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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

coisas da educação (?)... 'um novo rumo para a escola'...!


no dn 'online'...

"Assim sendo, do que se trata hoje é de procurar, com os olhos postos nesta dinâmica, reconciliar essas duas dimensões. Até porque a transmissão dos saberes, se deixou de dominar a escola, continuou contudo a revelar-se decisiva na formação dos indivíduos. Talvez de uma forma mais invisível, como afirmou Marcel Gauchet, mas ela continua insubstituível em qualquer tipo de autoconstrução individual, porque o ser humano só consegue olhar para o futuro assumindo-se como um ser de cultura e de história.

Por isso, contra as tentações de retorno a qualquer forma de transmissão autoritária, o que é preciso é perceber em que é que consiste a atividade de aprender e construir com ela uma nova aliança. Para o conseguir, impõe-se assumir que aprender não é brincar, mas uma atividade em descontinuidade com a experiência natural da criança ou do jovem - e, portanto, difícil. Aprender a ler, a escrever ou a contar, bem como aprender matemática, física ou geografia, é sempre um esforço para entrar em mundos já constituídos, que num primeiro momento só podem parecer estranhos, abstratos, artificiais, etc..

Mas o essencial do aprender consiste justamente na progressiva dissipação desta dificuldade pela apropriação de significados que não se conheciam e que, pela sua anterioridade e objetividade, nunca o indivíduo poderia conseguir só por si. (O exemplo da própria língua ajuda a perceber isto: ela é anterior e exterior a cada indivíduo, que tem de se apropriar dela como de uma herança para poder constituir-se como sujeito consciente, responsável e autónomo.)

Assim compreendida a nova aliança entre a aprendizagem e a transmissão, ela pode dar um novo rumo à escola. A transmissão deixa de ser uma inculcação para se tornar uma iniciação, que se revela vital para libertar e estimular a faculdade de aprender, viabilizando o acesso do aluno aos múltiplos universos dos saberes.

Deixo para o fim um ponto crucial: o que faz da escola uma instituição singular é que ela tem a mudança no seu interior, isto é, nos alunos. E para eles as novas tecnologias são o seu mundo natural, em que - e esta é talvez a maior mudança - eles têm uma cada vez maior iniciativa.

Isto conduz a uma escola mais efervescente, mas também mais caótica, dada a multiplicidade das referências e a inexistência de critérios fiáveis de ordenação e de verificação das informações e dos conhecimentos: é isto que torna o papel do professor diferente, mas vital.

E mais vital do que nunca, não só porque ele agora tem de saber responder a questões imprevistas mas também de pôr ordem no caos de uma autodaxia generalizada, revitalizando a escola como instituição central de confiança nas sociedades contemporâneas. Não tenhamos dúvida, a era digital vai aumentar de um modo sem precedentes a exigência escolar, o que é preciso é estar à altura desse desafio."
 

aqui.

sábado, 12 de janeiro de 2013

opinião... (da educação)... a pergunta que interessa... de manuel maria carrilho... no dn...!


"A situação é bem complexa. Sobretudo porque em poucos anos, no espaço de duas ou três décadas, as evidências que ninguém discutia, como se constituíssem os robustos alicerces da sociedade e de algumas das suas instituições mais nucleares, parecem ter sido completamente pulverizadas.

Evidências como a da afinidade que existia entre a família e a escola, que se traduzia numa convergência de visão sobre as funções de uma e outra. Evidências como a da ascendência natural dos adultos em relação às gerações seguintes, que viabilizava a transmissão de valores e de conhecimentos. 

Evidências como a de os saberes serem um valor individual e coletivamente ambicionado, e como tal reconhecido por todos. Evidências como a de a escola ser uma instituição vocacionada para criar entre os seres humanos uma comunidade que se fundava, justamente, na partilha desses saberes.

Seria fácil continuar, mas estes exemplos bastam para se ter logo uma ideia clara do colapso em dominó que atingiu certezas tão enraizadas, e que pareciam tão sólidas: a afinidade entre a escola e a família deu lugar a um atrito belicoso, que se agrava constantemente numa espiral de incompreensões recíprocas.

