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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

da corrupção... o resto vem por acréscimo...?


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"Este país em que os recursos são transferidos do público para o privado e em que os rendimentos são canalizados do trabalho para o capital, dos cada vez mais pobres para os cada vez mais ricos, «só» é de crise para a grande maioria. Para os outros, é um campo imenso de oportunidades de negócios, mais ou menos lícitos mas plenos de promessas de lucro. Quando os enquadramentos legais e institucionais são frágeis, ainda por cima num ambiente social em que a acção colectiva de contra-poderes cidadãos (sindicais, associativos, etc.) é insuficiente, os ambientes altamente competitivos e a promessa de lucros frágeis, no contexto atrás descrito, promovem todo o tipo de práticas lesivas do interesse público, corrosivas do bem comum. Mesmo sabendo que parte das dificuldades da acção colectiva também resulta da própria situação de crise – que leva os que mais precisam da mudança a dedicar todo o seu tempo à sua própria sobrevivência diária –, não podemos deixar de investir as forças que temos na organização do combate feroz a este sistema criado para gerar mais desigualdades, mais corrupção, mais vidas perdidas. O nome desse sistema é neoliberalismo e, por agora, os presos nas malhas da desigualdade somos nós."


no le monde diplomatique [artigo completo]... aqui.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

opinião... descartáveis ou sujeitos de mudança ?... de sandra monteiro... no le monde diplomatique...!

"Quantos cidadãos terão começado o ano de 2013 com a impressão de que o governo do seu país, apesar de democraticamente eleito, e a União Europeia, que já alimentou sonhos de modernidade e desenvolvimento, diariamente se empenham em fazê-los sentir que estão a mais? Quantos estarão a sentir que quem decide das suas vidas legisla apesar deles, e não para eles nem com eles? Quantos acreditaram na retórica manipuladora da expiação da «culpa» através do «sacrifício» e descobrem agora que esse poço sem fundo da austeridade sempre traduziu um profundo desrespeito pela sua inteligência, pelo seu trabalho e pela sua humanidade, e perpetuamente se transmuta em mais exploração, menos rendimento disponível, mais desemprego, menos protecção social, mais acumulação de riqueza no topo, menos Estado social, mais privatizações, menos serviços públicos e, claro, mais salvamentos de bancos – agora foi o BANIF, quantos mais virão?

Não fora o simples facto de serem os cidadãos, com o seu trabalho, quem cria essa mesma riqueza que os decisores políticos se comprazem em canalizar, directa ou indirectamente, para engordar fortunas e satisfazer interesses privados, já há muito que teriam passado de mera variável de ajustamento, objecto de todas as desvalorizações, para serem liminarmente abandonados à sua sorte, descartados como qualquer mercadoria já consumida ou sem valor.

Como cidadãos, já estávamos a caminhar para este estatuto cada vez que aceitámos o aumento da exploração, a corrosão dos serviços públicos, as engenharias de concessões e privatizações que deixam o país sem recursos para sustentar o aparelho produtivo e o Estado social. Mas também cada vez que nos deixámos convencer de que o privado faz melhor do que o público, de que a desregulação liberta o desenvolvimento, de que a limitação da riqueza afugenta os ricos, de que a desvalorização social não tem alternativa.

Esta narrativa e esta arquitectura de subalternização do estatuto dos cidadãos terá de ser contrariada no ano que agora começa. Não é tarefa fácil. Desde 2012 que os responsáveis pela austeridade, pela espiral recessiva e pelo desastre social perceberam que os cidadãos são uma maçada. Um «entrave» à governação, tal como a Constituição e a democracia. O aumento da contestação, nas suas múltiplas formas, fez regressar o povo como sujeito histórico e mostrou-lhes que era tempo de juntar algumas cenouras ao discurso do bastão dos «malandros culpados».

