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quinta-feira, 11 de junho de 2015

a escola [ainda] no séc. xix...?


"Para Viviane Senna, sistema educacional atual prepara alunos para mundo 'que não existe mais'.

A psicóloga Viviane Senna poderia ser conhecida apenas por ser a irmã do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, morto em maio de 1994. O trabalho que vem realizando há duas décadas à frente do instituto que leva o nome do irmão, porém, fez com que também se tornasse uma das figuras mais proeminentes no debate sobre educação no Brasil.

O Instituto Ayrton Senna (IAS) foi idealizado pelo piloto, mas só saiu do papel após sua morte, em novembro de 1994, quando sua família cedeu à entidade os direitos sobre a imagem de Senna. Desde então, vem atuando em projetos para melhorar a eficiência de instituições de ensino em todo o país, organizando desde programas de reforço escolar e capacitação de professores até sistemas de gestão de recursos.

Seus projetos atendem a cerca de 2 milhões de crianças a cada ano, sendo em parte financiados pelo licenciamento de produtos da grife Senna - que vão de capas de smartphone a macarrões instantâneos, relógios e artigos de papelaria.

No mês passado, o instituto abriu uma nova seara de atuação com a inauguração do chamado "Edulab21", um laboratório de inovação dedicado a produção e disseminação de pesquisas científicas que possam contribuir para a formulação de políticas públicas para a educação.

Entre seus integrantes e colaboradores estão o economista Ricardo Paes de Barros, um dos arquitetos do programa Bolsa Família (agora no IAS), o economista Daniel Santos, da USP, e os psicólogos Filip de Fruyt, da Universidade de Ghent, Oliver John, da Universidade da Califórnia, e Ricardo Primi, da Universidade de São Francisco.

"A ideia é gerar e disseminar conhecimentos que possam ajudar a levar o século 21 para dentro da escola", explica Viviane. Em uma cerimônia para promover a iniciativa, a psicóloga explicou para a BBC Brasil por que acredita que o sistema educacional parou no século 19 e o que é preciso fazer para resolver esse problema.




Marisa Caduro/Folhapress A criança não pode apenas decorar conceitos ou receber informações do professor. Precisa desenvolver um pensamento crítico e um raciocínio lógico aguçado, desenvolver sua capacidade de inovar, ser criativa e flexível e de resolver problemas Viviane Senna





Confira:

BBC Brasil - Por que a senhora diz que a escola está ficando para trás?
Viviane Senna - Se pudéssemos transportar um cirurgião do século 19 para um hospital de hoje, ele não teria ideia do que fazer. O mesmo vale para um operador da bolsa ou até para um piloto de avião do século passado. Não saberiam que botão apertar. Mas se o indivíduo transportado fosse um professor, encontraria na sala de aula deste século a mesma lousa, os mesmos alunos enfileirados. Saberia exatamente o que fazer. A escola parece impermeável às décadas de revolução científica e tecnológica que provocaram grandes mudanças em nosso dia a dia. Ficou parada no tempo, preparando os alunos para um mundo que não existe mais.

BBC Brasil - O que há de tão errado com a educação hoje?
Viviane Senna - Um dos problemas é que o professor não tem a menor chance de ser a "fonte do conhecimento", com o conhecimento se multiplicando de forma exponencial, em questão de segundos. Até o século passado, uma descoberta revolucionária demorava décadas para acontecer. Hoje, temos uma grande inovação a cada cinco anos. Só neste ano a previsão é de que sejam produzidos mais conhecimentos e informações do que nos últimos 5 mil anos. Na prática, isso significa que se um aluno começa um curso técnico de quatro anos, por exemplo, quando chega ao terceiro ano, metade do que aprendeu no primeiro já está defasado."


se estiver interessado pode ler o resto da entrevista... aqui.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

coisas da (des)educação (?)... agora vamos aos epifenómenos educativos...!


no i 'online'...


"Vem aí a revolução no ensino, e a mudança, como não podia deixar de ser, está a dar os primeiros passos na Finlândia – o país que, apesar de tudo, continua a ser “o exemplo a seguir” na Europa e no mundo. O ensino por disciplinas é coisa do passado. Agora chegou a altura de aprender por “tópicos”, e o modelo já tem um nome: o ensino de “fenómenos”. A experiência--piloto começou a ser introduzida há dois anos em algumas escolas da capital finlandesa. A responsável pela educação para jovens e adultos em Helsínquia põe a fasquia alta. “Vai ser uma grande transformação na educação da Finlândia, que estamos apenas a começar”, contou ao jornal britânico “The Independent” Liisa Pohjolainen. A questão, explica Pasi Silander, responsável pelo desenvolvimento da cidade, é que o país precisa de “um novo tipo de educação”. 