A ascendência dos adultos sobre os mais novos esfumou-se no culto de um "juvenilismo", ora simplesmente patético ora perigosamente despótico, que bloqueia qualquer efetiva transmissão de valores e de conhecimentos.

E os saberes perderam simultaneamente a legitimidade escolar, cultural e institucional que os caracterizava, permanentemente obrigados a justificarem-se perante quem, muitas vezes, não vê neles qualquer significado...

Mas mais ainda do que o colapso destas evidências - em que afinal assenta, é bom lembrá-lo, todo o dispositivo escolar ocidental construído no último século -, o que é verdadeiramente surpreendente é que ele seja tão pouco pensado, nas suas causas mais precisas como nas suas consequências mais globais.

Como se afinal se tratasse apenas de um problema pontual, localizado, que apenas dissesse respeito às instituições escolares. Mas não é, e para compreender estas transformações é preciso perceber de onde elas vêm.

Ora elas não nasceram no interior da escola, ao contrário do que muitas vezes se diz, e do que em geral as políticas dos mais diversos governos no domínio do ensino parecem pensar. É de resto por isso, porque se têm revelado incapazes de pensar e compreender a origem, a natureza e a evolução dos problemas do ensino, que elas têm conduzido aos fiascos que todos conhecemos bem.

Os problemas que o ensino enfrenta nasceram, e continuam a nascer, fora dele: na sociedade e nas famílias, nos media e nas novas tecnologias. E eles só terão solução quando forem formulados, e bem equacionados, nesse quadro de conjunto.

Num quadro que, ao contrário do que se passa hoje, consiga formular uma ideia clara e global da sociedade em que vivemos, e daquela em que queremos viver, e em que se consigam "encaixar" de um modo minimamente coerente as principais dinâmicas que hoje a atravessam, e que têm alterado profundamente o significado da escola.

Num quadro em que, ao contrário do que hoje se passa, as famílias assumam a função de educação como eminentemente sua, prévia e indispensável ao cumprimento da missão de ensino da escola: reinventar uma articulação diferenciadora e responsável entre as instituições familiar e escolar, que reconduza a educação aos pais e o ensino aos professores, é hoje absolutamente vital.

Num quadro em que, ao contrário do que se passa hoje, se avaliem detalhada e realisticamente as consequências do facto de a generalidade dos jovens passar mais tempo nos media do que na escola (só a ver televisão, a média anda hoje nas três horas e meia, entre os 4 e os 14 anos), e viver cada vez mais, e mais intensamente, no mundo virtual do que no mundo real.

Infelizmente, é a incapacidade para verdadeiramente se repensar a escola nos novos contextos - familiar, mediático e tecnológico - do nosso tempo, que continuam a caracterizar as políticas oficiais e a maioria dos debates sobre o assunto, que passam sistematicamente ao lado do essencial.

E o essencial é ser capaz de responder à desorientação que decorre da multiplicação cacofónica de objetivos que se exigem à escola. É ser capaz de responder à pressão que literalmente varre para a escola todos os problemas sociais, familiares, etc., numa lógica que cada vez mais faz dela um dos principais bodes expiatórios do nosso tempo. É ser capaz de responder à desvalorização dos saberes que abre um abismo de equívocos entre as gerações, de cuja articulação convergente depende ainda toda a "utopia escolar", e não só.
Respostas que, naturalmente, dependem sempre dos projetos políticos do momento, da sua tacanhez ou da sua audácia. É isto que faz da educação um dos mais fascinantes laboratórios da democracia contemporânea."

aqui.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

crónica... (d)o que é uma alternativa?... [ora aqui está uma boa pergunta]... de manuel maria carrilho... no dn...!

"Como chegámos aqui? E agora, como saímos daqui? São estas as duas perguntas fundamentais a que devemos procurar dar respostas claras, se queremos resolver de facto os nossos problemas. Mas sem a compreensão da história que nos conduziu à situação atual, e sem um horizonte de hipótese que permita combatê-la, ficaremos presos num presente em que a indignação acabará manietada por um conformismo cada vez mais radical.

É de resto nesta armadilha que estamos a viver. É que o descrédito da política, nomeadamente a sua absurda persistência numa linha de contínuas promessas cada vez mais sem sentido, e a sua narcísica teimosia numa pose de omnipotência sem qualquer pedagogia (já para não falar da sua incompetência) colocou os políticos, e colocará cada vez mais a própria política, na posição de bodes expiatórios da crise atual.

