terça-feira, 23 de junho de 2015

a actualidade do dia-a-dia, numa visão pessoal do jornalista...!

Bom dia, já leu o Expresso Curto Bom dia, este é o seu Expresso Curto
Pedro Santos Guerreiro
Por Pedro Santos Guerreiro
Diretor Executivo
 
23 de Junho de 2015
 


A Grécia, um caracol e um bilhete de amor 

“Ó caracol, / Escala o Monte Fuji, / Mas devagar, devagar!”. Abrimos com este famoso poema japonês (haiku), de Issa, pela esperança de cumprir um devir. Estamos a falar da Grécia, claro, porque hoje há notícias diferentes: Atenas e Bruxelas deixaram de estar de costas voltadas.

É difícil chamar boas notícias a (mais) medidas de austeridade mas ao pé do degredo temido com a saída do euro esta é uma resposta. Passos já não acha que isto é “uma brincadeira de crianças” e Lagarde já não pede “adultos na sala”. Agora, há “bases sólidas”. Quatro dias fizeram assim tanta diferença? Parece que sim.

Jorge Nascimento Rodrigues explica, as famosas “linhas vermelhas” foram ultrapassadas de “uma forma indireta”: Tsipras aumenta contribuições na saúde e na segurança social, corta na defesa e nas reformas antecipadas; a idade de reforma subirá gradualmente até 67 anos em 2025, mantêm-se três escalões no IVA. E assim geram-se receitas adicionais de 2,3 mil milhões de euros face ao plano anterior.

O acordo pode abrir a porta à transferência de 1,9 mil milhões mas a Grécia quer que o programa "sustentável" seja acompanhado por um pacote de crescimento, sendo que os problemas futuros do primeiro-ministro podem estar em casa. Até porque os gregos saíram ( outra vez) à rua, depois de retirar mais 1,8 mil milhões de euros dos bancos.

“É uma realidade penosa”, conclui o Financial Times: “os credores vão apoiar a Grécia aconteça o que acontecer”. E a Europa respira de alívio, nota o El Pais. É que "a paz pode estar ameaçada" se Grécia sair do euro, afirmava ainda esta noite Braga da Cruz na Renascença. Conclusão: “O relógio deixou de dar horas em Atenas”, diz o editorial do Público. “Ainda não há fumo branco – mas há uma cuidadosa gestão de expectativas para evitar o pânico”.

A montanha já não é a de Sísifo, pela qual rolava sempre a pedra antes de atingir o cume. Agora escala-se. Mesmo que seja assim: devagar, devagar.


OUTRAS NOTÍCIAS
Não é o número de desempregados que é baixo, é o número de inscritos no IEFP – e é o valor do subsídio. Manchete do DN, do JN e do Público: o número de pessoas com subsídio de desemprego é o mais baixo desde 2009. O subsídio chega agora a menos 140 mil desempregados e o valor do subsídio também está a cair: em maio, cada desempregado recebeu, em média, 448 euros, devido à quebra nos salários e aos limites introduzidos à prestação.

Portugal pagou mais 1.830 milhões ao FMI. Em cada dez euros emprestados pelo Fundo no âmbito do programa externo, pagámos três.

O escândalo de corrupção no Brasil continua a encher páginas de jornais. A popularidade de Dilma nas sondagens está em queda, nota o El Pais, citando uma sondagem da Folha de São Paulo, segundo a qual a Presidente tem níveis de rejeição de 65%.

As ações na Bolsa de Xangai tiveram ontem a maior queda num só dia desde 2008. Crescem os receios de que o período de forte crescimento na bolsa chinesa, que dura há um ano, tenha terminado, noticia o Financial Times.

Desporto: o angolano Álvaro Sobrinho quer ser acionista maioritário da SAD do Leixões, revela o Jornal de Notícias.

Os ex-dirigentes do Sporting Godinho Lopes, Luís Duque, Nobre Guedes e Carlos Freitas foram absolvidos nos processos de renovação de Izmailov e de contratações de Jéffren e Alberto Rodríguez. O Tribunal da Comarca de Lisboa declara-se "incompetente" para analisar processo.

(Na minha opinião, é melhor nem falar do novo equipamento do FC Porto. E na sua?)

Vendas: a da TAP. A providência cautelar que pretendia travar a privatização foi indeferida pelo tribunal. A privatização da empresa avança.

Vendas: a da Fidelidade e da Luz Saúde (e talvez Novo Banco e outras). O “show” do presidente da Fosun ontem em vários jornais foi notado e comentado. Em “o governo mais chinês da Europa”, o Nicolau Santos salientou que, numa viagem de jornalistas portugueses a Xangai, Guo Guangchang elogiou a disponibilidade portuguesa para o investimento chinês. Aqui têm sido recebidos “muito, muito bem, sem qualquer reserva política ou estratégica”, escreve o Nicolau, que com a sua ironia fina e cortante como uma folha de papel recomenda aos leitores que coloquem os filhos nas escolas de mandarim. Já no Jornal de Notícias, Mariana Mortágua escreve: “Que toquem as trompetas e se alegrem as cortes, a estratégia resultou. Portugal entrou no mapa! É a loja dos 300 da Europa”.

