quinta-feira, 24 de abril de 2014

das ideias 'arrojadas' (?)... 'trabalhar das 9 às 5 é do melhor que há'... no diário económico...!




"Ainda nem saímos da cama e já mergulhamos na orgia diária dos 'mails' para depois passarmos o resto do dia em reuniões desgastantes e continuarmos nesta voragem noite dentro graças ao 'smartphone'. Os dias parecem uma maratona, mas com uma diferença: o dia acaba e a distância percorrida foi nula.

Nos últimos dias falou-se muito de um acordo entre sindicatos em França para proibir os trabalhadores de enviarem 'mails' durante o horário de trabalho. A minha solução é mais ambiciosa: toda a gente deve chegar ao serviço diariamente à mesma hora e trabalhar oito horas, ao fim das quais pode ir para casa e fazer o que lhe der na real gana.

Já tentaram isto antes. A lógica "das 9 às 5" é coisa antiga e com ‘pedigree', e funcionou lindamente até há uns 15 anos, quando passou de moda. Basta lembrar a proposta que Marissa Mayer teve a ousadia de fazer no ano passado: quando sugeriu que os colaboradores devem estar fisicamente na empresa, meio mundo insurgiu-se e acusou-a de querer controlar tudo e todos.

Para tempos extremos, soluções extremas. Um artigo na última edição da Harvard Business Review diz que as empresas têm elaborados sistemas para garantir que os gestores aplicam o seu capital de forma sensata, mas não existe nada do género para assegurar uma boa gestão do tempo.

O artigo intitula-se "O seu mais escasso recurso" e está estruturado em torno de um plano com oito pontos sobre as melhorias que se podem fazer, incluindo sistemas de ‘feedback', novos protocolos para reuniões e processos simplificados de tomada de decisão, entre outros. Excluindo o facto de ter desperdiçado o meu mais escasso recurso para ler o artigo, cheguei à conclusão de que os oito pontos podem resumir-se num só.

Em 1955, Cyril Northcote Parkinson fez uma observação irrefutável: o trabalho expande-se e preenche o tempo disponível. Ora bem, este passou de 8/7 para 24/7 (ou 17 horas/7 dias por semana para podermos dormir umas horinhas). A catástrofe da vida moderna é precisamente esta: o tempo dilatou. Restringir o dia de trabalho a 8 horas não significa que se faz menos, mas sim com mais celeridade.

Uns vão protestar dizendo que é um sistema rígido que vai atrofiar a criatividade. Pelo contrário, vai estimulá-la. Muitos dos génios criativos que há no mundo têm uma rotina diária relativamente disciplinada. O lado bom da coisa é que liberta a mente para questões mais interessantes. Outros vão protestar alegando que a minha proposta é um recuo nos direitos conquistados pelos pais.

Não sei donde veio esta ideia parva, mas a minha experiência como mãe ensinou-me que aquilo que os pais realmente precisam é de previsibilidade. Saber que saímos às cinco da tarde ajuda a programar as coisas e a baixar a factura. Mais. Ter o serão livre para podermos pensar no jantar e nas tarefas domésticas é mais gratificante do que o "esquema" actual: uma mão para fritar os ‘fish fingers' e a outra para responder aos 'mails'.

A lógica "das 9 às 5" está longe de ser um retrocesso reaccionário. Uma das empresas mais ‘cool' do planeta não só adoptou este sistema como acolhe os filhos e os animais de estimação dos seus colaboradores. Todos são bem-vindos ao caos criativo da Menlo Innovations, empresa de software no estado do Michigan, onde a semana de trabalho nunca tem mais de 40 horas.


Uma das dificuldades inerentes ao sistema que propus é não haver maneira de nos impedir de enviar 'mails' quando estamos em casa, mesmo sabendo que não devíamos fazê-lo. A Google já reflectiu sobre isto no âmbito de um estudo em torno daquilo a que pretensiosamente chama o seu "gADN". Descobriu que só 30% dos seus colaboradores conseguem separar a sua vida pessoal e profissional e que os restantes adorariam fazê-lo, mas não conseguem "desligar-se do trabalho" quando chegam a casa."

Lucy Kellaway é editora e colunista do Financial Times, onde escreve sobre temas de gestão, trabalho e carreira. Além de artigos de opinião, escreve no blogue ‘Dear Lucy' sobre assuntos do quotidiano das empresas e responde às mais variadas questões sobre dilemas da vida profissional.



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