Posição que deixa na sombra os outros grandes responsáveis pela espiral critica em que todos vivemos, mas que "eles" vivem com a lucidez aflita dos fins de império, de quem sabe que tudo está preso por arames e que é preciso aproveitar a ocasião até ao tutano. É a fase do "fartar vilanagem", típica das épocas em que quem está habituado a ganhar muito pensa - errada ou acertadamente, pouco importa - que em breve pode perder tudo.

No fundo, a chave da interrogação que se exprime na questão de saber se há, ou não, alternativas, encontra-se nessa ligação entre os dois planos, o do que nos trouxe aqui, o do que nos tire disto. Claro que toda a gente deseja que haja alternativas, até porque nesta expressão está implícito que se trata de algo necessariamente melhor do que aquilo que existe atualmente.

Mas esse desejo, essa convergência cada vez mais geral requer, contudo, condições que estamos longe de reunir. É nessas condições que, para lá do blá-blá mediático, vale a pena pensar. E elas colocam-se fundamentalmente a dois níveis, que condicionam completamente todas as saídas nacionais, o da globalização e o da União Europeia.

A crise que enfrentamos deve-se justamente, em boa parte, ao facto de não termos sabido avaliar bem e a tempo os incontornáveis desafios que tanto a globalização primeiro, como a moeda única depois, colocavam a um país com as características estruturais de Portugal.

Em ambos os casos mergulhámos na ilusão de poder ter "sol na eira e chuva no nabal", beneficiando com as suas vantagens e ignorando os seus custos. Ainda por cima, num contexto em que a moeda única, que deveria ter sido a alavanca de uma Europa com ambições de potência mundial, acabou por se tornar o instrumento da sua progressiva debilitação no quadro global, ao serviço dos mais variados interesses, corporativos e nacionalistas.

E enquanto os cidadãos se entregavam ao consumismo mais desenfreado de sempre, estimulados ora com pelas miragens do capitalismo popular, ora pelas ilusões do socialismo a crédito, o que na verdade se instalou por todo o lado foi o que Raffaele Simone chamou, já em 2008, um "monstro suave", que passou a dominar o mundo através da generalização do modelo "civilizacional" do ultraliberalismo. É por isso que hoje não existe de facto nenhuma alternativa disponível, com um mínimo de consistência ideológica ou de solidez pragmática.

E se a queremos construir, teremos que evitar as armadilhas que, justamente, a têm inviabilizado. Pensando a sério, por um lado, a globalização na multiplicidade dos seus efeitos, e nomeadamente em tudo o que se refere à tensão entre a diminuição das desigualdades entre os povos e a competitividade salarial que ela gera. Não é fácil, não foi certamente por acaso que a esquerda deixou de ser internacionalista!...

E pensando também, por outro lado, a exigência federal europeia, não só com legitimidade democrática mas também com capacidade para questionar os dogmas da ortodoxia livre-cambista, abrindo o debate sobre o protecionismo estratégico que, na base de uma "reciprocidade calculada", cada vez mais se revela uma condição sine qua non da afirmação da Europa no mundo. Também aqui nada é fácil, mas desde 1994 que Emmanuel Todd avisou que o euro, e a união monetária que então se preparava, se revelariam o "protecionismo dos imbecis"!...

Por fim, qualquer alternativa ao statu quo tem ainda que reconhecer e saber lidar com as novas características do individualismo contemporâneo, em particular o modo como a generalizada divinização do mercado o reformatou em todos os planos, amplificando a sua componente subjetiva ao mesmo tempo que atrofiava a sua dimensão coletiva. É isto que faz hoje do anticapitalismo um pathos, um mero estado de alma com tão poucas consequências.

Nestas condições é muito difícil, para não dizer impossível, que as multidões expressivas que enchem todos os ecrãs se transformem num qualquer coletivo capaz de operar alguma transformação significativa. Porque o que faz a diferença entre uma multidão e um coletivo é, justamente, a existência de convicções partilhadas que convirjam - como se um íman as agregasse - num projeto capaz de mobilizar as pessoas. Dando sentido à sua vida, por mais dura e difícil que ela seja. É isto uma alternativa
."

sábado, 22 de setembro de 2012

opinião... (das evidências)... indignados ou encurralados... de manuel maria carrilho... no dn...!

