segunda-feira, 27 de julho de 2015

nem mais... ruas ilustradas, a começar em cascais [e muito bem]...!



na visão em linha...

"Na empena do antigo hospital de Cascais, no centro da vila, há uma mulher de rosto sentido e triste pela história que a envolve. A história é a lenda da Boca do Inferno que inspirou o argentino Bosoletti, convidado a participar na segunda edição do Muraliza. O Festival de Arte Mural "nasceu da vontade de devolver a Cascais um estatuto esquecido, e mesmo desconhecido por muitos, de que foi aqui, mais concretamente em Carcavelos, que, no final da década de 1980, se começou a fazer a história do graffiti em Portugal", explica-nos Lara Seixo Rodrigues que produziu o festival e nos conduz pelo centro da vila. 

O percurso com início no Largo Camões é feito a pé e, para quem vem em jeito de passeio, há setas pintadas a vermelho que indicam o caminho. À medida que dobramos esquinas por entre ruas estreitas, surgem peixes coloridos de grandes dimensões desenhados a spray sobre uma grande mancha azul e, mais adiante, o Museu Condes de Castro Guimarães envolto numa paisagem surrealista pintada a pincel fino. Os momentos de pausa servem para Laura ir explicando o que é isto do graffiti e como se chegou à agora designada arte urbana. Mas também as técnicas desta forma de expressão artística de quem escolhe a rua para se mostrar. 

Na edição do ano passado, foram seis os artistas convidados, num grupo que juntou os históricos do graffiti Nomen, Exas e Youth, a Mário Belém, Add Fuel e Arraiano. Todos de Cascais. É que isto tem as suas regras e os estatutos na rua são para respeitar. Já este ano, o número cresceu para nove e o festival abriu-se a outros talentos nacionais e estrangeiros, como o italiano Millo a quem coube uma empena ao cimo da Avenida de Sintra - mais afastada, portanto, do centro histórico. A linha preta e alguns apontamentos de cor, eis o menino feito cavaleiro de trincha em punho que anuncia que há murais pintados por aqui. Em comum têm a história, lendas e património locais. Como os rostos dos pescadores de pele calejada pelo tempo que inspiraram Samina e Draw. Ou os azulejos com que Add Fuel pintou caixas de eletricidade e as paredes daquela que "já foi uma casa portuguesa, de certeza", como se lê à porta. É a nossa cultura que se vai desvanecendo e a mensagem serve para nos pôr a pensar. Isso ou a sorrir, como quando passamos por uma das paredes de Mário Belém e quase ouvimos a voz da velhinha de carrapito a tricotar o mar: "Não quero aqui macacadas!!". 

Não é a pé, mas de minibus que se faz a Underdogs Public Art Tour, uma visita de cerca de três horas que a plataforma Underdogs, dirigida pela dupla Alexandre Farto (Vhils) e Pauline Foessel, organiza desde março. Isto se for em grupo, porque para duas pessoas há um sidecar que combina mesmo bem com o passeio. Afinal, esta é uma Lisboa transformada em museu, que conta com artistas nacionais e internacionais, convidados pela Underdogs para uma exposição na galeria, que inclui sempre, além de impressões de edição limitada, a pintura de um mural de grande escala. Foi o caso de Sainer. Num prédio de 12 andares da Avenida Afonso Costa está, desde abril passado, a figura de uma senhora que caminha de boquilha na mão. "Sobre quem é e o que faz, o artista deixa à interpretação de cada um", diz Marina Rei, 22 anos, responsável pelas visitas, revelando alguns dos elementos comuns nos personagens que o polaco desenha. Como o coelho, representado no chapéu que parece voar, o robot estampado num saco moderno ou o boneco de neve aqui transformado em anel que usa na mão. Desenhada a olho, sem projeção, tem duas vezes e meia o tamanho de uma pessoa e é preciso afastarmo-nos para termos a perceção da sua verdadeira dimensão. 

Estamos nas Olaias, a terceira paragem de uma rota que começa no Hall of Fame das Amoreiras e segue para o Projeto Crono, nas fachadas dos prédios abandonados da Avenida Fontes Pereira de Melo, e que trouxe a Lisboa, em 2010, os brasileiros Gémeos, o italiano Blue e do catalão Sam3. Mostra-se o lado mais underground do graffiti e da contestação política, a par daquele que é considerado um momento de viragem nesta história recente da arte urbana, depois do jornal britânico The Guardian ter incluído o Projeto Crono na lista das 10 melhores obras de street art do mundo. 

