sábado, 28 de abril de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
da educação... opinião controversa sobre o estado das coisas [que é preciso mudar, como as mentalidades...] parte II... de desidério murcho...!
"A segunda objecção da Sara é que se libertarmos o ensino, colocando nas
mãos dos próprios professores e escolas a responsabilidade última pelo
que ensinam e como ensinam, será uma desgraça — porque, como ela afirma,
numa situação de plena liberdade, os professores e as escolas “depressa
esquecem a imparcialidade, a exigência e a transparência, acabando, em
muitos casos, por ceder aos interesses, ao poder e ao amiguismo”. Eu
concordo que isso acontece; e acontece por duas razões. Primeiro, falta
de profissionalismo; a ética profissional não é algo que seja cultivado
no país. Nos mais diversos sectores — dos jornalistas aos advogados, dos
médicos aos políticos, dos professores aos taxistas — não existe apreço
pelo profissionalismo, pelo brio profissional de desempenhar o melhor
possível a nossa profissão. Isto é de tal modo assim que quem defende o
que na realidade é apenas o profissionalismo dos professores tem
tendência para dizer que os professores não podem ser meros
profissionais, têm de ter uma vocação ou de responder a uma chamada
mística. Isto é curioso, pois mostra até que ponto não se tem ideia
alguma do que é uma sociedade que preza o profissionalismo nas suas mais
diversas áreas.
Porém, a resposta à corrupção não é centralismo. Tudo o que o centralismo faz é tornar a corrupção nacional. A partir do momento em que há estruturas estatais centrais, as pessoas mais corruptas vão fazer tudo para controlar essas estruturas; pessoas que jamais teriam interessem em participar numa associação profissional voluntária e livre que pugnasse pela excelência do ensino da sua própria área, lutam ferozmente para ter poder junto do Ministério. A ilusão de quem defende o centralismo para combater a corrupção e o compadrio é pensar que, pelo facto de as estruturas e decisões serem nacionais e estatais, não serão corruptas. Mas isto é delirar: se a mentalidade nacional é profundamente corrupta, não deixa de o ser quando se torna estatal, central e nacional."
Porém, a resposta à corrupção não é centralismo. Tudo o que o centralismo faz é tornar a corrupção nacional. A partir do momento em que há estruturas estatais centrais, as pessoas mais corruptas vão fazer tudo para controlar essas estruturas; pessoas que jamais teriam interessem em participar numa associação profissional voluntária e livre que pugnasse pela excelência do ensino da sua própria área, lutam ferozmente para ter poder junto do Ministério. A ilusão de quem defende o centralismo para combater a corrupção e o compadrio é pensar que, pelo facto de as estruturas e decisões serem nacionais e estatais, não serão corruptas. Mas isto é delirar: se a mentalidade nacional é profundamente corrupta, não deixa de o ser quando se torna estatal, central e nacional."
para continuara a ler...aqui.
da educação... opinião sobre o estado de coisas, parte I... de desidério murcho...!
"Em primeiro lugar, nunca haverá da parte dos responsáveis ministeriais
qualquer disponibilidade para discutir publicamente e de modo genuíno e
civilizado ideias opostas. A capacidade para admitir a diferença radical
num debate aberto e honesto é uma conquista de uma mentalidade
civilizada que não existe no país; os professores só são capazes de
fingir que discutem ideias quando toda a gente concorda quanto ao
fundamental. Quando há diferenças profundas — precisamente quando o
debate honesto é mais necessário — as pessoas abandonam a simulação do
debate civilizado e passam para os jogos de poder, a esperteza saloia e a
tentativa de silenciar e eliminar quem pensa de maneira muito
diferente. Em Portugal não há tradições de debate académico; as pessoas
não sabem fazer isso. Tudo o que conhecem é uma simulação de debate
académico, quando todos concordam e quando de qualquer modo se estão nas
tintas para o que estão debatendo porque são matérias abstractas e
académicas que não lhes dizem realmente respeito, pessoalmente; quando
se tenta debater matérias que as pessoas consideram que realmente lhes
dizem respeito e quando nesse debate há posições muitíssimo diferentes
das deles, o único modelo nacional de debate é o pseudodebate político,
cheio de retórica, seduções linguísticas, jogos de poder, desonestidade
intelectual e pessoal. Desculpa, Sara. Nós ensinamos os alunos a debater
de maneira intelectualmente proba, mas a generalidade dos nossos
colegas não só não sabem como tal coisa se faz, como não estão
minimamente interessados em fazê-lo. Na verdade, muitos deles nem
conhecem a palavra “proba”."
quinta-feira, 26 de abril de 2012
àcerca da 'polémica'... comentários aos comentários dos teste intermédios de filosofia... de desidério murcho...!
