"Uma das medidas do Ministério da Educação e
Cultura para o ensino básico é a divisão dos alunos por níveis de
aprendizagem. Ajudará ela a melhorar o sucesso escolar e a diminir o
abandono escolar?
Da leitura do documento da Reorganização infere-se que os alunos poderão
ter um acompanhamento académico diferenciado consoante a sua evolução
na aprendizagem. Se bem aplicada, pode ser uma medida adequada pelo que
passo a explicar.
O ideal seria que todos os alunos acompanhessem ao mesmo ritmo e com o
mesmo sucesso o ensino. Mas sabemos que não é assim. Por razões
diversas, de ordem social, afectiva, cognitiva, e muitas outras, alguns
alunos ou, melhor, todos os alunos, em determinados momentos, não fazem
certas aquisições de modo satisfatório.
Sabemos que essas “falhas” repercutir-se-ão e ganharão mais impacto nas
aquisições seguintes e ainda mais nas próximas, até se chegar a um ponto
em que é difícil perceber o estado de desenvolvimento académico em que
os alunos se encontram e a partir do qual é preciso intervir. Além
disso, os alunos poderão criar e consolidar a ideia de que não são
capazes de aprender, que são inaptos para determinadas áreas, ou, ao
contrário, que não importa o que aprendem pois o resultado é sempre
vantajoso em termos de transição.
Por exemplo, se não se apropriarem, em devido tempo, de técnicas básicas
de escrita e se nada for feito, muito dificilmente conseguirão escrever
um texto coerente, lógico, o que, pode desencadear comportamentos
desajustados, ansiedade, etc.
.
Não será discriminatório agrupar alunos de acordo com esses níveis?
Penso que quando refere “discriminatório” está a referir-se ao aspecto
social, à relação com os pares, e também ao aspecto afectivo, à imagem
que o aluno faz de si mesmo.
Talvez seja, porque, de modo paradoxal, no tempo em que vivemos,
afirma-se constantemente a diferença ao mesmo tempo que se afasta
qualquer possibilidade de distinção. Mas é possível que isso esteja mais
na cabeça dos adultos. Se fizermos crer às crianças, desde que entram
na escola, que ninguém é bom em tudo nem mau em tudo e que quando se é
menos bom pode ter-se ajuda para melhorar, não estaremos a perturbar
substancialmente a semelhança aos outros nem a sua identidade. Pior será
deixá-las somar fracassos atrás de fracassos, fazendo de conta que está
tudo bem, ou que nada há a fazer. Ainda que, aparentemente com bons
propósitos, está-se a enganá-los, a impedir que aprendam.
A preocupação de prestar uma atenção diferenciada aos alunos, tanto aos
que evidenciam dificuldades ocasionais, como aos que estão a aprender
bem e depressa determinadas matérias é, na verdade, um dever. Tem de
procurar-se dar resposta a todos e a cada.
.
Tem, então, de encarar-se o problema da diversidade de níveis de aprendizagem?
Como não gostamos muito da ideia da separação dos alunos em função da
aprendizagem que alcançam, temos fechado os olhos, fingindo que o
problema não existe. Mas ele existe, é real. Devo dizer que B.F.
Skinner, um psicólogo e pedagogo behaviorista pô-lo no centro das suas
preocupações. Considerando que todos os alunos aprendem o que se entende
que devem aprender, propôs uma solução que não será a solução que hoje
nos servirá, pois dispomos de conhecimentos mais avançados, mas isto só
para dizer que o problema pode e deve ser encarado. Dar apoio
especializado a alunos que manifestem problemas em determinados sectores
da aprendizagem, logo que eles os manifestem, e depois de os superarem
voltarem ao curso, digamos, regular da aprendizagem, parece uma solução.
Em Portugal no âmbito do “Programa mais sucesso” do Ministério da
Educação isso já é tentado há vários anos.
.
Poderá esta opção educacional aproximar-se do modelo alemão que subdivide o seu ensino mediante o aproveitamento escolar?
Não conheço suficientemente bem o sistema de ensino alemão para lhe dar
uma resposta que vá além de uma opinião superficial. Mas talvez seja
importante pensarmos que, numa determinada altura do percurso escolar,
os alunos possam seguir caminhos diversos, conforme o perfil que vão
evidenciando. A falta de aproveitamento académico pode estar associada, à
normalização e à consequente falta de valorização dos talentos de cada
um.
.
Uma outra questão é o aumento do número de alunos por turma.
Como pode um professor lidar com 30 alunos e atender aos mais diferentes níveis de aprendizagem?
Li, de facto, na imprensa que os Agrupamentos de escolas ou Escolas não
agrupadas, ao abrigo da sua Autonomia, poderão constituir turmas com 30
alunos. Ao que soube Espanha fez a mesma opção de aumentar a dimensão
dos grupos-turma.
Admito que algumas turmas poderão funcionar adequadamente com 30 alunos,
mas serão alunos que manifestam comportamento adequado e que estão
envolvidos e seguem a aprendizagem. Em turmas onde estes dois requisitos
não estejam presentes é preciso que os professores exerçam uma maior
supervisão e controlo, o que não me parece possível ser concretizado com
esse número.
Por outro lado, para gerir turmas alargadas os professores têm de ter
grande destreza pedagógica e didáctica, têm de ter disponibilidade para
preparar as suas aulas, para analisar os trabalhos realizados e pensar
nas melhores alternativas de ensino, têm de estar concentrados nas
tarefas de sala de aula. Logo têm de ser libertados das inúmeras tarefas
que os preocupam e lhe tomam a maior parte do tempo útil e a sua
energia profissional."
Posted by
Helena Damião