A ideia é cortar com o modelo tradicional, em que os alunos saltam de uma disciplina para a outra ao longo do dia de aulas sem que os conhecimentos sejam relacionados. Em vez de aprenderem Biologia e depois Português para acabarem a tarde com Matemática, os alunos passam a aprender pelos tais “fenómenos”. Adelino Calado, director das Escolas de Carcavelos, em Cascais, exemplifica o processo: “O professor pergunta aos alunos o que é preciso para construir uma casa.E eles respondem que é preciso fazer cálculos. Ora isso envolve Matemática. E depois, o que será preciso? Conhecimentos de Física, e por aí adiante.” No final do exercício terão sido abordadas uma série de áreas do saber e o professor serviu de “orientador” da aprendizagem dos alunos. 

Desafio maior: mudar mentalidades Mas Carcavelos? Porquê? A pergunta é legítima, mas tem uma resposta simples. É que no próximo ano três escolas do agrupamento a que Adelino Calado preside vão embarcar num “modelo semelhante” ao que o governo finlandês espera já ter sido alargado a todo o país até 2020: “Já há muitos teóricos a defender a tese de que o ensino deve ser feito por áreas de saber”, explica o director. “O problema é que estas mudanças obrigam a mexer na cabeça das pessoas, e mudar mentalidades é o maior desafio de todos”, diz Adelino Calado. Mudar culturas, mas mudar também a forma como a sociedade olha para a classe docente. “É preciso que o Ministério da Educação e os pais acreditem que os professores têm a capacidade de orientar os alunos, porque enquanto não se acreditar nada feito”, defende. 

A evolução implica adaptação, sobretudo por parte dos professores. Em Helsínquia os docentes estiveram em contacto com especialistas de diferentes áreas para reforçar conhecimentos que depois ajudaram a pôr em prática o novo modelo de ensino. “É difícil levar os professores a começar e dar o primeiro passo, mas os que adoptaram a nova abordagem dizem que não conseguem voltar atrás”, destaca Pasi Silander, o responsável pelo de-senvolvimento da capital finlandesa. 

A forma como a “reformatação” dos professores foi feita teve particular importância. O presidente do Instituto Superior de Ciências Educativas, Luís Picado, explica que houve “o necessário envolvimento e formação para participarem num projecto de generalização progressiva” e, dessa forma, os docentes sentem que “são parte da evolução e que esta se processa porque faz sentido, visando reforçar a posição da Finlândia nos rankings educativos”. 

É pouco provável – para não dizer impossível – que Portugal venha a embarcar de forma alargada no mesmo modelo. “Estamos no porto, de costas para o mar, e nem sequer nos damos conta de que o barco já partiu”, ilustra Joaquim Azevedo. O responsável pela primeira comissão especializada permanente Políticas Públicas e Desenvolvimento do Sistema Educativo, do Conselho Nacional de Educação, é crítico em relação à ausência de pensamento sobre o ensino. “A escola pública está a tornar-se uma escola ocupacional, à privada cabe ensinar e é grave que os dirigentes políticos estejam tão pouco conscientes do que se está a passar”, aponta. 

Joaquim Azevedo considera contudo que a mudança em curso na Finlândia não é assim tão radical. E Luís Picado concorda. O especialista em ciências educativas destaca que “as disciplinas tradicionais vão continuar, mas com maior multidisciplinaridade no ensino e em complemento com as áreas de competências transversais (temas), que serão trabalhadas em harmonia com as disciplinas”. 

O modelo traz ainda assim vantagens aos alunos. “É altamente provável que os alunos vão exponenciar uma visão integrada e de compreensão do sentido das aprendizagens, que se tornarão mais significativas e ligadas aos desafios sociais”, acrescenta Luís Picado. Desde logo porque aquilo que aprendem na sala de aula – tenha essa “sala” a forma que tiver – estará muito mais ligado à realidade concreta, precisamente, dizem os responsáveis finlandeses, para pôr termo à pergunta: “Para que é que estou a aprender isto?”"

sexta-feira, 2 de março de 2012