Os elogios do ministro das Finanças Vítor Gaspar aos portugueses como o «melhor povo do mundo» ou do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho à sua «capacidade de sacrifício» inscrevem-se nesta linha de contrabalançar as políticas de empobrecimento e de miséria com palavras de louvor. Mas talvez estejamos mais perto do que longe do momento em que tais palavras passam a ser simplesmente recebidas como ofensivas, cínicas, insuportáveis. Por quanto tempo poderá alguém como Christine Lagarde, directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), continuar a dizer que o que mais a surpreendeu nestes dezoito meses de programa de ajustamento estrutural «foi a determinação colectiva do país no caminho para a recuperação» e que «há um sentimento colectivo de que existe uma saída e que tem de ser feita conjuntamente» [1]?

A degradação rápida da situação social e económica a que vamos assistir nos próximos meses, acompanhada de todos os indicadores que mostrarão o fracasso das políticas em curso (se não as medirmos pelos critérios do enriquecimento dos mais ricos, da acumulação financeira, do desmantelamento do Estado social ou da venda dos activos públicos), aí estarão para alimentar o desespero e a desesperança. Mas também para aprofundar nas comunidades uma ferida particular, causada pelo abandono, desprezo e humilhação a que se dedicam os que deviam trabalhar para defender o interesse público e o bem comum. Nunca se sabe bem como cicatrizam estas feridas, mas não são eternas.

Ninguém pode dizer quanto tempo vai durar este governo, nem se a sua substituição vai ter a ver com um novo chumbo do Tribunal Constitucional a várias normas do Orçamento do Estado ou com a demonstração, trimestre após trimestre, de que a receita austeritária só agrava a espiral recessiva e tem de ser abandonada, renegociando a dívida e as condições impostas pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI), regulando os mercados, fazendo investimento público, recuperando activos públicos e repensando a política monetária.

Mais cedo ou mais tarde, e cada dia que passa é demasiado tarde, terá de ser feita uma escolha entre remodelação governamental, governo de iniciativa presidencial e eleições antecipadas. Mas só a realização de eleições pode ter a ambição de atacar os dois problemas que estão a matar o regime constitucional e a democracia: o desastre socioeconómico e a absoluta subalternização dos cidadãos. Em relação ao primeiro problema, caberá a quem se apresenta a eleições, mas também a todos os que promovem e participam no debate público, tornar claras as alternativas existentes, sem ter medo de apelar à inteligência e à maturidade do povo para lidar com escolhas que certamente não serão fáceis nem indolores. Quanto ao segundo problema, o da subalternização dos cidadãos, terão de ser eles mesmos a ocupar o espaço que continuamente lhes é negado pelo poder político, económico e mediático.

Costuma-se dizer que a história é escrita pelos dominantes, mas o presente também já o é. A mudança tem de começar aí, no presente, exigindo que não sejam apenas os poderosos a ser ouvidos como vozes legítimas, quer esse poder advenha de poder pessoal ou seja conferido pela pertença a uma instituição. O chamado «caso do burlão Artur Baptista da Silva», que entre outras cometeu a proeza, pasme-se, de pôr o jornal Expresso a ter de provar que não dá a palavra apenas aos que contestam a austeridade, mostrou bem que para furar o espaço mediático com posições que colidem com o statu quo é necessário falar-se a partir de um lugar de poder de algum modo legitimado pelo mesmo statu quo.

Recusando viver num regime sem democracia, sem Constituição, sem Estado social e sem cidadãos, estes não estarão apenas a exigir ser ouvidos, mas também a recusar que os insultem com chantagens pueris ou com argumentos desrespeitadores da inteligência de cada um como os usados por um presidente da República que admite que estamos emersos numa «espiral recessiva» mas recusa a renegociação da dívida – instrumento sem o qual ela não pode ser travada –, dizendo que essa «não é uma opção credível» nem pode ser defendida por «ninguém de bom senso» [2].