"Tudo em convulsão ou já em decomposição? - eis a questão que melhor sintetiza as consequências do brutal discurso de Pedro Passos Coelho do passado dia 7, que veio alterar radicalmente, e com consequências de momento imprevisíveis, as relações entre os portugueses e o Governo.

Isto aconteceu porque esse discurso revelou um primeiro-ministro incompetente, dogmático e autista. Características que apareceram como se da queda de uma máscara se tratasse, revelando a outra face de um político que, em geral, era visto como um homem esforçado, aberto e tolerante.

Despoletou-se assim a cólera dos cidadãos, uma cólera alimentada por uma inédita sucessão de deceções e de injustiças, que a ação do Governo foi suscitando durante o seu primeiro ano de vida. E, como ensinou Aristóteles, há mesmo uma cólera "boa", que é a que é provocada pelo sentimento de injustiça e pelo desejo de justiça.

E agora? Bom, agora este governo parece ferido de morte, isto é, afetado por um generalizado descrédito, que pode não ter redenção possível. O primeiro-ministro enfrenta por isso uma verdadeira prova de vida, a que só poderá ter alguma hipótese de sobreviver se conseguir libertar-se dos seus dois números dois: Vítor Gaspar e Miguel Relvas.

Foram estes dois ministros, os dois pilares nucleares do Governo de Passos Coelho, que - por razões diferentes, é certo - mais contribuíram para carbonizar o perfil do primeiro-ministro, num caso arrastando-o para a fogueira da imoralidade, no outro fechando-o no forno da mais cega irracionalidade. A questão, a grande questão a meu ver, é a de saber se, sem eles, existe algum Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal.

Uma remodelação, para ter algum sucesso, implica um audaz golpe de asa: um governo a sério, no projeto, na orgânica, na composição, na estratégia e nos protagonistas. Difícil!... até porque a coligação entrou na fase de guerrilha, com o PP a hesitar sobre se quer continuar a ser o garante da aliança, ou o seu sniper.

Tudo isto vai propiciar momentos de grande exaltação ideológica à esquerda radical, com a escassa utilidade de que, infelizmente, tem feito prova. Os dois protagonistas que, contudo, mais pesarão na evolução da situação, são o Partido Socialista e o Presidente da República.

O Presidente perceberá hoje melhor o erro que cometeu ao ter deixado a "rapaziada" do PSD fazer o que queria, pondo entre parêntesis o exercício efetivo da sua autoproclamada autoridade, seja no plano político, seja na vertente económico-financeira - para já não falar de outos registos determinantes, como o social ou o cultural.

O verão 2011 deveria ter sido, como muitas vezes defendi, o da abertura de um ciclo patriótico, de uma legislatura patriótica de que um Presidente da República recentemente eleito por sufrágio universal podia e devia ter feito a pedagogia, abrindo a via a um novo contrato social e político, de que o País urgentemente precisa.

Cavaco Silva tinha a obrigação de ter posto um travão a esta linha de frívolo experimentalismo político, económico-financeiro, social e cultural, que é uma das características mais evidentes dos políticos que pensam poder iludir a ignorância com a imprudência.

Um memorando "milagreiro"? Um governo minimalista, com ministros-chave sem qualquer experiência política? O sonho de "ir além" da troika? A batalha europeia sem quaisquer ideias próprias, ao colo da chanceler Merkel? A concertação social feita nos écrans da televisão? Negociação política em ziguezague e aos supetões? O constante desmentido dos objetivos anunciados? Não, ninguém pode dizer que não houve sinais - nem que eles não eram de molde a fazer o Presidente agir.

Ele preferiu todavia (como muitos outros responsáveis, é bom lembrá-lo) passar o verão a descartar tranquilamente, em todas as intervenções que fez, a necessidade e a possibilidade de mais austeridade, pelo que não se vê como poderia vir agora justificar o contrário. Mas o seu silêncio não é, mais uma vez, um bom augúrio - resta esperar pelo Conselho de Estado.