Voltamos a Sainer e às Olaias, para dizer que é em direção à zona oriental da cidade que seguimos. "O objetivo da Underdogs é acrescentar valor a outras zonas da cidade que não são centrais e mostrá-las", explica Marina. E chegamos a Marvila, onde está a única pintura abstrata do roteiro. É do alemão Clemens Behr e divide as atenções com um Pedro Álvares Cabral de traços indígenas, do brasileiro Nunca, aqui tornado mendigo, a acrílico e spray. Marina chama a atenção para as moedas no ar. "Não sabemos quem as dá ou se é Cabral quem as atira, mas o Nunca prometeu completar a história numa outra cidade", revela. 

O percurso tem 12 paragens, e tirando a galeria e a loja da Underdogs no Mercado da Ribeira onde termina, tudo o resto são paredes e muros de artistas como Okuda, Olivier Kosta-Théfaine, do coletivo Cyrcle, os gémeos How e Nosm ou os brasileiros Bicicleta Sem Freio. Depois há Vhils, claro, que tem gravado os seus rostos anónimos pela cidade, como em Alcântara, por altura da sua exposição Dissecação no Museu da Electricidade, ou no Jardim do Tabaco, numa colaboração com Pixelpancho. No pequeno edifício cedido pela Câmara Municipal de Lisboa - como acontece, aliás, com algumas das paredes da Underdogs, que também aceita doações de particulares -, surgem os personagens robotizados (ou serão robôs humanizados?) do italiano, aqui de face esculpida em várias camadas por Vhils. "É um marinheiro que sopra um barco para o mar", descreve Marina. Gosta de criar a sua narrativa, mas diz também que "cada um interpreta como quiser". "Houve um miúdo que me perguntou se o marinheiro tinha a bochecha vermelha e estava corado", conta, recordando a visita que fez a um grupo de crianças. "E isso fez-me olhar de forma diferente para esta parede." 

Pode a arte ser o motor da inclusão social? A Câmara Municipal de Loures acredita que sim e à segunda edição do festival O Bairro i O Mundo, feito em colaboração da Associação Teatro IBISCO, decidiu convidar alguns artistas a pintar as empenas dos prédios da Quinta do Mocho, em Sacavém. A iniciativa marcou "o arranque da requalificação de um bairro que quer mostrar uma imagem diferente daquela por que é conhecido", refere Maria Eugénia Coelho, vereadora da Coesão Social e Habitação. "Passa por envolver os moradores, para que eles assumam também um papel interventivo e ativo", acrescenta.

Na urbanização municipal não existem tantas nacionalidades quantas as que compõem o concelho de Loures, mas a grande maioria são africanos, com raízes nas ex-colónias portuguesas. O bloco quadrado pintado a castanho pelo francês MTO, como se fosse uma encomenda que aqui caiu desamparada, resume bem a história de quem aqui foi relocado pela construção dos acessos viários à Expo 98. Tantos anos depois, só este mês começou a circular a carreira da Rodoviária com destino a Lisboa. Desde que o projeto teve início, em outubro passado, foram muitos os artistas que subiram e desceram na única grua que a câmara dispõe, contando-se por estes dias 32 paredes pintadas. As assinaturas são de nomes como Vhils, Odeith, Nomen, Tamara Alves, Mar, Ram, Smile, ou o brasileiro Vespa, entre tantos outros, "que quiseram ficar a conhecer melhor a realidade do bairro, chamando até as pessoas a participar", conta Cristina Melo, 53 anos. A técnica da câmara, que acompanhou todos os trabalhos, conduz também as visitas guiadas a esta Galeria de Arte Pública, como é designada, que acontecem no último sábado de cada mês. Fala-nos das obras, das técnicas, das dinâmicas e vivências destas ruas, das mensagens que os artistas tentam passar e daquilo que os inspirou - como as capulanas de Moçambique que secam nos estendais, reproduzidas por OzeArv (nome artístico de José Carvalho) na fachada do Lote 69. Quem aqui vive, tem o seu nome à porta e agradece que lhe tivessem pintado a entrada do prédio com padrões coloridos. A simbolizar as migrações, está a garça de Bordalo II, ou Artur Bordalo, feita de para-choques de carros e caixotes de reciclagem em fim de vida. 

Em março passado, o Festival o Bairro i O Mundo ficou entre os cinco finalistas que concorreram ao prémio Diversity Advantage Challenge, promovido pelo Conselho da Europa e que distingue projetos de inclusão social de minorias. Não ganhou, mas há outras conquistas que já tiveram um impacto significativo na vida das gentes da Quinta do Mocho.

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