"Os comentários dos leitores às minhas observações sobre os exames
intermédios de filosofia tornaram mais claro para mim que o problema
central do nosso ensino é a falta de liberdade.
É até curioso que pessoas com as quais concordo completamente -- pessoas que insistem na importância de um ensino objectivo, cognitivamente exigente, imparcialmente avaliado, e que não aceitam a ideia hoje popular de que a escola pública é só para entreter as crianças e lhes ensinar "cidadania" -- sejam algo cegas no que respeita à questão da liberdade no ensino. Vejamos: eu defendo um ensino com as características tal e tal. Mas seria cego da minha parte -- ou pior -- não reconhecer que quem defende o oposto disso tem tanto direito quanto eu de o defender, praticar e divulgar. É incoerente desejar para nós a liberdade de ensino que negamos aos outros, reivindicar para nós o direito de ensinar como pensamos que é correcto, ao mesmo tempo que negamos esse direito aos outros.
A única coisa que está errado no ensino da filosofia em Portugal -- e no ensino das outras áreas -- é não haver a possibilidade de mais diversidade. O centralismo actual tem duas consequências nefastas.
Primeiro, seja quem for que detém o poder, vai impor aos outros a sua visão das coisas, e isso é desagradável. Por exemplo, para muitos professores portugueses de filosofia, a minha perspectiva sobre a natureza da filosofia e sobre o seu ensino é uma merda. E têm todo o direito a pensar isso; e têm todo o direito a ensinar e escrever e publicar filosofia da maneira como lhes aprouver. O problema do centralismo é que põe tudo em termos de luta simiesca pelo poder educativo: se estiverem no poder as pessoas tal e tal, os exames e programas e directrizes são muitíssimo interessantes e estimulantes para uns professores, mas detestáveis para outros; mas se forem estes últimos a ter o poder, será detestável para os primeiros. O centralismo obriga sempre muitos professores a ficar descontentes: aqueles cujas perspectivas não são contempladas nos programas, exames e directrizes. E isto não acontece apenas na filosofia: acontece em todas as disciplinas, como ficou manifesto pelos comentários de alguns colegas da biologia e de outras áreas."
É até curioso que pessoas com as quais concordo completamente -- pessoas que insistem na importância de um ensino objectivo, cognitivamente exigente, imparcialmente avaliado, e que não aceitam a ideia hoje popular de que a escola pública é só para entreter as crianças e lhes ensinar "cidadania" -- sejam algo cegas no que respeita à questão da liberdade no ensino. Vejamos: eu defendo um ensino com as características tal e tal. Mas seria cego da minha parte -- ou pior -- não reconhecer que quem defende o oposto disso tem tanto direito quanto eu de o defender, praticar e divulgar. É incoerente desejar para nós a liberdade de ensino que negamos aos outros, reivindicar para nós o direito de ensinar como pensamos que é correcto, ao mesmo tempo que negamos esse direito aos outros.
A única coisa que está errado no ensino da filosofia em Portugal -- e no ensino das outras áreas -- é não haver a possibilidade de mais diversidade. O centralismo actual tem duas consequências nefastas.
Primeiro, seja quem for que detém o poder, vai impor aos outros a sua visão das coisas, e isso é desagradável. Por exemplo, para muitos professores portugueses de filosofia, a minha perspectiva sobre a natureza da filosofia e sobre o seu ensino é uma merda. E têm todo o direito a pensar isso; e têm todo o direito a ensinar e escrever e publicar filosofia da maneira como lhes aprouver. O problema do centralismo é que põe tudo em termos de luta simiesca pelo poder educativo: se estiverem no poder as pessoas tal e tal, os exames e programas e directrizes são muitíssimo interessantes e estimulantes para uns professores, mas detestáveis para outros; mas se forem estes últimos a ter o poder, será detestável para os primeiros. O centralismo obriga sempre muitos professores a ficar descontentes: aqueles cujas perspectivas não são contempladas nos programas, exames e directrizes. E isto não acontece apenas na filosofia: acontece em todas as disciplinas, como ficou manifesto pelos comentários de alguns colegas da biologia e de outras áreas."
o resto... [a ler], por... aqui.
depois de ter lançado a 'isca' [testes intermédios de filosofia]... aqui.
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