A consultora Saer diz que a pressão de Banco de Portugal e do Governo sobre o GES levou à queda do BES. O livro, que resulta de uma encomenda de Ricardo Salgado na preparação da sua defesa, foi apresentado ontem ao fim do dia em Lisboa. A notícia está no DN.

Outro livro, o de Miguel Relvas, contém revelações que continuam a fazer notícia. No Negócios: o FMI queria colocar portagens à entrada das cidades.

Os agentes de execução vão poder cobrar dívidas ao Estado, diz o Negócios em manchete.

Jorge Sampaio é a personalidade masculina escolhida para receber o Prémio Nelson Mandela, atribuído este ano pela primeira vez pelas Nações Unidas. Helena Ndume, uma oftalmologista da Namíbia, é a laureada feminina.

Quase metade da população do Sudão do Sul, o país mais recente do mundo, está em risco de fome, noticia o New York Times, num artigo com um título tão sugestivo quanto sinistro: “Já não há mais país”.

É uma certeza científica: as crianças em condições de pobreza têm o cérebro 6% mais pequeno do que as restantes. A jornalista Luciana Leiderfarb explica no Expresso Diário.

Já viu um padre a dar toques de futebol e a levantar uma bola num “cabrito”, com os calcanhares? O padre António Pereira, primeiro sacerdote a jogar futebol federado em Portugal, faz mais do que isso: é o novo presidente do Fátima e tem um plano para salvar o clube da ruína. No Expresso Diário.

“Houve acontecimentos inesperados, batalhas sobrenaturais, sacrifícios impiedosos, houve gente a sofrer e a sobreviver, personagens a matar e outras que ninguém queria mortas a morrer”, escreve a jornalista Helena Bento em “ Vergonha! Vergonha! Vergonha!”, sobre a quinta séria da “Guerra dos Tronos”, que acabou há uma semana. A análise a uma cena “que ficou para a história da série”. E das séries.

Taylor Swift pôs a Apple na ordem, explica-nos Pedro Miguel Oliveira, diretor da Exame Informática. Ou como uma estrela pop pode forçar uma multinacional a mudar de política nos pagamentos a autores de música.

“Quando um colega morre há algo que nos arrepia”. Quem morreu foi David Clifford, repórter fotográfico, ex-editor de fotografia do "Público", amante da imagem. Fotografias publicadas no Expresso aqui. E no Público aqui. Imagens e um silêncio que em muitos deixa.


FRASES
“ Há um equívoco na crise grega: a ideia de que o Syriza só quer acabar com a austeridade. Antes fosse assim. O seu radicalismo e "linhas vermelhas" têm muito mais a ver com o mito da ‘luta de classes’.” José Manuel Fernandes, no Observador.

“ Isabel dos Santos nunca foi empresária. É apenas fiel depositária do pecúlio que resulta do assalto da elite político-militar aos recursos do seu próprio país”. Daniel Oliveira, no Expresso Diário.

“ Não levei em conta que as elites europeias estariam dispostas a impor um sofrimento generalizado, em nome da permanência na união monetária”, escreveu Paul Krugman, aqui citado no Negócios, revisitando as suas próprias previsões. O Nobel admite que “ sobrestimou o risco de rutura na zona euro”.


O QUE EU ANDO A LER
Há 13 anos, uma aldeia mudou de geografia. Foi deslocada, para que o local antigo fosse submerso pelas águas do Guadiana e se enchesse a barragem do Alqueva. E agora? Agora “os coelhos morreram e os próprios habitantes da Luz sentem-se uma espécie em vias de extinção”. “ A Aldeia da Luz não mora aqui” é uma excelente reportagem multimédia da Rádio Renascença, de Dina Soares e Joana Bougard. Para ver, ler e ouvir.

Na CNN, pode ver um conjunto raro de fotografias a cores da China de Mao.

Foi em “Franny e Zooey” que conheci o poema haiku que dá o título ao Expresso Curto de hoje. A obra (que, na verdade, são duas obras) é de J.D. Salinger, autor do seminal “Catcher in the Rye”, editado em Portugal pela Quetzal sob o título “À Espera no Centeio”. “Franny e Zooey” não é tão genial, lê-se em duas golfadas, é sobre a natureza humana e a pulsão de inexistência de quem se sente vazio. Salinger não é propriamente o autor mais feliz do mundo.

Felizes são as festas e hoje é noite rija no Porto. Manjerico, alho porro, sardinhas assadas e bailaricos no São João.

Felizes são muitas cartas de amor e hoje o Expresso Diário publicará um bilhete de amor – cheio de erros ortográficos. Erros como este: até amanhã, terá o caro leitor saudades nossas ou saudades de nós? Perceba às 18 horas do que estamos a falar.

Tenha um excelente dia!

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