Tudo isto torna, naturalmente, o papel do Partido Socialista determinante. Consciente das responsabilidades que, com a anterior liderança, o PS teve na deterioração da situação nacional que impôs o plano de resgate, o líder do PS fez até aqui o que podia e devia: mostrar que a política é uma equação que, sem esquecer o passado, implica sobretudo o futuro e se assume no presente.

Perante os fracassos do Governo e da coligação que o sustenta, ser-lhe-á pedido tudo. E tudo é precisamente o que o líder do PS não pode prometer a ninguém. O caminho só pode ser o de preparar uma efetiva alternativa ao desastre dos últimos três anos de governação em Portugal. Nada disto é instantâneo, dá mesmo muito trabalho. Mas essa é a verdadeira via para quem - como acontece com o líder do PS, espero - acredita que, com as políticas, as ideias e os protagonistas que nos trouxeram até aqui, é daqui que nunca sairemos. Só assim, para lá de indignado, o País não fica também encurralado
."

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

crónica... para acabar com o estupor... de manuel maria carrilho... no dn...!

"Vivem-se tempos de estupor, esse sentimento que se caracteriza por manter os seres humanos numa estupefação tal, que os torna incapazes de afastar o mal que os atinge. A rentrée veio, com a sua litania de banalidades, reforçar este debilitante sentimento.

Se olharmos com um mínimo de lucidez para os cinco anos que passaram desde o começo da crise dos subprime, para os quatro anos que já lá vão desde a falência do Lehman Brothers, e para os quase dois anos e meio que temos vivido depois da eclosão da crise grega, o traço que mais fortemente marca todo este período tremendo é, sem dúvida, o da singular mistura de incapacidade e de pusilanimidade dos responsáveis políticos e financeiros, e o da atordoada inação a que ela deu origem.

A tal ponto que parece que o único objetivo, nos seus múltiplos encontros, declarações, cimeiras, etc., é o da teimosa negação da realidade, numa cega e estranha cumplicidade em que, para lá das ideologias, se enroscam todas as artimanhas de sobrevivência política.

Neste contexto, o dilema austeridade/crescimento tornou-se num mero cliché mediático, com os defensores da austeridade a fingirem que ignoram as suas consequências, enquanto os defensores do crescimento fingem conhecer as suas causas.

É isto que tem atirado a União Europeia para uma interminável deriva, entregue à tagarelice mais ou menos oca dos seus dirigentes, que se comportam como se fossem incapazes de acreditar naquilo que dizem, e de agir em coerência com o que sabem. É nesta teia que, infelizmente, François Hollande tem vindo a deixar-se aprisionar, com prejuízo para o potencial político que representou a sua eleição em maio passado.

Foge-se constantemente dos problemas, e é por isso que os estribilhos tomam agora o lugar das ideias. É o que acontece, e de um modo evidente, com as palavras "federalismo" e "crescimento", usadas mais como se fizessem parte de uma prece vodu, do que trabalhados como propostas sérias para o futuro da Europa.

E o tempo passa... o da grande oportunidade do federalismo parece já ter passado, agudizando o impasse de uma Europa que assim se vê cada vez mais condenada à alternativa entre a balbúrdia dos nacionalismos e o diktat do consenso cada vez menos democrático. E do crescimento só se fala no registo do apelo milagreiro, ninguém parece capaz de dizer em que é que consistirá, de onde ele virá ou qual será seu motor.

E muito menos se fala nas causas e consequências de um crescimento que, se até ao fim do século passado se devia em 70% ao mundo desenvolvido, hoje caiu para os 30%, invertendo estes números e deixando para os países ditos emergentes o papel de locomotiva.

Ou de como é que se vai enfrentar o hiato entre os 135 dólares de salário médio diário nos países da OCDE e os 12 dólares que se praticam na China ou na Índia, que ainda dispõem de "bolsas" de centenas de milhões de seres humanos que vivem com dois dólares por dia!...

É por isso que Mário Draghi tem hoje de anunciar, ao arrepio do dogma da austeridade, um qualquer milagre da "multiplicação do dinheiro", reconhecendo que a única saída é, de momento, mais monetária do que orçamental. E todos sabem que, apesar de não resolver os problemas de fundo, uma tal decisão é vital para a Europa - nomeadamente a Espanha e a Itália - resistir mais algum tempo. E "resistir" é o termo, porque a agenda europeia se tornou, na forma, no conteúdo e no calendário, numa agenda de pura sobrevivência, sem qualquer visão de futuro.