No ano que agora começa, o «Basta!» que invadiu as ruas em 2012 e mostrou o crescimento da revolta social vai continuar a recusar um programa de empobrecimento e subdesenvolvimento do país, mas vai traduzir também a rejeição de um programa que nunca perdura para sempre: desprezar os povos, tomá-los por parvos. É este duplo «Basta!» que tem de ser inscrito em qualquer solução governativa futura que seja uma verdadeira mudança.


Notas
[1] Entrevista ao Expresso, 5 de Janeiro de 2013.
[2] Aníbal Cavaco Silva, «Mensagem de Ano Novo», 1 de Janeiro de 2013, www.presidencia.pt."

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

opinião... [da televisão] democracia concessionada... de sandra monteiro... no le monde diplomatique...!

"Em entrevista à TVI no passado dia 23 de Agosto, António Borges, conselheiro do governo para as privatizações, afirmou que considerava «muito atraente» a possibilidade de concessionar a RTP1 a investidores privados, cenário que seria acompanhado da extinção da RTP2. As declarações do ex-director do departamento para a Europa do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Golman Sachs International tiverem o condão de trazer para o debate público e mediático questões que há muito deviam suscitar a atenção dos cidadãos.

Essas questões não se prendem apenas com o serviço público de rádio e televisão – ainda que a sua defesa seja urgente e exija um empenhamento de cidadania, que seja crítico e capaz de escrutinar a qualidade e a boa administração de um serviço que tem de assegurar o direito constitucional à informação. Com efeito, as declarações de António Borges, o mesmo que já nos disse que o desemprego é uma grande oportunidade e que é urgente baixar ainda mais os salários, vieram mostrar um quadro ideológico e de funcionamento que tem vindo a nortear a destruição de todos os serviços públicos. E vieram também ilustrar uma transformação que está a ocorrer ao nível da natureza do regime democrático, que parece ter sido, ele próprio, objecto de uma concessão a interesses privados. Em tempos de austeroliberalismo, a democracia converteu-se numa democracia concessionada.

Este será, sem dúvida, um regime «muito atraente». Mas não para a maioria da população. Com o desmantelamento dos serviços públicos, e seja qual for o regime jurídico que é encontrado para cada caso (privatização, concessão, parceria público-privado, etc.), o que está a acontecer é uma transferência sem precedentes de recursos públicos para um capitalismo de rentistas e especuladores financeiros que operam à escala nacional e global. E é também um desapossamento dos instrumentos imprescindíveis para servir a população e garantir o direito aos vários bens públicos (informação, água, saúde, educação, habitação, segurança social, etc.).

Esta transferência ocorre ao mesmo tempo que está a ser imposto ao mundo do trabalho um aumento brutal da exploração: diminuição de salários e das indemnizações em caso de despedimento, aumento e desregulação do tempo de trabalho, ataque à contratação colectiva e outras conquistas sindicais, crescente precariedade e desemprego, etc. E acontece a par da redução, senão supressão, de formas de protecção social (subsídios, abonos, etc.) sem as quais não pode haver coesão social.

Se conjugarmos todas estas transformações que se verificam na sociedade portuguesa – um dos mais nítidos balões de ensaio do projecto austeroliberal –, não é difícil perceber que, apesar de formalmente vigorar um regime que tem na soberania popular a sede da sua legitimidade, na verdade foram-lhe retirados os instrumentos para poder executar o que deviam ser as suas missões fundamentais. Quais são elas? Em primeiro lugar, combater a exploração, a qual é responsável (com as falhas nos serviços públicos e na fiscalidade progressiva) pela tragédia colectiva que são as desigualdades socioeconómicas. Em segundo lugar, criar, através da redistribuição e de um crescimento sustentável, as condições materiais e subjectivas que permitam a cada cidadão desenvolver-se como um sujeito autónomo, isto é, como um ser livre.

