o melhor que podem fazer, dizia, é estudar e preparar o futuro, seja este o tempo de duração da crise, sejam os tempos que virão depois. E, para isso, o esforço público não é suficiente. O contributo das famílias é indispensável. Não só em termos quantitativos, mas também qualitativos. Na verdade, a decisão de cada um é mais inteligente e mais sensível do que a regra burocrática e administrativa, universal e abstracta. A regra, do ponto de vista dos direitos, é fundamental. Mas, vistas as coisas do lado da vida real e dos percursos familiares e pessoais, a decisão individual e concreta é essencial.

A este propósito, desejo referir uma outra questão relativa ao contributo das famílias. Não se pense que este é apenas ou deve ser apenas financeiro. A participação das famílias na vida escolar e académica deveria ser muito superior à que é actualmente. Mais eficiência, mais rigor e menos desperdício seriam talvez de esperar. Mas também escolhas mais certeiras. E organização de cursos com mais racionalidade. A este propósito, sabemos que a situação em Portugal não tem evoluído bem, nem no melhor sentido. O sistema escolar português tem uma tendência acentuada para expulsar da escola os pais, tal como as comunidades e as empresas. Ora, essa evolução, sobretudo em tempos de crise, é negativa. O envolvimento das comunidades e o empenho permanente dos pais são, a meu ver e de acordo com experiências conhecidas em outros países ou em certos estabelecimentos privados portugueses, essenciais para estruturar escolas com melhor performance e mais adequadas às necessidades reais das pessoas. Devo dizer mesmo, no que aos pais diz respeito, que em Portugal é desconhecida a cultura dos “deveres dos pais” perante a escola dos filhos. Parece que a pressão se faz no sentido de que a escola os deve substituir em todas as tarefas e missões. Os próprios pais, muitas vezes, pretendem delegar a totalidade dos processos educativos na instituição. Chega-se mesmo a falar da “formação integral do cidadão” como missão da escola, o que me parece errado sob todos os pontos de vista. À escola compete muito, mas não tudo. E talvez nem sequer a maior parte.

Como dizia no início desta exposição, não acredito na capacidade política de prever as necessidades profissionais, técnicas, culturais e económicas para as próximas gerações. Mas acredito na capacidade humana de decidir sobre a sua própria vida e as suas expectativas. Uma experiência que conhecemos bem é a do “numerus clausus” para os estudos de Medicina. Por um lado, creio que o princípio do dispositivo do “numerus clausus” é positivo. Com efeito, o acesso ao ensino superior, ainda por cima a estudos especialmente caros, condicionado pelo mérito parece-me certo. É necessário merecer frequentar os graus mais elevados de formação e ensino, não se trata meramente de um direito de cidadão ou de um direito social. O “numerus clausus” é um dos mecanismos conhecidos para submeter o acesso às escolas superiores a um critério de mérito.

Por outro lado, o dispositivo, tal como o conhecemos, levou a consequências desastradas. Falta de médicos em vários sectores. Dificuldade em expandir tanto a saúde pública como a medicina privada. Partida para o estrangeiro de centenas de estudantes de medicina. E problemas muito sérios com a acumulação de vínculos profissionais públicos e privados. Mas sobretudo criou uma situação insustentável: estudantes da categoria de “Muito bom”, dezassete ou dezoito valores, são recusados à entrada da faculdade da sua escolha! Um país que assim procede não está bem! Como é sabido, o que acontece em Medicina pode acontecer também noutras áreas académicas. Muito está em causa. É dificultada a reposição de uma geração de cientistas e profissionais. Ficam em crise o direito e as expectativas de quem merece ter acesso às instituições de formação superior. É desvalorizada a ideia de justiça e de recompensa para quem cumpre os seus deveres e alimenta fundadas esperanças. Sem esquecer que o acto de formação e aprendizagem cria por si uma dinâmica de crescimento e progresso. Desengane-se quem pense, por exemplo, que Portugal fica a ganhar com os que vão estudar Medicina para Bucareste, Salamanca, Barcelona ou Praga. Desse modo, alegadamente, poupar-se-iam recursos portugueses, ficando o país a lucrar, depois, com o respectivo regresso. Na verdade, além das frustrações e do desperdício de tempo, o país perderia os efeitos muito positivos de uma disciplina em expansão e desenvolvimento. Sem falar, com certeza, no improvável regresso de muitos desses emigrantes.
Volto ao ponto de partida. Deixo-vos os meus votos de felicidade e de bom trabalho. A maior parte dos vossos estudos superiores desenrolaram-se em pleno clima de crise e de dificuldades. Não sei quais foram os sentimentos predominantes durante estes anos. Imagino que tenham sido de incerteza. É natural. Mas quero dizer-vos mais uma vez: tiveram razão! Parabéns e felicidades."

- (*) - ISLA – Lisboa, 30 de Maio de 2012
 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

coisas... da coesão social... de antónio barreto...!

"...

O desemprego a níveis jamais vistos, a pobreza em expansão, os sistemas de protecção em crise de recursos, os milhares de falências e insolvências e a iminente ruptura de serviços públicos estão aí a confirmar o realismo do veredicto acima resumido. Poupanças de vidas inteiras perdidas! Vidas activas terminadas aos quarenta anos! As políticas parecem recuar perante a enormidade. Os Estados revelam fragilidades insuspeitas. A União Europeia e outros arranjos internacionais, ainda há duas ou três décadas as partes mais visíveis do sonho optimista e voluntarioso, demonstram não estarem preparados para defrontar uma crise omnipresente.

Destes anos, um único valor parece ter saído fortalecido: ganhar, ganhar a todo o custo, vencer, vencer a todo o preço. Transformar o vizinho em rival e destruir o rival. A competitividade e a produtividade, necessárias, com certeza, importantes, certamente, deixaram de ser instrumentos para se tornarem fins em si próprias. A última palavra consiste em ganhar mais que todos. O que quer dizer ganhar à custa de todos.

A capacidade destas doutrinas para desumanizar a sociedade é ilimitada. A pobreza é agora um merecido castigo. A desigualdade, uma condição necessária à vitória dos melhores. A injustiça, uma desculpa dos fracos. A Europa, durante séculos relativamente imune a estes valores, deixou-se contagiar, talvez por uma certa lenda americana. É hoje frequente assistirmos a situações em que a mais dura eficiência e o mais ácido pragmatismo dominam qualquer veleidade humana de compaixão ou solidariedade. De beleza ou de cultura.

..."
daqui.