Nestas circunstâncias, a encenada novela do exame da troika à situação portuguesa não passa de um episódio quase irrelevante. Mas que, apesar disso, não pode iludir o essencial, que é, por um lado, o fracasso do Governo nas frentes orçamental e económica e, por outro lado, a calamidade política de uma incompetência sem paralelo na gestão de diversos dossiers sensíveis, como recentemente aconteceu com as fundações e, agora, com a RTP e o serviço público de televisão.

É sem dúvida o momento de pensar numa ampla remodelação do Governo, já com demasiados "cadáveres adiados que procriam", para usar a bela expressão de Pessoa, e sobretudo de se pensar numa reformulação da estratégia a seguir.

É talvez tempo de se perceber que, para sairmos de facto desta crise, precisamos de outra compreensão das suas raízes, das suas características e das suas consequências. A história - na verdade uma historieta - que geralmente se conta, mais do que explicar o que aconteceu, procura sobretudo legitimar o que se tem passado, confortando assim o conformismo e o calculismo dos que gerem essa herança, seja no poder ou na oposição.

Qualquer alternativa começa aqui. Infelizmente, ela não consta de nenhuma cartilha já escrita. Bem pelo contrário, ela terá de ser produzida com trabalho, análise e ideias novas.

Ela exige, acima de tudo, uma nova lucidez crítica face aos ardis do financês/economês dominante.

Uma lucidez que desmonte e desconstrua o que está verdadeiramente em causa, tanto pelo lado do homo economicus anestesiado pelo vício do consumo, como pelo da economia "astrológica" que continua a explicar tudo como se na verdade não tivesse acontecido nada.

Só assim se conseguirá acabar com o estupor - para a semana veremos como, mais em detalhe."

daqui.

sábado, 21 de julho de 2012

crónica... da (des)virtualização da cultura... e da crise moral em portugal... de manuel maria carrilho... no dn...!

"A FARSA, DEPOIS DA TRAGÉDIA - A pergunta que agora surge nos lábios de toda a gente é pela confiança que resta, depois de tanta trapaça. Não era imprevisível, mas era bem dispensável a nova fase da crise em que assim entrámos, pisando as areias movediças de uma verdadeira crise moral.

Crise que vem agudizar todas as suspeitas que já se alimentavam sobre o poder, reforçando a corrosiva desconfiança com que os cidadãos olham para as suas elites dirigentes - sobretudo políticas, mas também económicas e financeiras - e para o continuado, persistente fracasso da sua ação.

Quando a história se repete, dizia Marx, depois da tragédia vem a comédia. Assim é, mais uma vez. Mas ao transformar a tragédia da licenciatura de José Sócrates numa comédia, Miguel Relvas faz mais: ele banaliza o que ainda assim se supunha excecional, reforçando o dano brutal que tudo isto tem causado ao País. Arrastando assim a classe política para um patamar inédito de descredibilização, como se toda ela se dividisse entre suspeitos e culpados, entre cúmplices e reféns.

Esta farsa evidencia diversos aspetos que mereciam a maior atenção, nomeadamente a bagunça que - com uma ou duas exceções, não mais - tomou conta do ensino universitário privado português, quantas vezes com a cumplicidade bem paga de nomes sonantes do ensino público. Mas o sinal mais aterrador, porque esse é um sinal do futuro que nos espera, é o silêncio quase unânime da classe política, como se nela ninguém fosse já livre de soletrar o que é absolutamente óbvio.

Os perigos que ameaçam a política nunca foram, por isso, tão grandes. Como escreveu no seu magnífico Dicionário Imperfeito Agustina Bessa-Luís, "politizar sem primeiro instruir provoca a intervenção do mais grosseiro rosto dos desejos humanos. Aparece a cupidez e a insolência e por aí adiante". Se não queremos ir por aí adiante, só há um caminho: o de impor rapidamente à política novos critérios de qualificação e de ética.