Como foi possível deixarmos que se concessionassem os instrumentos da democracia (administração de recursos, definição de políticas redistributivas, etc.), sem percebermos que o corolário disso seria a perda, no país e fora dele, do poder indispensável para prosseguir as finalidades substantivas da própria democracia? Entre outros factores, pesou certamente o modo como, colonizados pela ideologia do pensamento único e seus aparelhos, descurámos a dimensão conflitual das escolhas que constantemente ocorrem nas sociedades. Desvalorizámos o conhecimento aprofundado – que exige estudo e atenção aos detalhes – e adiámos o posicionamento activo e responsável de cada um de nós sobre as decisões tomadas em nosso nome. Perdemos a dimensão do antagonismo, muitas vezes irreconciliável, que existe entre interesses. Esses interesses contrários continuaram a dar origem a escolhas, mas delas esteve ausente o critério popular.

Herdeiros de gerações que instauraram a democracia, as férias, o salário mínimo ou o direito de todos à assistência médica, perdemos de vista – com a preciosa ajuda dos dispositivos postos em prática para apagar ou rever a memória histórica – o quanto todos estes direitos foram arrancados a poderes que tudo fizeram para se lhes oporem. E perdemos também de vista, no mesmo passo, todos os direitos que já deviam ter sido alargados a mais cidadãos, a contragosto dos poderosos. A fixação de um salário máximo é apenas um exemplo entre muitos.

Enquanto isso, o poder de fazer as escolhas que afectam as nossas vidas foi-se concentrando numa aliança formada entre dois pólos (intensamente porosos…). De um lado, figuras e instituições que são apresentadas aos cidadãos como «técnicas» e «neutrais», mas que as mais das vezes estão ligadas aos interesses dos mercados financeiros, e nem sequer são submetidas ao crivo democrático das eleições e da prestação de contas. Do outro lado, os poderes públicos que executam as políticas que beneficiam aqueles interesses privados, por identificação ideológica e porque dessa forma se transformam nos ricos e poderosos (mesmo que descartáveis) distribuidores de negócios, dinheiro e poder. Fora desta aliança, a maioria da população. Cada vez mais afastados da participação e da negociação democrática, os cidadãos são transformados em objectos, e já não sujeitos, de política.

A democracia concessionada ao «governo dos técnicos» produz uma objectificação e uma realidade social tão grave que atordoa, pelo menos temporariamente. Esse atordoamento assume várias formas, em vários rostos: para uns é difícil acreditar que uma situação tão grave e tão contrária às promessas da democracia possa ser algo mais do que passageira; outros convencem-se de que têm culpa, individual e colectiva, nas desgraças de que são vítimas; outros ainda perdem a esperança por não verem surgir um pólo aglutinador capaz de criar uma aliança alternativa àquela que detém o poder (com propostas políticas e força para as concretizar); muitos outros vivem consumidos pelo medo de não ultrapassar as dificuldades, gastando uma imensa parte de cada dia em estratégias e tarefas de sobrevivência individual.

Não há como negá-lo: recuperar os instrumentos da democracia que permitam uma nova, mais responsável e mais participada reorientação da comunidade para os combates pela igualdade e pela liberdade é algo que vai ser feito em condições extremamente difíceis. Mas os cidadãos não têm alternativa senão fazê-lo. Ou deixarão de ser cidadãos. Porque, em rigor, a democracia concessionada não é uma democracia."

sexta-feira 7 de Setembro de 2012

aqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

de um editorial... de sandra monteiro...!

"A exploração, não só existe, como está a aumentar para níveis ainda recentemente inconcebíveis. Traduz-se na venda mais barata da força de trabalho, na criação de trabalhadores que se tornam sujeitos menos autónomos e com menos tempo para si. Ela é a marca deste tempo em que a única mudança para a qual se quer que os cidadãos estejam disponíveis é para aquela que resulta em mais acumulação, nalguns poucos, e mais privação, na esmagadora maioria dos restantes. Com mais exploração não se resolverá nenhum dos problemas da dívida ou da sustentabilidade da economia."

daqui