Claro que o Partido Socialista, que em tudo devia ser uma alternativa de valores a esta deriva rente ao abismo do descrédito, paga hoje a complacência com que cobriu as falcatruas e os desmandos socráticos, sem autoridade moral para dizer o que - em nome da mais elementar decência! - todos os portugueses lhe pedem que fosse dito.

GRANDES HOMENS - Nestas alturas, é normal que se lamente com nostalgia o desaparecimento dos grandes homens e a falta de autênticas ideias. O que se compreende porque, como dizia Renan, os homens não conseguem viver muito tempo do perfume de um frasco vazio... Mas este lamento ignora o essencial, que convém lembrar.

E o essencial é, em primeiro lugar, que o processo da seleção dos líderes se alterou completamente na atual era mediática, que produz vedetas e slogans, mas exclui singularidades e valores, inventa metáforas mas não propõe visões do mundo. Qualquer dos grandes líderes invocados pela habitual nostalgia contemporânea (Roosevelt, De Gaule, Churchill, etc.) seria laminado em dois minutos - como nulo! - pelos media hoje dominantes.

E em segundo lugar, quanto às ideias, o problema não é o de não as haver - as ideias até abundam! -, mas o de elas não passarem nos crivos e nos filtros, seja da seleção mediática obcecada com os diretos, os sound bites e os fait-divers, seja do conformismo partidário fechado na campânula dos seus jogos e interesses.

A democracia de opinião que hoje domina vive, como vemos todos os dias, de superficialidades bacocas e de imediatismos rapsódicos, excluindo intencionalmente qualquer porta de entrada ou momento de atenção aos "grandes homens" ou às "verdadeiras ideias". A conceção heroica - ou épica - da política não resistiu a uma democracia de opinião que vive cada vez mais na autojubilatória comunhão da mediocridade com a alacridade, que é incompatível com a linguagem do apelo e das causas, que sempre caracterizaram os "grandes homens".

E o momento não é para ilusões, porque as crises - ao contrário das guerras - não criam líderes, antes os destroem em série. Nesta perspetiva, a "normalidade" reivindicada por François Hollande, como candidato e depois já como Presidente da República francesa, aparece como um eloquente sinal da época que vivemos, como se as democracias tivessem desistido - transitoriamente ou não, é o que veremos - de lideranças mais carismáticas.

Não há de facto, na Europa de hoje, nenhuma personalidade carismática. Resta saber se este facto historicamente inédito, da vitória da normalidade sobre o carisma, não traduzirá - como parece ser o caso - uma também histórica falta de visão estratégica, de que a desorientada indolência da União Europeia tem sido um desesperante exemplo.

SEM CULTURA - Evito quase sempre falar do que não existe: é uma regra que permite evitar muitos equívocos. Daí, o meu silêncio sobre política cultural. Mas é preciso recuar bem para lá do 25 de Abril para se encontrar uma combinação tão grotesca de incompetência, ineficácia e incúria, como a que nesta área caracteriza o atual Governo.

E também aqui a mentirola prolifera. Como se sabe, Portugal é um dos três únicos países da União Europeia (com Malta e a Hungria) que não tem Ministério da Cultura. Ora, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, deu uma entrevista no domingo passado ao DN, ao que parece para anunciar que, com 0,1% do Orçamento do Estado, "ainda não se atingiu o limite para os cortes na cultura"!... E aproveitou a ocasião para tentar enganar os leitores, insinuando que em Espanha também se extinguiu o Ministério da Cultura, e que a tendência é essa, blá-blá-blá.

Acontece que em Espanha há de facto um Ministério da Cultura, associado ao da Educação e ao do Desporto, cujo titular é J. I. Wert Ortega. E que, para lá disso, Portugal é mesmo o único país da União Europeia em que a Cultura não tem sequer assento no respetivo Conselho de Ministros.

E isto não é uma questão formal, mas de fundo e da maior importância, uma vez que tal significa que nos debates e nas delibe-rações do Conselho Ministros de Portugal, sobre todas as matérias que dizem respeito ao País, não há, não se tem em conta, não se mobiliza o ponto de vista da cultura. Eis um retrocesso político sem razão nem perdão, cujas devastadoras consequências estão já, de resto, bem à vista de todos
."

daqui.